Política

Após sucessivas derrotas eleitorais pelo PSOL e PT, Lívia Noronha recebe críticas por se unir a Daniel para disputar vaga ao senado

Por Estado do Pará Online
21/06/2026 às 02:58 • 5 min
Lívia Noronha e Daniel Santos durante evento promovido pelo partido Cidadania, em Ananindeua

Lívia Noronha e Daniel Santos durante evento promovido pelo partido Cidadania, em Ananindeua, selou a pré-candidatura ao senado e sua aliança com o ex-prefeito de Ananindeua, que já firmou compromisso de apoiar a reeleição de Zequinha Marinho e Éder Mauro ao senado. Foto: Redes Sociais/DIvulgação.

Uma das marcas mais visíveis do atual processo eleitoral no Pará é a crescente distância entre o discurso político e as alianças construídas na prática. Em um cenário de forte polarização ideológica entre direita e esquerda, não são raros os casos de lideranças que, em poucos anos, transitam entre campos políticos historicamente antagônicos, provocando estranhamento entre eleitores e militantes.

Um dos exemplos que tem despertado debates nos bastidores da política paraense envolve a trajetória recente da militante de esquerda, Lívia Noronha.

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Educadora com trajetória nos movimentos sociais e partidos de esquerda, Lívia disputou uma vaga de deputada estadual pelo PSOL em 2022 e de vereadora em Belém pelo PT em 2024, onde esteve alinhada com o senador Beto Faro, líder do PT e apontado como o principal aliado do ex-governador Helder Barbalho no PT paraense. Indicada por Beto, Lívia assumiu a Coordenadoria da Mulher de Belém, após ser nomeada pelo ex-prefeito Edmilson Rodrigues (PSOL), derrotado nas eleições municipais de 2024.

A publicação do vídeo ao lado de Daniel Santos fez com que a pré-candidata ao senado fosse bombardeada por seus seguidores e companheiros da esquerda paraense. Foto: Redes Sociais.
Lívia Duarte é “detonada” por seus próprios seguidores após publicar vídeo ao lado de Daniel Santos. “Vou guardar esse post”, diz um. Foto: Redes Sociais.

Em janeiro do ano passado, o então prefeito de Ananindeua, Daniel Santos (PSB), oficializou uma reestruturação administrativa no município e criou a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e indicou Lívia Noronha (PT) como titular da pasta.

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Cabe lembrar que antes disso, Lívia foi candidata a prefeita de Ananindeua nas eleições de 2020 e concorreu ao pleito eleitoral fazendo forte oposição a Daniel. No papel de militante de esquerda sempre atacou Daniel com duras críticas e acusações sobre sua gestão, considerada por ela como “desastrosa para a população de Ananindeua”. No fim, Lívia obteve 12,04% dos votos, alcançando a segunda posição naquela disputa.

Em alguns vídeos de sua campanha em 2020, Lívia criticou a falta de um hospital público em Ananindeua e fazendo um contraste, mostrou as obras de ampliação do Hospital Santa Maria, do qual o prefeito Daniel era sócio, chamando-o como “parte de seu império”. Cinco anos depois, aceitou o cargo de secretária no governo do ex-rival, com salário superior a R$ 10 mil.

Após anos de atuação vinculada ao PSOL e de defesa de pautas tradicionalmente associadas à esquerda, a ex-candidata decidiu ser politicamente “adotada” por Daniel Santos e passou a integrar uma articulação política que mais parece um emaranhado retalho de interesses eleitorais totalmente antagônicos, para não chamar de outra coisa.

A movimentação de Lívia e Daniel chama atenção porque ocorre em um ambiente onde também circulam lideranças identificadas com o campo conservador, como Éder Mauro, Delegado Caveira e Zequinha Marinho. Embora nem sempre estejam lado a lado nos mesmos eventos públicos, como o que reuniu e selou a aliança entre Flávio Bolsonaro e Daniel Santos, ou postagens da pré-campanha campanha, a convergência em determinados espaços políticos tem alimentado questionamentos sobre os limites entre estratégia eleitoral e coerência ideológica.

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Pragmatismo e fisiologismo político andam de braços dados

O fenômeno não é exclusivo do Pará. Em diversos estados brasileiros, partidos e lideranças têm flexibilizado antigas barreiras programáticas em nome da construção de chapas competitivas e da ampliação de alianças. Para os defensores dessa prática, trata-se de pragmatismo político necessário para viabilizar projetos eleitorais. Já os críticos enxergam uma forma de fisiologismo partidário que enfraquece identidades ideológicas e dificulta ao eleitor compreender quais valores efetivamente orientam determinadas candidaturas.

A presença de figuras como o ex-deputado Arnaldo Jordy em eventos que reúnem atores de diferentes espectros políticos também ilustra como as fronteiras tradicionais entre esquerda, centro e direita se tornaram mais fluidas. O que antes parecia improvável passou a ser tratado como uma possibilidade estratégica dentro da lógica das coalizões eleitorais.

Nesse contexto, o debate deixa de ser apenas sobre partidos e passa a envolver a credibilidade dos discursos. Afinal, quando alianças contradizem posições defendidas durante anos, surge uma pergunta inevitável: até que ponto as convicções ideológicas permanecem como elemento central da política e em que momento passam a ser substituídas exclusivamente pelos cálculos eleitorais?

Essa é uma discussão que tende a ganhar força ao longo da campanha de 2026, especialmente em um estado onde as disputas pelo Governo e pelo Senado prometem reorganizar alianças, desafiar antigas narrativas e colocar à prova a coerência política de diversos protagonistas do cenário paraense.

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