Eleições 2026

Pará em ebulição: crises na direita e na esquerda tornam eleição imprevisível

Rachas no PT, no PL e no NOVO, disputa pela vice de Hana, pressão evangélica e empate técnico entre a governadora e Dr. Daniel expõem uma eleição em que ninguém controla inteiramente o próprio campo político e por isso, não tem favoritos, só torcidas.

Por Diógenes Brandão
04/08/2026 às 05:53 • 20 min
Crise política no Pará divide direita e esquerda nas eleições de 2026

Rachas partidários e disputas pelo poder aumentam a tensão na eleição para o Governo do Pará. Crédito: EPOL

Faltando cerca de dois meses para as eleições, o Pará entrou em estado de ebulição política. A temperatura subiu ao mesmo tempo na esquerda, na direita, na base governista e entre lideranças evangélicas. Partidos que deveriam estar concentrados em enfrentar os adversários gastam energia tentando administrar os próprios conflitos, enquanto candidaturas proporcionais, projetos familiares, disputas pelo Senado e a escolha dos vices pressionam alianças construídas sobre interesses nem sempre convergentes.

Não se trata apenas da polarização entre a governadora Hana Ghassan (MDB) e o ex-prefeito de Ananindeua Dr. Daniel Santos (Podemos). A eleição paraense de 2026 contém várias eleições dentro da eleição. Há a guerra pela sucessão estadual, a corrida por duas vagas no Senado, a disputa pelo palanque do presidente Lula, a tentativa da direita de se organizar em torno de Daniel e a batalha de diferentes igrejas e convenções religiosas por espaço nas chapas majoritárias.

O resultado é um cenário em que quase todos possuem força, mas ninguém tem controle absoluto. A maior aliança partidária – do MDB em torno de Hana – não conseguiu abrir vantagem. A oposição – representada por Daniel – perdeu a dianteira confortável indicada por algumas pesquisas há poucos meses atrás. O PT está formalmente na coligação governista, mas parte de suas lideranças históricas escolheu outros palanques. O PL tenta eleger Éder Mauro ao Senado enquanto assiste a uma guerra pública entre seus próprios integrantes. No NOVO, uma candidatura própria ao governo – Vavá Martins – foi anunciada, desmentida e descartada no mesmo dia, em meio a um confronto entre dois candidatos a deputado federal. E o segmento evangélico, frequentemente apresentado como um bloco, mostra-se dividido por partidos, lideranças e projetos concorrentes.

No PT, uma crise que saiu dos bastidores e subiu aos palanques

A convenção da Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, oficializou o apoio à reeleição de Hana, homologou Dirceu Ten Caten como candidato a vice-governador e confirmou apoio a Helder Barbalho (MDB) e Chicão, hoje filiado ao União Brasil, para o Senado. Essa é a posição formal do partido e da federação no Pará. O problema é que a posição oficial já não representa, com a mesma intensidade, todas as suas principais lideranças.

O ex-senador Paulo Rocha e a ex-governadora Ana Júlia Carepa romperam o silêncio e passaram a demonstrar publicamente apoio a Celso Sabino (PDT) para o Senado. Também participaram de ato ao lado de Araceli Lemos, candidata do PSOL ao Governo do Pará, num gesto que contraria politicamente a decisão do diretório petista de apoiar Hana, Helder e Chicão.

O movimento é carregado de simbolismo. Paulo Rocha e Ana Júlia não são filiados comuns. Eles representam uma parte importante da história do PT no Pará e possuem ligação direta com a memória dos governos petistas e com o presidente Lula. Quando sobem em palanques diferentes daquele definido pela direção estadual, não anulam a convenção partidária, mas deixam evidente que a unidade anunciada nos documentos não existe integralmente na prática.

O apoio a Celso Sabino também mostra como as alianças de 2026 desafiam as antigas fronteiras ideológicas. Sabino foi do PSDB, integrou o União Brasil e, durante parte do governo Jair Bolsonaro, alinhou-se a pautas e articulações da base governista no Congresso. Depois, tornou-se ministro do Turismo de Lula, resistiu à ordem do União Brasil para deixar o governo federal, acabou expulso da legenda e filiou-se ao PDT. Sua candidatura ao Senado, oficializada pelo PDT, hoje procura se apresentar como um dos palanques mais firmes de Lula no Pará.

Para os aliados de Ana Júlia e Paulo Rocha, o que pesa é a posição mais recente de Sabino em defesa do governo petista. Para os críticos, o apoio expõe o grau de pragmatismo de um campo que combate a direção estadual do PT, mas aceita como aliado um político que já transitou pela base bolsonarista. A contradição existe, mas não é exclusiva desse grupo: ela resume a fluidez de quase todas as alianças paraenses desta eleição.

Beto Faro, a Articulação Socialista e a cobrança por projetos familiares

No centro da crise está o senador Beto Faro, presidente estadual do PT e principal liderança da Articulação Socialista (AS) no Pará. Seu grupo controla a maioria do diretório e foi decisivo para manter a aliança com o MDB, apoiar a indicação de Dirceu Ten Caten e rejeitar as propostas de maior protagonismo apresentadas por correntes adversárias.

As críticas à condução de Beto, porém, não começaram agora. Em 2020, o blog As Falas da Pólis já registrava reclamações de militantes que acusavam a direção petista de fortalecer o MDB enquanto o PT perdia quadros e presença municipal. Seis anos depois, o mesmo debate reaparece com maior intensidade: até que ponto a longa aliança com o grupo Barbalho fortaleceu o PT e até que ponto beneficiou apenas setores específicos da legenda?

Adversários internos acusam Beto de priorizar o próprio núcleo político. Sua esposa, a deputada federal Dilvanda Faro, disputa a reeleição, enquanto o filho do casal, Yuri Faro, vice-prefeito de Acará, estreia como candidato à Câmara dos Deputados. Não há ilegalidade em integrantes de uma mesma família disputarem cargos eletivos. A cobrança é política: dirigentes e militantes querem saber se a estrutura partidária está sendo utilizada para reconstruir coletivamente o PT ou para concentrar poder em torno da família que controla sua corrente majoritária.

O encolhimento municipal aumenta o peso dessa pergunta. O PT, que já comandou 27 prefeituras paraenses, saiu das eleições de 2024 com apenas duas. A aliança com Helder ajudou Beto a chegar ao Senado em 2022 e garantiu ao partido presença no governo estadual, mas não foi capaz de impedir a perda de capilaridade eleitoral da legenda.

É nesse ambiente que circula a informação de que Beto poderia defender candidatura própria ao Governo do Pará caso o MDB rejeite Dirceu Ten Caten como vice de Hana. Até agora, porém, essa possibilidade não foi formalizada pelo senador nem pela direção da federação.

Candidatura própria do PT: ameaça real ou instrumento de pressão?

Na situação atual, a hipótese tem mais consistência como instrumento de negociação do que como projeto competitivo para vencer a eleição.

Primeiro, porque a Federação Brasil da Esperança já realizou convenção e aprovou formalmente a aliança com Hana, além da candidatura de Dirceu a vice. Uma mudança dessa dimensão não dependeria apenas da vontade de Beto Faro. Exigiria uma nova decisão política e jurídica da federação, envolvendo também PCdoB e PV, justamente no encerramento do prazo das convenções partidárias, que termina nesta quarta, 05 de agosto. O registro das candidaturas poderá ser feito até 15 de agosto.

Segundo, porque faltam estrutura própria, unidade interna e tempo. Em levantamento Doxa realizado em junho, Beto apareceu com 3,6% das intenções de voto, distante de Hana e Daniel. Uma candidatura lançada a pouco mais de 60 dias da eleição teria de construir chapa, programa, palanques municipais, comunicação, financiamento e identidade eleitoral ao mesmo tempo em que enfrentaria duas campanhas consolidadas.

Terceiro, porque uma ruptura colocaria em risco os acordos que sustentam as candidaturas proporcionais do próprio PT – inclusive as de Dilvanda e Yuri Faro. Romper com o MDB poderia devolver protagonismo ideológico à legenda, mas também retiraria acesso a prefeitos, alianças regionais e estruturas que o grupo de Beto levou anos para construir.

Isso não significa que a ameaça seja vazia. Se o MDB rejeitar Dirceu depois de o PT homologá-lo, Beto sofrerá uma desmoralização diante da militância e precisará reagir. Uma candidatura própria poderia funcionar como resposta política, preservar um palanque exclusivo para Lula e tentar reconstruir a identidade petista. O problema é que, nas condições atuais, teria mais capacidade de dividir votos e alterar a disputa entre Hana e Daniel do que de chegar ao segundo turno.

Em resumo: a candidatura de Beto é possível como gesto de ruptura, improvável como decisão estratégica e, pelos dados disponíveis, muito distante de ser uma candidatura com chance real de vitória. A ameaça é forte para negociar; o projeto, até agora, é fraco para governar a eleição.

O gigante governista que ainda não transferiu toda a sua força

Do outro lado da crise está uma contradição igualmente relevante. Hana Ghassan possui a maior estrutura política da eleição paraense, mas ainda não transformou essa superioridade organizacional em vantagem eleitoral consolidada.

A aliança governista reúne 14 partidos e o MDB elegeu 83 prefeitos em 2024, enquanto o grupo liderado por Helder mantém o apoio de amplas maiorias na Assembleia Legislativa e na bancada federal paraense. A coligação deverá concentrar o maior tempo de rádio e televisão, além de contar com forte presença municipal e com as vantagens de visibilidade próprias de quem ocupa o Governo do Estado.

Helder também permanece como o maior ativo eleitoral do grupo. A Genial/Quaest de julho apontou que 66% dos paraenses aprovam o trabalho realizado por ele no governo, contra 25% de desaprovação. Na corrida ao Senado, o ex-governador lidera todos os cenários testados, variando entre 21% e 23% na combinação dos dois votos. Hana registra 49% de aprovação e 21% de desaprovação, mas 30% dos entrevistados ainda não souberam avaliar seu governo. Chicão, por sua vez, apareceu com apenas 3% no principal cenário para o Senado divulgado pela Quaest.

Os números revelam que aprovação administrativa, liderança pessoal e transferência de votos são fenômenos diferentes. O eleitor pode aprovar Helder, votar nele para o Senado e, ainda assim, não escolher automaticamente Hana para o governo nem Chicão para a segunda vaga de senador.

A distância entre estrutura e intenção de voto chama ainda mais atenção diante do volume de recursos movimentados nos últimos anos. O Pará registrou recorde mensal de arrecadação de ICMS em janeiro de 2024, quando alcançou R$ 2 bilhões. Para obras e programas relacionados à COP30 e a outras áreas, a Assembleia Legislativa aprovou, ainda em 2023, operações de crédito de até R$ 5,3 bilhões, incluindo R$ 3 bilhões para o plano de investimentos ligado à conferência. Governo estadual e governo federal também anunciaram cerca de R$ 4 bilhões em obras estruturantes para Belém.

Esses investimentos deixaram obras e visibilidade, mas também colocaram no debate o custo dos empréstimos, a transparência das contratações e o impacto sobre orçamentos futuros. A oposição tentará transformar esse passivo político em narrativa eleitoral; o governo procurará apresentar as intervenções como legado permanente.

É importante fazer uma distinção: a existência de uma ampla base, de obras públicas e das vantagens naturais da incumbência não comprova, por si só, uso eleitoral ilegal da máquina. Eventual abuso de poder político ou econômico depende de fatos concretos, documentação e apuração pela Justiça Eleitoral. Politicamente, contudo, é inegável que Hana disputa a eleição apoiada por uma estrutura muito superior à dos adversários – e justamente por isso o empate nas pesquisas provoca tanta inquietação no grupo governista e anima a oposição que segue empolgada em campanha.

Hana cresceu, Daniel recuou e a eleição voltou ao ponto de partida

Durante meses, pesquisas de diferentes institutos apontaram vantagem de Dr. Daniel, em alguns casos com diferença expressiva. Esse cenário mudou.

Na rodada da Genial/Quaest realizada em abril, Daniel tinha 34% contra 29% de Hana em uma simulação de segundo turno. Em julho, a governadora apareceu numericamente à frente, com 36%, contra 35% do candidato do Podemos. A diferença está dentro da margem de erro de três pontos percentuais, conforme o relatório divulgado pelo instituto.

No primeiro turno, Hana marcou 24% e Daniel 20%, também em empate técnico. Mário Couto apareceu com 11%, enquanto Araceli Lemos, Cleber Rabelo e Raquel Brício registraram 2% cada. Outros 26% não souberam responder e 13% declararam voto branco, nulo ou ausência.

O dado mais explosivo talvez seja outro: 68% dos eleitores paraenses disseram que ainda podem mudar de voto caso algo aconteça. Apenas 30% consideram sua escolha definitiva. Isso significa que a campanha começará oficialmente com a maioria do eleitorado aberta a novos argumentos, denúncias, alianças, erros e acontecimentos inesperados.

Os levantamentos de Veritá, Doxa, Simetria e Quaest produziram fotografias numéricas diferentes ao longo do ano, por causa de períodos, amostras e metodologias distintas. A convergência possível não está na existência de um favorito absoluto, mas na constatação de que Hana e Daniel concentram a polarização e chegam à campanha competitivos.

Daniel entra na convenção do Podemos desta terça-feira, 4 de agosto, com a missão de demonstrar força, homologar sua candidatura e a de Zequinha Marinho ao Senado e provar que consegue organizar uma coalizão capaz de enfrentar o grupo de Helder. Para ele, já não basta representar o sentimento antibarbalhista. Será necessário apresentar um projeto de governo, ampliar alianças e impedir que conflitos internos da direita contaminem sua campanha.

Essa unidade ainda não está garantida. Em maio, um encontro do Podemos já havia exposto cobranças públicas de Wladimir Costa por espaço para candidatos proporcionais. Agora, a guerra entre Éder Mauro e Zezinho Lima aprofunda a instabilidade entre lideranças do PL que deveriam atuar no mesmo campo eleitoral.

No NOVO, candidatura própria é anunciada, desmentida e descartada

A crise da oposição também alcançou o NOVO. Até então, o ex-deputado federal Vavá Martins vinha defendendo publicamente Dr. Daniel e chegou a classificar como “incondicional” o apoio oferecido ao ex-prefeito de Ananindeua. Na segunda-feira (3), porém, mudou radicalmente de posição: declarou-se decepcionado com a condução política do aliado, acusou o candidato do Podemos de abandonar compromissos e de não dar atenção aos candidatos do partido e afirmou que iria ao encontro do NOVO para sair de lá candidato ao Governo do Pará.

A versão ganhou as redes sociais e chegou a ser noticiada como uma reviravolta na disputa estadual. Durante o evento, entretanto, a direção do NOVO desmentiu Vavá e reafirmou o apoio a Dr. Daniel. O partido informou que não havia aprovado candidatura própria ao Palácio dos Despachos e que continuava integrado à articulação oposicionista liderada pelo Podemos.

O impasse desembocou em confronto público. Vavá e Allen Rechene, conhecido como Allen pelo Pará, trocaram acusações diante de filiados e apoiadores. Vídeos mostraram grupos rivais entoando os nomes dos dois candidatos, enquanto dirigentes tentavam conter o clima de hostilidade. Vavá acusou Allen e a direção estadual de submeterem o partido ao projeto de Daniel; Allen contestou a tentativa de Vavá estar sendo pago pela família Barbalho de alterar a decisão partidária.

Há uma diferença importante entre o ato político de segunda-feira e a decisão formal da legenda. Segundo a ata divulgada após a convenção oficial realizada em 24 de julho, o NOVO homologou 13 candidaturas à Câmara dos Deputados, incluindo Vavá Martins e Allen pelo Pará, e 15 nomes para a Assembleia Legislativa. O documento não aprovou candidatura ao governo e delegou à direção estadual poderes para concluir as alianças majoritárias.

Ao final, prevaleceu aquilo que constava na deliberação partidária: Vavá e Allen permaneceram na nominata federal, a candidatura própria ao governo não foi homologada e o NOVO manteve o apoio político a Daniel. A candidatura de Vavá existiu como anúncio e tentativa de produzir um fato político, mas não se transformou em decisão válida do partido.

O episódio é revelador porque mostra a fragilidade da unidade oposicionista justamente na véspera da convenção do Podemos. Daniel preservou formalmente o apoio do NOVO, mas recebeu um aliado ferido e uma legenda dividida entre projetos proporcionais concorrentes. Em campanhas apertadas, crises assim não precisam romper uma coligação para produzir danos: basta consumir tempo, gerar desconfiança e oferecer ao adversário as imagens de um palanque em conflito.

Éder Mauro e Zezinho Lima transformam o racha do PL em guerra de denúncias

O conflito entre o deputado federal Éder Mauro e o vereador de Belém Zezinho Lima, ambos do PL, ultrapassou a troca de críticas políticas e chegou à Polícia Federal, ao Ministério Público Federal e à Procuradoria-Geral da República.

Éder acusa Zezinho Lima e o presidente da Câmara de Belém, John Wayne, de terem articulado o pagamento de R$ 20 mil a Lucas Rêgo, ex-assessor citado no caso, para produzir um vídeo com denúncias falsas contra o deputado. Para sustentar sua versão, divulgou comprovantes de transferências via Pix e conversas atribuídas aos envolvidos.

Zezinho admite que houve transferências – R$ 10 mil obtidos com John Wayne, R$ 5 mil de sua própria conta e R$ 5 mil enviados por intermédio de sua irmã – mas nega que o dinheiro tenha sido pagamento por uma denúncia falsa. Afirma que ajudou Lucas porque ele estaria em situação de desespero e sustenta que as acusações contra Éder devem ser investigadas. O vereador protocolou representações nas quais acusa o deputado de irregularidades envolvendo emendas parlamentares destinadas à saúde. Éder nega e diz ser vítima de uma armação para prejudicar sua candidatura ao Senado e disse que Zezinho age como um “Cavalo de Tróia dentro do PL

Lucas também divulgou vídeos com declarações que acrescentaram novas versões e contradições ao caso. Nas redes sociais, recortes, prints e acusações passaram a circular como se já constituíssem provas definitivas. Não constituem.

Até a última atualização pública, o MPF havia confirmado o recebimento de uma representação para análise preliminar, enquanto a Polícia Federal informou que não comenta denúncias ou procedimentos dessa natureza. Não havia anúncio oficial de conclusão investigativa nem comprovação judicial das acusações feitas por qualquer dos lados.

Esse ponto é essencial: existem denúncias formalizadas e material apresentado às autoridades, mas as imputações ainda precisam ser investigadas. Éder Mauro, Zezinho Lima, John Wayne, Mayky Vilaça e os demais citados têm direito ao contraditório e à presunção de inocência.

Politicamente, porém, o dano já começou. Éder aparece em segundo lugar nas últimas pesquisas até aqui realizadas para o Senado e é um dos principais aliados de Daniel. Em vez de concentrar forças contra Helder, agora precisa responder a uma crise dentro do próprio partido. Zezinho, por sua vez, expôs uma divisão entre vereadores eleitos pelo mesmo campo bolsonarista. O PL entrou na campanha falando em unidade e chegou às convenções discutindo denúncias, expulsões e cassações.

A pressão evangélica existe, mas o voto religioso não tem dono

A disputa pela vice de Hana acrescentou uma camada religiosa à crise governista. O Avante apresentou formalmente o deputado estadual Josué Paiva como candidato a vice-governador, com apoio anunciado após uma reunião com lideranças de outras igrejas evangélicas na sede da Convenção Interestadual de Ministros e Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus no Pará (Comieadepa).

Nos bastidores, interlocutores ligados às igrejas afirmam que a indicação seria uma forma de impedir que a vaga ficasse com o PT. Também circula a ameaça de que, se Josué não for escolhido, parte desse segmento poderá migrar para Dr. Daniel, candidato que já mantém ligação com lideranças conservadoras e evangélicas.

A pressão é real, mas a capacidade de entregar o conjunto do voto evangélico é limitada. Nenhuma convenção controla todas as Assembleias de Deus, muito menos todas as denominações do estado. O segmento é diverso, possui igrejas autônomas, disputas institucionais, lideranças locais e parlamentares vinculados a projetos políticos distintos.

Essa divisão aparece nos próprios mandatos. Raimundo Santos, liderança historicamente ligada à Comieadepa, integra o PSD, partido que oficializou apoio a Hana, Helder e Chicão. Renilce Nicodemos está no MDB e participou da mobilização governista. Andreia Siqueira preside o PSB no Pará, legenda igualmente alinhada à candidatura de Hana. No campo oposto, Olival Marques filiou-se ao Podemos e está com Daniel Santos e Zequinha Marinho.

Portanto, mesmo entre parlamentares ligados à Assembleia de Deus, não existe candidatura única. A disputa por Josué Paiva representa uma reivindicação legítima de espaço político feita por um grupo influente, mas não autoriza tratar milhões de evangélicos como patrimônio eleitoral de uma entidade.

Helder conhece essa fragmentação. Ao mesmo tempo em que precisa preservar o PT e a relação com Lula, tenta impedir que Daniel amplie sua vantagem entre eleitores conservadores. A escolha do vice tornou-se, assim, uma decisão sobre três frentes: identidade presidencial, representação religiosa e equilíbrio entre os partidos da base.

Uma eleição com várias guerras e nenhuma vitória antecipada

O Pará chega à campanha oficial dividido por várias guerras simultâneas.

Na esquerda, a direção do PT tenta manter a aliança com o MDB enquanto lideranças históricas apoiam Celso Sabino e Araceli Lemos. Na base governista, Hana precisa provar que consegue herdar votos – e não apenas a estrutura – de Helder. Na direita, Daniel procura preservar a polarização enquanto aliados do PL trocam denúncias graves e o NOVO enfrenta um racha público entre candidatos proporcionais. Entre os evangélicos, diferentes grupos disputam a prerrogativa de falar por um eleitorado que nunca foi homogêneo.

Nesse ambiente, a tentação de substituir o debate sobre saúde, educação, segurança, emprego e desenvolvimento por ataques pessoais será enorme. Vídeos, áudios, relações privadas e acusações sem conclusão começam a ser usados para produzir julgamentos instantâneos nas redes sociais. O papel do jornalismo será separar documento de narrativa, denúncia de condenação, interesse público de exploração da vida privada e divergência política de desinformação.

A eleição de 2026 já é uma das mais complexas e disputadas da história recente do Pará. Ela tende a deixar cicatrizes dentro de partidos, famílias políticas, igrejas e grupos que hoje aparecem no mesmo palanque apenas porque enfrentam um adversário comum.

As pesquisas mostram que Hana cresceu, Daniel continua competitivo, Helder preserva força pessoal e a segunda vaga ao Senado permanece aberta. Mostram também que a maioria dos eleitores ainda pode mudar de voto.

Todos sabem como essa disputa começou: com alianças amplas, promessas de unidade e demonstrações públicas de força. Ninguém pode afirmar como terminará.

No Pará em ebulição, a única candidatura que hoje parece realmente consolidada é a da incerteza.

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