Eleições 2026

Ao lado de Flávio Bolsonaro, Daniel Santos assume discurso da direita e assume campo político no Pará

Candidato do Podemos sobe ao palanque bolsonarista em Belém, fala em “perseguição” a produtores e garimpeiros e torna mais explícito um posicionamento que, até agora, vinha sendo administrado com cautela pela campanha

Por Estado do Pará Online
15/09/2026 às 15:09 • 7 min
Daniel Santos participa de ato da direita bolsonarista em Belém ao lado de lideranças políticas durante a campanha eleitoral de 2026.

Daniel Santos reforçou sua aproximação com a direita durante ato político realizado em Belém na noite de segunda-feira (14). Foto: Divulgação

Se ainda havia alguma dúvida sobre o espaço político que Daniel Santos (Podemos) pretende ocupar na disputa pelo Governo do Pará, o ato realizado na noite desta segunda-feira (14), no Complexo Ver-o-Rio, em Belém, ofereceu uma resposta mais clara. Ao lado de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República e aliados, Daniel adotou um discurso afinado com algumas das principais bandeiras da direita bolsonarista e fez sua manifestação mais contundente até agora nessa direção.

O EPOL acompanhou a agenda e mostrou que Daniel não participou da carreata organizada por Flávio Bolsonaro e chegou depois do início da programação. Mais tarde, porém, subiu ao palanque e participou do ato político. O comício no Ver-o-Rio reuniu Flávio, Daniel, Éder Mauro, Zequinha Marinho e outras lideranças da direita paraense.

Ver esta publicação no Instagram

Uma publicação partilhada por Estado do Pará Online – EPOL (@estadodoparaonline)

Não se tratou apenas de dividir o mesmo palanque. Em sua fala, Daniel incorporou temas especialmente caros ao eleitorado conservador paraense, principalmente no interior do Estado, ao defender produtores rurais e garimpeiros e acusar o poder público de tratar quem produz como criminoso.

“Flávio, a atividade de produzir no Estado do Pará parece que virou uma atividade de bandido nesse Estado. E conto com você para que essas pessoas possam ter o direito de trabalhar”, em uma clara alusão à vitória do candidato do PL sobre Lula (PT).

O discurso ganhou ainda mais simbolismo quando Daniel mencionou sua candidata a vice-governadora, Ellayne D’Almeida (PL), natural de Itaituba. A escolha de Ellayne já havia sido tratada pelo EPOL como um movimento que ampliou a presença do PL na chapa e estabeleceu uma ponte com o eleitorado conservador do Tapajós.

A própria trajetória política da vice reforça essa leitura. Conforme mostrou o EPOL, Ellayne possui identificação com setores produtivos, comunidades evangélicas e pautas relacionadas ao agronegócio e ao garimpo, além de ter assumido papel na campanha de Flávio Bolsonaro na região da Transamazônica.

Itaituba está no centro de uma das discussões mais sensíveis da política ambiental e econômica paraense. A região do Tapajós concentra forte atividade mineral e, ao mesmo tempo, tem sido alvo recorrente de operações contra garimpos ilegais e crimes ambientais.

A fala de Daniel, portanto, não ocorreu em terreno neutro. Ao escolher esse tema diante de um público identificado com o bolsonarismo e na presença de Flávio Bolsonaro, o candidato do Podemos enviou um recado político para um eleitorado que vinha sendo disputado por diferentes candidaturas.

Uma definição que vinha sendo adiada

Daniel já possuía uma aliança objetiva com a direita. Sua vice é do PL e nomes importantes do bolsonarismo paraense vêm se aproximando de sua candidatura.

Essa aproximação, na realidade, começou bem antes da campanha oficial. Em maio, o EPOL registrou que Daniel Santos e Éder Mauro reforçaram publicamente a aliança durante um evento político em Itaituba, justamente no lançamento da então pré-candidatura de Ellayne D’Almeida à Assembleia Legislativa.

Mas nem sempre essa aproximação ocorreu sem resistência.

Ainda em 2025, o EPOL revelou divergências dentro da própria direita paraense sobre um eventual apoio a Daniel. Naquele momento, integrantes da base bolsonarista cobravam posicionamentos mais claros do então prefeito de Ananindeua e de sua esposa, a deputada federa Alessandra Haber, em relação às pautas defendidas pelo grupo.

Ver esta publicação no Instagram

Uma publicação partilhada por Estado do Pará Online – EPOL (@estadodoparaonline)

A cobrança por uma definição permaneceu durante a construção da candidatura. Mais recentemente, o EPOL mostrou que setores da direita cobravam de Daniel uma manifestação pública de apoio a Flávio Bolsonaro.

Ver esta publicação no Instagram

Uma publicação partilhada por Estado do Pará Online – EPOL (@estadodoparaonline)

Ontem, essa cautela perdeu espaço para um discurso mais definido.

Sumiço e pressão

Nas redes sociais, muitos comentários de apoiadores da família bolsonaro criticaram Daniel por ela não participar da entrevista coletiva nem da carreata realizada anteriormente em apoio a Flávio Bolsonaro pelas ruas de Belém. Sua ausência chegou a levantar dúvidas sobre a participação no comício do Ver-o-Rio.

Quando apareceu, porém, não ficou restrito ao papel protocolar de aliado.

Subiu ao palanque e falou para a base bolsonarista.

O episódio representa uma mudança sobretudo de intensidade. Daniel não começou agora a construir pontes com a direita, mas poucas vezes havia transformado essa aproximação em uma manifestação pública tão direta em um grande ato político.

A aproximação que virou aliança

A evolução dessa relação pode ser observada na própria cobertura do EPOL.

Em junho, Daniel já havia participado de um evento do PL em Belém no qual afirmou ser vítima de perseguição política.

Depois vieram a aliança formal entre Podemos e PL, a indicação de Ellayne para a vice e o apoio presidencial.

No Raio-X Eleitoral publicado pelo EPOL sobre Daniel Santos, o candidato já aparece situado no campo da direita e da oposição ao grupo liderado por Helder Barbalho, com apoio de Flávio Bolsonaro e uma coligação formada por Podemos, PL, DC, Novo e Federação Renovação Solidária.

O que o ato de segunda-feira acrescenta é algo diferente: o discurso passou a acompanhar de maneira mais explícita a composição partidária da candidatura com a direita e o bolsonarismo.

O desafio de manter uma candidatura ampla

Essa definição, entretanto, expõe uma característica curiosa da própria composição política construída por Daniel.

O candidato mantém em seu entorno personagens que não pertencem historicamente ao universo bolsonarista. Um dos exemplos mais evidentes é Lívia Noronha, candidata ao Senado pelo Solidariedade, cuja trajetória política passou pelo PSOL e pelo PT.

Essa mudança de campo político já havia sido objeto de reportagem do EPOL. Em junho, o portal mostrou que Lívia Noronha recebeu críticas após se aproximar de Daniel Santos depois de uma trajetória ligada ao PSOL e ao PT.

Posteriormente, a aliança deixou de ser apenas uma articulação política. Em agosto, a Federação Renovação/Solidária oficializou Lívia Noronha ao Senado e anunciou formalmente apoio a Daniel Santos.

A composição mostra uma candidatura que procurou, desde sua formação, reunir forças de diferentes origens em torno de um ponto de convergência: a oposição ao grupo político liderado por Helder Barbalho.

Até aqui, essa amplitude permitia a Daniel conversar simultaneamente com setores conservadores, bolsonaristas, eleitores de centro e personagens com trajetória ligada à esquerda.

O discurso de segunda-feira coloca essa estratégia diante de um novo teste, pois meesmo que tenha subido no palanque de Flávio Bolsonaro, Daniel continua com lulistas e esquerdistas em sua campanha denominada de “Frente Ampla”.

Daniel escolhe um lado, sem necessariamente fechar a outra porta

A questão que passa a acompanhar a campanha é saber até onde Daniel pretende avançar nessa identificação.

A aliança entre PL e Podemos também já enfrentou ruídos. Em agosto, o EPOL mostrou que a ausência do nome de Daniel em material de campanha de Éder Mauro e a prioridade dada por Daniel a Zequinha Marinho para o primeiro voto ao Senado levantaram questionamentos sobre a unidade da direita.

Leia também:

WhatsApp