Política

As contradições e a divisão nos grupos políticos que disputam o poder no Pará

Por Estado do Pará Online
16/06/2026 às 15:03 • 4 min
Foto do deputado estadual Chicão ao lado do prefeito de Igarapé Miri, Roberto Pina

Pré-candidato a senador pela base governista, Chicão (União), foi descartado como candidato do prefeito de Igarapé-Miri, Roberto Pina (PT), que declarou voto em Helder e em Celso Sabino.

A visita do senador Flávio Bolsonaro ao Pará acabou produzindo um efeito que vai muito além da agenda política inicialmente planejada. Em vez de consolidar discursos de unidade e alinhamento estratégico para as eleições de 2026, a passagem do principal representante do bolsonarismo nacional evidenciou fissuras que atravessam tanto a oposição quanto a base governista no estado.

Na direita paraense, o episódio mais comentado foi a ausência do pré-candidato, Daniel Santos em momentos considerados relevantes da agenda. O fato gerou especulações e reacendeu debates sobre o grau de unidade existente entre as diferentes correntes da direita paraense que disputam protagonismo dentro do campo conservador. Embora Daniel conte com o apoio de lideranças importantes do PL e de setores bolsonaristas, sua pré-candidatura também enfrenta resistências internas.

As críticas do prefeito de Marabá, Toni Cunha, e as manifestações do ex-senador Mário Couto demonstram que o processo de construção de uma candidatura unificada está longe de ser uma tarefa simples. Mais do que divergências pessoais, o que está em jogo é a disputa pelo comando político da direita paraense, em um momento em que diversos grupos tentam ocupar o espaço de principal alternativa ao atual governo estadual.

Wlad x Allen

As tensões aumentam quando antigos aliados passam a ocupar posições contraditórias. O caso envolvendo o ex-deputado federal Wladimir Costa e o pré-candidato Allen do Pará revela uma dificuldade recorrente na política contemporânea: a compatibilização dos discursos do passado com as alianças do presente. Quando denúncias, acusações e críticas anteriores são confrontadas com novos alinhamentos políticos, surge um ambiente de desconfiança que acaba alimentando questionamentos entre os próprios eleitores e apoiadores.

Mas se a oposição enfrenta dificuldades para demonstrar unidade, a situação da base governista também não parece confortável.

O racha e a rebeldia petista

A cena envolvendo o pré-candidato ao Senado Chicão e o prefeito de Igarapé-Miri, Roberto Pina, tornou-se emblemática. Ao declarar publicamente que não pretende votar em Chicão para o Senado, preferindo apoiar Helder Barbalho e Celso Sabino, o principal prefeito petista no Pará (o PT só tem dois prefeitos eleitos) expôs um problema que vai além de uma simples divergência eleitoral. O episódio revela que o apoio institucional nem sempre se converte em apoio político efetivo na ponta, especialmente quando prefeitos e lideranças locais fazem seus próprios cálculos eleitorais.

O caso ganha contornos ainda mais relevantes quando observado sob a ótica do Partido dos Trabalhadores. Com uma presença reduzida entre os prefeitos paraenses, o PT enfrenta dificuldades históricas para ampliar sua influência municipal. Nesse contexto, as críticas dirigidas ao senador Beto Faro por setores da própria legenda ganham peso político.

Parte da militância petista acusa a direção estadual de ter abandonado bandeiras históricas do partido em favor de uma relação excessivamente subordinada ao MDB e ao grupo político liderado pela família Barbalho. Independentemente da procedência ou não dessas críticas, o fato é que elas revelam um desconforto crescente entre segmentos da esquerda paraense que enxergam uma perda de identidade partidária em troca de espaços institucionais e alianças eleitorais.

O desafio do PT no Pará passa justamente por essa contradição. De um lado, a necessidade pragmática de participar de uma ampla coalizão governista. De outro, a pressão interna para preservar sua autonomia política e seu discurso histórico. Quanto mais a disputa eleitoral se aproxima, mais difícil se torna equilibrar esses dois objetivos.

A política paraense nos últimos dias deixa uma lição importante: a polarização entre governo e oposição muitas vezes esconde conflitos ainda mais profundos dentro dos próprios grupos políticos. Enquanto a direita busca definir quem exercerá sua liderança em 2026, a base governista enfrenta o desafio de administrar divergências internas e manter coesa uma aliança construída por interesses diversos.

No fim das contas, os acontecimentos recentes demonstram que a principal disputa eleitoral do Pará talvez não esteja ocorrendo apenas entre adversários, mas dentro dos próprios campos políticos que pretendem chegar fortalecidos às urnas. E, como costuma acontecer na política, os conflitos internos podem ser tão decisivos quanto os enfrentamentos externos.

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