Eleições 2026

Denúncia de uso de ônibus em convenção do MDB acaba em confusão na parte externa do Mangueirinho

Stephanie Lima, presidente estadual da Juventude do Podemos, aparece no vídeo fazendo entrevistas e críticas ao governo; vínculo partidário muda o enquadramento do conteúdo, mas não retira seu direito à liberdade de expressão

Por Estado do Pará Online
02/08/2026 às 19:25 • 10 min
Stephanie Lima durante denúncia sobre suposto uso de ônibus na convenção do MDB, com Helder Barbalho e Hana Ghassan na composição.

Dirigente da Juventude do Podemos, Stephanie Lima questionou o transporte de participantes na convenção do MDB e afirmou ter sido agredida.

Um vídeo publicado após a convenção estadual do MDB, realizada no sábado (1º), no Mangueirinho, em Belém, apresenta denúncias sobre o suposto transporte de participantes em ônibus vinculados ao sistema municipal e registra uma confusão envolvendo Stephanie Lima, presidente estadual da Juventude do Podemos no Pará.

Na gravação, Stephanie aparece entrevistando participantes, questionando a presença dos ônibus e fazendo críticas contundentes ao grupo político liderado pelo ex-governador Helder Barbalho e pela governadora Hana Ghassan. Em determinado momento, ela afirma ter sido agredida por uma mulher que participava da oganização do evento.

Apesar de exercer no vídeo uma função semelhante à de uma repórter, Stephanie Lima não é apresentada oficialmente como jornalista. Segundo apuração do EPOL, a jovem é acadêmica de Direito e Gestão Pública, presidente estadual da Juventude do partido e integrante do Diretório Nacional da Juventude do Podemos. As informações constam no site oficial da legenda.

A identificação é relevante porque o Podemos integra o campo de oposição ao atual governo e abriga a candidatura de Daniel Santos ao Governo do Pará. O conteúdo, portanto, deve ser compreendido como uma ação de fiscalização e comunicação político-partidária, e não como uma reportagem produzida por uma equipe jornalística independente.

O vídeo marcou em colab outros perfis, entre eles, o @timedanielsantos, o qual se apresenta como “Página de apoio ao @doutordanielsantos“. Isso não significa, por outro lado, que as denúncias sejam falsas ou que a dirigente partidária possa ser impedida de questionar, filmar, entrevistar pessoas ou criticar adversários. Também não autoriza qualquer tipo de agressão.

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Vínculo partidário não aparece no trecho analisado

O vídeo começa com a expressão “Festa de irregularidades” e promete mostrar o que estaria sendo feito com recursos públicos durante a convenção do MDB.

Apesar de informar a função partidária em sua bio, no recorte analisado, Stephanie não informa ao público que é filiada ao Podemos ou que preside a juventude estadual da legenda. Essa ausência pode levar parte dos espectadores a interpretar o material como uma reportagem convencional ou uma abordagem jornalística independente.

A transparência sobre o vínculo político é necessária para que o público avalie corretamente o contexto, os interesses envolvidos e a linha adotada no conteúdo.

Militantes e dirigentes partidários têm legitimidade para fiscalizar adversários, formular denúncias e produzir conteúdos. O que não se deve fazer é sonegar a condição política de quem conduz a abordagem, especialmente durante uma campanha eleitoral marcada pela disputa direta entre MDB e Podemos.

A omissão da identificação partidária no vídeo, entretanto, não invalida automaticamente as imagens registradas. Os fatos mostrados no vídeo precisam ser analisados independentemente de quem realizou a gravação.

Mulheres falam sobre suposta promessa de pagamento

Em uma das primeiras cenas, Stephanie conversa com mulheres que deixavam o local da convenção. Os rostos das entrevistadas aparecem pixelados.

Pelas falas e legendas incluídas na edição, as participantes teriam chegado horas antes e estariam indo embora sem receber um valor supostamente prometido. Uma delas responde que “não pagaram”, mas o diálogo não esclarece quem teria feito a promessa, qual seria o valor nem por qual atividade o pagamento seria realizado.

O vídeo também não permite saber se as mulheres prestavam algum serviço de mobilização, transporte, distribuição de materiais ou apoio operacional.

Por essa razão, não é possível concluir que teria ocorrido pagamento pela presença na convenção, compra de apoio político ou qualquer outra irregularidade eleitoral. A declaração constitui um indício que pode justificar apuração, mas precisa ser acompanhada de identificação, depoimentos completos e outros elementos de prova.

Ônibus do sistema de Belém aparecem próximos ao evento

Outro trecho mostra ônibus amarelos identificados visualmente com o sistema de transporte de Belém estacionados nas proximidades do Mangueirinho.

Stephanie afirma que a frota estaria sendo utilizada para levar pessoas à convenção. Outro jovem que participa da gravação também mostra símbolos existentes nos veículos e contesta a versão de que não seriam ônibus públicos.

As imagens confirmam a presença dos coletivos no local, mas não revelam quem os contratou, quais empresas os operavam, se cumpriam linhas regulares, se foram fretados ou qual foi a origem dos recursos utilizados.

A identificação com o sistema municipal também não significa, automaticamente, que os ônibus pertençam à Prefeitura. O transporte coletivo é executado por empresas operadoras privadas e fiscalizado pela Secretaria Municipal de Segurança, Ordem Pública e Mobilidade de Belém, a Segbel. A Prefeitura apresenta a Segbel como órgão fiscalizador do sistema.

Para esclarecer a denúncia, será necessário verificar os itinerários dos veículos, as ordens de serviço, os contratos eventualmente firmados e se houve retirada de ônibus das linhas destinadas à população.

Caso seja comprovado o emprego de bens ou serviços custeados pelo poder público em benefício de um partido ou candidatura, o episódio poderá ser analisado com base no artigo 73 da Lei das Eleições. A norma busca impedir que a estrutura estatal seja utilizada para desequilibrar a disputa eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral reúne decisões sobre o uso eleitoral de bens públicos.

A realização da convenção no Mangueirinho, por si só, não representa irregularidade. A legislação permite que partidos utilizem gratuitamente prédios públicos para escolher seus candidatos, responsabilizando-se por eventuais danos. A autorização está prevista na Lei nº 9.504/1997.

Críticas revelam o caráter político do conteúdo

Durante a gravação, Stephanie faz críticas duras a Helder Barbalho e Hana Ghassan, utilizando expressões de forte teor político e atribuindo acusações ao grupo governista.

O tom reforça que o conteúdo não se limita a uma apuração sobre os ônibus. Existe uma posição política assumida contra os candidatos e lideranças do MDB.

Essa circunstância deve ser conhecida pelo público, mas não elimina o direito da dirigente do Podemos de criticar seus adversários. O debate eleitoral comporta manifestações contundentes, sátiras, cobranças e opiniões negativas sobre governantes e candidatos.

A liberdade de expressão, contudo, não é absoluta. Acusações relacionadas à corrupção ou à prática de crimes precisam ser sustentadas por provas. Os citados têm direito de resposta, podem solicitar correções e recorrer à Justiça caso considerem que sua honra ou imagem foram atingidas.

Da mesma forma, nenhuma crítica, ainda que considerada ofensiva ou injusta, pode ser respondida com violência física.

Stephanie afirma ter sido agredida

Depois dos questionamentos, o vídeo registra uma discussão entre Stephanie e mulheres vestidas com camisetas verdes. As imagens mostram aproximação física, braços levantados e uma movimentação intensa.

A dirigente do Podemos afirma que acabou de ser agredida e diz que poderia ser criticada, mas não agredida. Policiais militares aparecem tentando controlar a situação.

Stephanie também acusa um homem de tentar impedir o procedimento da Polícia Militar. Em outro momento, um policial informa que “as duas envolvidas” deveriam ser conduzidas à delegacia.

A gravação não mostra se a condução foi efetivada, se houve registro de boletim de ocorrência ou se alguma das partes realizou exame de corpo de delito. Também não apresenta, de maneira contínua e conclusiva, toda a dinâmica do contato físico.

A alegação de agressão precisa ser apurada pelas autoridades, assegurando-se a manifestação da mulher acusada e das demais testemunhas.

Liberdade de expressão protege também dirigentes partidários

O fato de Stephanie Lima ser dirigente do Podemos muda o enquadramento editorial, mas não reduz seus direitos fundamentais.

A liberdade de expressão, o direito de crítica e a possibilidade de fiscalizar atos políticos não são exclusividade de jornalistas. Cidadãos, militantes, estudantes e representantes partidários também podem documentar fatos, fazer perguntas e apresentar denúncias.

A Constituição estabelece que é livre a manifestação do pensamento, garante o acesso à informação e proíbe a censura política e ideológica. Ao mesmo tempo, assegura a proteção à honra, à imagem e o direito de resposta. As garantias estão previstas nos artigos 5º e 220 da Constituição.

Governantes, candidatos, militantes e cabos eleitorais precisam aceitar que a exposição pública traz cobranças, questionamentos e críticas. A resposta democrática deve ocorrer por meio de argumentos, documentos, entrevistas, notas oficiais, direito de resposta ou medidas judiciais.

Agressões, ameaças ou tentativas de impedir gravações de interesse público não podem ser naturalizadas.

A mesma exigência de responsabilidade vale para quem produz conteúdo político. A filiação partidária deve ser informada, as acusações precisam ser comprovadas e o contraditório deve ser respeitado. Liberdade de expressão não significa licença para apresentar suspeitas como fatos consumados.

Perguntas que permanecem sem resposta

O episódio deixa uma série de questionamentos:

  • Quem solicitou e pagou pelos ônibus mostrados no vídeo?
  • Quantos veículos foram utilizados e quais empresas os operavam?
  • Os coletivos cumpriam linhas regulares ou foram deslocados para o evento?
  • Algum ônibus deixou de atender a população?
  • Houve emprego de subsídios ou recursos públicos?
  • Quem teria prometido pagamentos às participantes e por qual atividade?
  • Stephanie Lima registrou boletim de ocorrência?
  • As duas mulheres foram conduzidas à delegacia?
  • Qual é a versão da mulher apontada como responsável pela agressão?
  • O MDB e as campanhas oficializadas tinham conhecimento da operação de transporte?

O EPOL buscará esclarecimentos do MDB, do Podemos, de Stephanie Lima, da campanha de Hana Ghassan, do ex-governador Helder Barbalho, da Prefeitura de Belém, da Segbel, das empresas operadoras e das autoridades policiais.

O espaço permanece aberto a todas as pessoas citadas.

A democracia exige transparência de ambos os lados. O governo precisa explicar o eventual uso dos ônibus, a oposição deve identificar claramente quem produz seus conteúdos e as autoridades precisam investigar a alegação de agressão. Divergência política se enfrenta com informação e contraditório, nunca com violência.

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