Eleições 2026

Sem embate direto, Hana Ghassan segue refém da máquina de Helder enquanto Daniel dita o ritmo da eleição no Pará

Empate técnico entre governadora e candidato do Podemos expõe um problema que não é de pesquisa, mas de estratégia: enquanto Daniel constrói um inimigo claro, a campanha de Hana ainda não apresentou uma narrativa própria capaz de sustentá-la sem o nome de Helder Barbalho

Por Diógenes Brandão
01/09/2026 às 22:41 • 8 min
Hana Ghassan e Dr. Daniel Santos aparecem em lados opostos, com Helder Barbalho ao centro, em montagem sobre a eleição para o Governo do Pará em 2026

Hana Ghassan e Dr. Daniel disputam o Governo do Pará, enquanto Helder Barbalho permanece no centro da sucessão estadual. Arte: EPOL

A disputa pelo Governo do Pará chegou a setembro com um retrato que este portal já vinha sinalizando desde junho: Dr. Daniel Santos (Podemos) e Hana Ghassan (MDB) seguem tecnicamente empatados, mas apenas um dos dois parece saber, com clareza, contra quem e por que está competindo. Enquanto o ex-prefeito mirou e prefere mirar sua campanha contra um adversário nomeado – o ex-governador Helder Barbalho, evitando assim dar visibilidade à Hana, a campanha do MDB insiste em uma estratégia de baixo risco e sem que Hana cite Daniel; Há pouco menos de seis semanas antes do primeiro turno, essa estratégia começa a cobrar um preço político.

A pesquisa Quaest divulgada no sábado (29), contratada pela Globo/TV Liberal, mostra Daniel com 28% e Hana com 27%, diferença dentro da margem de erro de três pontos. No cenário de segundo turno, o empate é espelhado: 36% a 36%. Os números foram apurados entre 25 e 28 de agosto, com 804 entrevistas, sob os registros PA-07718/2026 e BR-05309/2026.

Não é um dado isolado. Já em dezembro de 2025, uma pesquisa Doxa mostrava Daniel na liderança, com 29,4%, contra 19,8% de Hana, Na época, o EPOL já registrava que a então vice-governadora, apesar da exposição pública, não crescia entre uma pesquisa e outra.

Em abril, outro levantamento Doxa voltou a apontar empate técnico entre os dois, com Daniel oscilando entre 27,7% e 29,3% e Hana entre 25,4% e 27%. A Quaest de agosto, portanto, não inaugura o empate: apenas confirma um padrão que se arrasta há praticamente um ano, mesmo depois das convenções, da largada oficial da campanha e da entrada da propaganda eleitoral no rádio e na TV.

Vale registrar que nem todo instituto mede o cenário da mesma forma: uma pesquisa AtlasIntel divulgada em 20 de agosto, contratada pela Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Pará, chegou a apontar Hana com folga, em 48,6% contra 40,5% de Daniel. A discrepância entre institutos é, em si, um sintoma da imprevisibilidade da disputa – mas não muda o diagnóstico de fundo sobre a forma como cada campanha vem se comunicando.

Daniel tem estratégia. Hana tem herança

A leitura mais confortável para o entorno de Hana é a de que a ausência de confronto direto seria uma opção deliberada de campanha acima do barulho. A leitura mais honesta é outra, e o EPOL já a havia antecipado em junho, ao descrever a disputa como um “paradoxo paraense” entre o discurso antagonista de Daniel e a inércia programática dos dois lados: Daniel construiu, com consistência, uma narrativa de mudança contra um adversário nítido: o grupo político que governa o Pará desde 2019, enquanto a governadora, até aqui, não apresentou nada equivalente para colocar no lugar.

Ao mirar Helder e a família Barbalho, Daniel evita o erro de dar palco antecipado a Hana, hoje ainda desconhecida por 43% do eleitorado segundo a própria Quaest. A estratégia não é nova: o EPOL já mostrava, ainda em março, que Daniel rompeu politicamente com o grupo de Helder – apesar de ter sido reeleito em 2024 com apoio dele – para se viabilizar como o nome capaz de enfrentar a então vice-governadora. Mas o efeito colateral dessa estratégia é revelador: ela só funciona porque a campanha de Hana aceita, na prática, ser representada por outra pessoa. Não é Daniel quem apaga Hana do centro do debate – é a própria campanha dela que escolhe não ocupar esse espaço.

A aposta na continuidade está virando dependência

A comunicação de Hana tem se apoiado fortemente na exposição do cargo, na divulgação de ações do governo – como no vídeo de balanço e projeções que ela publicou ao lado de Helder no Natal passado, reforçando obras de infraestrutura e o discurso de continuidade — e na construção de uma agenda voltada às mulheres. São elementos legítimos, mas que até agora funcionam mais como vitrine administrativa do que como projeto político autoral.

Essa dependência ficou visualmente explícita na Convenção Estadual do MDB, em 1º de agosto, quando balões instalados em frente ao Mangueirinho exibiam lado a lado os nomes e números de Hana, Helder e Chicão – um material que, segundo o próprio EPOL relatou, chegou a gerar questionamentos sobre propaganda eleitoral antecipada. O evento marcou, na prática, a passagem simbólica de um governo liderado diretamente por Helder para um projeto que tenta preservar a mesma estrutura sob o comando de Hana. Poucos dias antes, o EPOL também mostrou que a Convenção Nacional do MDB colocou Hana e Helder entre as prioridades do partido para 2026, reforçando publicamente que a candidatura da governadora nasce e cresce dentro da mesma engrenagem partidária de seu padrinho político.

Analistas ouvidos por este canal são categóricos: apoiar-se na aprovação de Helder – que a Quaest de julho media em 66% – é um ativo real, mas não é uma estratégia: é um empréstimo. E empréstimo de popularidade tem prazo de validade e taxa de juros. Quanto mais a campanha adia a construção de uma identidade própria para Hana, maior é o risco de ela chegar à reta final sendo apenas o nome que herdou a máquina, e não a candidata que convenceu o eleitorado por conta própria.

Essa é a diferença entre gestão e narrativa. Governar bem não substitui contar bem a própria história – e é exatamente nesse segundo campo que a campanha de Hana precisa parar de esperar que o partido, a estrutura ou o próprio Helder resolvam o problema por ela. Marketing de campanha existe para transformar aprovação de governo em voto para a sucessora. Se isso ainda não aconteceu depois de quase um ano de empate técnico registrado em pesquisas sucessivas, o problema não é a pesquisa: é a comunicação.

Os indecisos não vão esperar

Os números da Quaest deixam claro que a disputa segue aberta para quem souber ocupá-la. No estímulo espontâneo das pesquisas, em média, 69% dos eleitores ainda não sabem em quem votar. Mesmo com os nomes apresentados, 29% seguem indecisos. E 43% dizem não conhecer Hana – quase o mesmo patamar dos 44% que não conhecem Daniel, apesar de ela ocupar o Palácio dos Despachos. Já em junho, o EPOL registrava um contingente semelhante de indecisos, então na casa dos 35%, como evidência de que o eleitorado seguia sem elementos suficientes para decidir.

Isso significa uma coisa simples: a vantagem estrutural de estar no poder não está se convertendo automaticamente em vantagem eleitoral. E quando isso acontece, a explicação recorrente da ciência política é sempre a mesma: falha de narrativa, não falta de máquina.

Helder ganha nos dois cenários. Hana só ganha em um deles

Há uma assimetria que interessa nomear, e que o EPOL já vinha descrevendo desde junho: Helder Barbalho lucra com a centralidade da disputa em qualquer desfecho. Se Daniel o ataca, ele segue como principal referência da oposição a combater – o que fortalece sua própria candidatura ao Senado. Se Hana o exalta como legado, ele segue como fiador da continuidade – o que também sustenta seu protagonismo. Em ambos os casos, quem sai fortalecido do atual desenho é o ex-governador, não necessariamente sua sucessora.

Para Hana, a conta é mais arriscada. Ela pode se beneficiar da estrutura, da aprovação e do capital político de Helder – mas só até o momento em que o eleitorado exigir dela, e não dele, respostas sobre o próprio governo. Esse momento tende a chegar nos debates, nas entrevistas e na fase decisiva da campanha, quando comparação de propostas deixa de ser opcional. Do outro lado, Daniel também tem seus próprios testes de resistência a superar: a convenção do Podemos que oficializou sua candidatura, em agosto, funcionou como termômetro da sua capacidade de reação após a crise de imagem gerada pelo vazamento de um suposto vídeo íntimo – episódio que, mesmo assim, não foi capaz de romper o empate técnico registrado semanas depois pela própria Quaest.

O tempo da narrativa emprestada está acabando

Faltam pouco mais de trinta dias para o primeiro turno, em 4 de outubro. A partir de agora, biografia, aliança e slogan deixam de ser suficientes. Se a campanha de Hana continuar tratando o empate técnico como normalidade estatística, e não como sintoma de um problema de comunicação, corre o risco de entrar na reta final na defensiva – precisando explicar por que uma governadora em exercício, apoiada por um grupo político de alta aprovação, ainda não conseguiu abrir vantagem consistente sobre um adversário que fala, na maior parte do tempo, sobre outra pessoa.

A pergunta que resta não é mais sobre pesquisa. É sobre responsabilidade: até quando a candidatura de Hana Ghassan vai tratar como suficiente o que a máquina e o grupo político entregam prontos, em vez de assumir que parte desse trabalho – convencer o eleitor, contar a própria história, apresentar resultados de comunicação – é tarefa da campanha, e ainda não foi cumprida.

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