Eleições 2026

Convenção cinematográfica, chapa sem vice: por que Hana ainda não abriu vantagem sobre Daniel

Mesmo apoiada por 14 partidos, 83 prefeitos do MDB e amplas maiorias parlamentares, Hana deixou a convenção sem definir o vice e continua tecnicamente empatada com Dr. Daniel em uma eleição marcada pela indecisão e pela volatilidade do voto.

Por Estado do Pará Online
02/08/2026 às 21:25 • 13 min
Dr. Daniel Santos, Hana Ghassan e Helder Barbalho em capa sobre a convenção do MDB e a chapa sem vice no Pará

Mesmo após a convenção do MDB, Hana Ghassan segue sem vice definido e tecnicamente empatada com Dr. Daniel Santos. Arte: EPOL.

A convenção estadual do MDB entregou tudo o que havia sido planejado para produzir uma demonstração de força: arquibancadas tomadas, caravanas vindas de várias regiões, bandeiras, faixas, discursos calculados, drones, câmeras e uma estrutura de comunicação preparada para transformar o Mangueirinho em cenário de campanha.

Com público estimado em cerca de 10 mil pessoas, o evento oficializou Hana Ghassan na disputa pelo Governo do Pará e confirmou Helder Barbalho e Chicão como candidatos ao Senado. A produção cumpriu sua missão. As imagens transmitiram organização, capilaridade e domínio do campo governista. Segundo relatos publicados, a estrutura reuniu equipamentos de última geração e uma operação voltada à geração de conteúdo para as redes sociais e para a propaganda eleitoral.

Mas a convenção cinematográfica terminou com uma ausência impossível de esconder: Hana saiu do palco sem candidato a vice-governador.

A indefinição não é um detalhe burocrático. É o sinal mais visível de que a maior aliança partidária do Pará ainda não conseguiu acomodar todos os interesses reunidos em torno da sucessão estadual. Quanto maior a frente política, mais disputada se torna cada posição estratégica. E a vaga de vice passou a concentrar demandas do PT, de segmentos evangélicos, de partidos aliados e de setores empresariais.

O resultado é uma contradição que interessa diretamente à oposição: a base governista mostrou que sabe mobilizar milhares de pessoas, mas ainda não demonstrou que conseguiu encerrar a negociação mais delicada da chapa.

O vice que o PT anunciou e o MDB não confirmou

Na noite anterior à convenção emedebista, a Federação Brasil da Esperança oficializou apoio a Hana e homologou Dirceu Ten Caten como candidato a vice-governador. O PT também confirmou apoio a Helder e Chicão para o Senado e colocou Lula no centro de seu evento.

No Mangueirinho, o roteiro foi outro. O MDB recebeu o apoio petista, mas não anunciou Dirceu e tampouco deu destaque ao presidente da República nos principais discursos. Hana, Helder e Chicão foram oficializados; a chapa para o governo permaneceu incompleta.

Durante o próprio evento, o presidente estadual do PT, senador Beto Faro, afirmou em entrevista que Dirceu “vai ser” o vice de Hana. A declaração, porém, não substitui a decisão formal da legenda que encabeça a chapa. Como mostrou o EPOL na cobertura da convenção, existem hoje duas mensagens públicas: o PT trata a indicação como resolvida; o MDB, ao não anunciá-la, mantém a negociação aberta.

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Essa diferença ajuda a explicar a saga da chapa sem vice. Se Dirceu for confirmado, o PT apresentará o desfecho como reconhecimento de sua importância eleitoral e de sua aliança histórica com o grupo Barbalho. Se outro nome for escolhido, Beto Faro terá de administrar a reação de uma militância que já reclama de perda de espaço e de reciprocidade.

Enquanto a base discute como acomodar suas próprias forças, Daniel Santos ganha tempo para circular pelo interior, reforçar apoios e sustentar o discurso de que enfrenta um projeto concentrado nas mãos do mesmo grupo político e por isso, sofre perseguição por enfrentar a hegemonia da família Barbalho.

A pesquisa não autoriza favoritismo de nenhum lado

O editorial do EPOL acerta ao identificar uma eleição aberta, mas os números mais recentes exigem uma correção importante: não é possível afirmar que Dr. Daniel mantém vantagem sobre Hana.

Na pesquisa Genial/Quaest divulgada em 27 de julho, Hana aparece numericamente à frente, com 24%, contra 20% de Daniel no principal cenário estimulado. Como a margem de erro é de três pontos percentuais, os dois estão tecnicamente empatados. Em uma simulação sem Mário Couto, a governadora registra 25% e Daniel, 23%.

No confronto direto de segundo turno, a distância praticamente desaparece: 36% para Hana e 35% para o ex-prefeito de Ananindeua. O levantamento ouviu 900 eleitores entre 21 e 25 de julho, tem nível de confiança de 95% e foi registrado na Justiça Eleitoral sob o número PA-04548/2026. Os resultados foram divulgados pela Quaest e detalhados pela Folha de S.Paulo e reproduzido pelo EPOL.

A tendência entre abril e julho também precisa ser considerada. Na rodada de abril, Daniel tinha 22% e Hana, 19%. No segundo turno, ele marcava 35% e ela, 29%. Em julho, a governadora cresceu, ultrapassou numericamente o adversário no primeiro turno e alcançou o empate no confronto direto.

Portanto, Hana chega à campanha com movimento recente de crescimento. Daniel, por sua vez, demonstra resistência: mesmo depois do avanço da governadora e da exposição institucional proporcionada pelo cargo, continua a apenas um ponto dela no segundo turno.

Essa é a fotografia correta: Hana avançou, mas ainda não se distanciou; Daniel perdeu a vantagem numérica anterior, mas permanece plenamente competitivo.

Os indecisos ainda são maiores do que qualquer candidato

O dado mais revelador da Quaest não está apenas na diferença entre os dois primeiros colocados. Está no tamanho do eleitorado que ainda não fechou questão.

No principal cenário estimulado, 26% não sabem em quem votar e 13% declaram voto branco, nulo ou dizem que não pretendem comparecer. No segundo cenário, os indecisos chegam a 27%. Em eventual segundo turno, ainda são 18%, além de 11% de brancos, nulos ou abstenções declaradas.

Na pesquisa espontânea, quando os nomes não são apresentados ao entrevistado, Hana e Daniel aparecem com apenas 6% cada. Nada menos que 80% não sabem em quem votar. Os números estão reunidos no detalhamento da pesquisa Genial/Quaest.

Isso não significa que 80% dos paraenses desconheçam os candidatos. Significa que seus nomes ainda não estão consolidados como escolha espontânea para o governo. Há uma diferença importante entre reconhecer uma personalidade política e decidir entregar a ela o voto.

Mais expressivo ainda é o grau de volatilidade: 68% dos entrevistados afirmam que podem mudar a escolha caso algo aconteça durante a campanha. Somente 30% consideram o voto definitivo. A própria Quaest classificou o cenário paraense como aberto.

É nesse território móvel que a eleição será decidida. Debates, alianças presidenciais, definição dos vices, desempenho nas agendas do interior, denúncias, crises administrativas e capacidade de comunicação poderão alterar rapidamente o quadro.

A máquina que deveria produzir uma vantagem maior

A pergunta central não é por que Hana aparece numericamente à frente. Diante da estrutura que a sustenta, isso seria esperado. A pergunta politicamente mais incômoda é por que essa vantagem continua tão curta.

O MDB elegeu sozinho 83 prefeitos no primeiro turno das eleições municipais de 2024, o equivalente a 58% das 144 prefeituras paraenses. Também conquistou 468 cadeiras de vereador, 26,68% do total do estado.

À época, o presidente estadual da legenda, Jader Filho, afirmou que cerca de 140 prefeituras integravam a base de apoio de Helder Barbalho, um número partidário que dimensiona a capilaridade construída pelo governo, ainda que alianças municipais não sejam contratos eternos de fidelidade eleitoral. Os dados foram publicados pelo Diário do Pará.

Após a janela partidária, o MDB passou a controlar 14 das 41 cadeiras da Assembleia Legislativa. Somadas as bancadas dos partidos e federações que apoiam Hana (MDB, União Progressista, Federação Brasil da Esperança, PSD, Avante e Republicanos), o arco governista alcança – no mínimo – 37 deputados estaduais. Isso sem contar com deputados que aparentemente são de oposição, mas votam com o executivo e evitam tecer críticas contundentes como fazem os deputados Bob Fllay (Podemos), Rogério Barra (PL) e Lívia Duarte (PSOL).

Na Câmara dos Deputados, a aliança reúne 12 dos 17 representantes do Pará: cinco do MDB, dois do PT, dois do PSD, um do União Brasil, um do PDT e uma do PSB. São eles:

MDB – 5
Antônio Doido
Elcione Barbalho
José Priante
Keniston Braga
Renilce Nicodemos

PT – 2
Airton Faleiro
Dilvanda Faro

PSD – 2
Júnior Ferrari
Raimundo Santos

UNIÃO BRASIL – 1
Henderson Pinto (eleito pelo MDB)

PDT – 1
Celso Sabino (eleito pelo União Brasil)

PSB – 1
Andréia Siqueira (eleita pelo MDB)

Na oposição estão apenas cinco deputados federais, sendo três do PL, Delegado Eder Mauro, Joaquim Passarinho e Delegado Caveira, além de Alessandra Haber, esposa de Daniel Santos e que mesmo tendo sido eleita pelo MDB, migrou para o Podemos, no fim da janela partidária, em abril deste ano. Olival Marques – eleito pelo MDB e filiado ao Podemos durante a janela partidária – fecha a conta dos opositores de Lula e à família Barbalho/Hana.

Hana também ocupa o Governo do Estado, dispõe da visibilidade institucional do cargo e recebeu o apoio direto de Helder, reeleito governador em 2022 com 70,41% dos votos válidos. A Quaest de julho ainda atribuiu à gestão da atual governadora 66% de aprovação, outro ativo relevante para sua campanha.

É uma musculatura raramente disponível a uma candidatura estadual: governo, maioria das prefeituras, quase toda a Assembleia, ampla parcela da bancada federal, 14 partidos e o principal cabo eleitoral do estado.

Com esse conjunto de vantagens, seria razoável esperar uma liderança consolidada e uma distância de dois dígitos. Em vez disso, Hana marca 24% no primeiro turno e fica apenas um ponto à frente de Daniel na simulação de segundo turno.

Esse descompasso é o principal combustível da oposição.

Hana não pode ser reduzida a “herdeira”, mas ainda depende de Helder

Apesar de Hana ser apresentada por muitos observadores e comentaristas na condição de herdeira política de Helder, tal narrativa simplifica excessivamente sua trajetória e a possibilidade de uma nova lideranças surgir caso seja eleita.

Hana foi secretária de Planejamento e Administração, vice-governadora e assumiu o comando do Estado depois da renúncia de Helder para disputar o Senado. Possui experiência administrativa e agora governa o Pará. Esses são atributos objetivos que precisam ser considerados em uma análise equilibrada.

O problema político é outro: até aqui, a narrativa pública de sua candidatura continua profundamente ancorada no legado e na aprovação de Helder. Na convenção, a governadora destacou realizações dos dois mandatos do ex-governador e prometeu continuidade ao modelo de gestão.

A presença de Helder, sua liderança sobre prefeitos e partidos e sua capacidade de organizar a aliança permanecem no centro da campanha.

Isso oferece a Hana um ponto de partida poderoso, mas também cria uma cobrança. Para ampliar a vantagem, ela terá de provar que não é somente a candidata escolhida por Helder: precisa apresentar autoridade própria, projeto reconhecível e capacidade de arbitrar conflitos como o da vice.

Quanto mais demorada for a decisão sobre a chapa, maior será a percepção de que as escolhas centrais continuam dependendo do ex-governador. E estão.

Daniel tem espaço para crescer e problemas para resolver

Daniel disputa a eleição com uma máquina institucional muito menor. Seu principal patrimônio é a passagem por Ananindeua e o poder que exerce sobre o atual prefeito, Hugo Atayde. Foi em Ananindeua onde Daniel iniciou a construção de sua base eleitoral, além da experiência como vereador, deputado estadual, presidente da Alepa e prefeito.

O desafio é transformar essa força metropolitana em uma candidatura reconhecida e desejada em todo o Pará. Os 6% obtidos na pesquisa espontânea mostram que seu nome ainda precisa se consolidar como escolha estadual, embora o desempenho de 35% no segundo turno indique que ele já reúne um campo oposicionista expressivo quando apresentado ao eleitor.

Sua estratégia passa por percorrer municípios, reunir prefeitos e lideranças fora do eixo governista e explorar o desgaste natural de um grupo que completará oito anos no governo estadual, mas décadas de ligações com o poder. O apoio do Podemos, de parlamentares do PL, de segmentos evangélicos e de lideranças ligadas ao agronegócio dá a Daniel capilaridade em setores específicos.

Mas oportunidade não é sinônimo de vitória contratada. Daniel terá menos tempo de propaganda, menos prefeitos, menos parlamentares e menor estrutura financeira e partidária. Também terá de explicar denúncias, suas alianças, conciliar apoiadores bolsonaristas com movimentos que tentam aproximá-lo do eleitor lulista e enfrentar questionamentos sobre episódios de sua trajetória administrativa.

Sua condição atual é a de um desafiante competitivo, não a de favorito incontestável.

A convenção venceu a batalha da imagem, mas não encerrou a eleição

O Mangueirinho mostrou que a candidatura de Hana possui organização, recursos, lideranças e capacidade de mobilização. Seria um erro diminuir a importância dessa demonstração. Convenções também servem para energizar militantes, disciplinar aliados e produzir a imagem de uma candidatura pronta para governar.

Mas o mesmo palco que exibiu força também ampliou a visibilidade da pendência. Depois de toda a produção, o público conheceu os candidatos ao governo e ao Senado, mas não conheceu a chapa completa. O espetáculo terminou; a negociação continuou nos bastidores.

Para Daniel, a indefinição oferece uma narrativa pronta: mesmo controlando a maior máquina política do Pará, o grupo governista ainda não conseguiu apresentar todos os nomes nem construir uma vantagem eleitoral proporcional à sua estrutura.

Para Hana, o tempo passa a cobrar respostas. A escolha do vice precisará demonstrar unidade, ampliar votos e não apenas distribuir espaço entre aliados. Também deverá esclarecer a relação com o PT e com Lula, sem romper o equilíbrio de uma coligação que reúne correntes ideológicas distintas.

A eleição permanece aberta não porque Daniel esteja numericamente na frente – ele não está na pesquisa mais recente – mas porque a superioridade institucional de Hana ainda não se converteu em domínio eleitoral.

A convenção cinematográfica produziu imagens de favoritismo. As pesquisas, porém, continuam contando outra história: 24% a 20% no primeiro turno, 36% a 35% no segundo, mais de um quarto de indecisos nos cenários estimulados e 68% dos eleitores admitindo mudar o voto.

Com uma máquina desse tamanho, Hana já deveria estar muito à frente. Como não está, Daniel continua vivo, competitivo e com chances reais de vencer.

O filme da campanha começou com uma superprodução. O desfecho, porém, ainda está longe de ser conhecido.

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