Eleições 2026

Silêncio sobre Lula e ausência de vice expõem tensão entre MDB e PT após convenção no Pará

MDB lotou o Mangueirinho para oficializar Hana, Helder e Chicão, mas deixou fora dos discursos o presidente da República e não confirmou Dirceu Ten Caten; ameaça de candidatura própria pode funcionar como pressão sobre Helder e também como resposta de Beto Faro à insatisfação interna no PT

Por Estado do Pará Online
02/08/2026 às 15:57 • 11 min
Beto Faro em destaque ao lado de Hana Ghassan e Helder Barbalho durante a convenção do MDB no Pará

Beto Faro afirmou no Mangueirinho que Dirceu Ten Caten será vice de Hana Ghassan, apesar da ausência de anúncio oficial pelo MDB.

A convenção estadual do MDB lotou o Mangueirinho, em Belém, neste sábado (1º), reuniu prefeitos, parlamentares e lideranças de diferentes partidos e oficializou as candidaturas de Hana Ghassan ao Governo do Pará e de Helder Barbalho e Chicão ao Senado. O evento cumpriu o objetivo de demonstrar força, capilaridade e controle sobre a maior aliança eleitoral do estado.

Mas, em política, aquilo que não é dito pode repercutir tanto quanto os discursos pronunciados.

Em meio às bandeiras, balões e manifestações de apoio à chapa governista, dois nomes esperados ficaram fora do anúncio principal: Luiz Inácio Lula da Silva e Dirceu Ten Caten. O presidente da República não foi citado nos discursos dos principais aliados, enquanto o deputado indicado oficialmente pelo PT para ser vice de Hana também não foi confirmado pelo MDB.

A ausência provocou críticas de petistas, principalmente porque o PT havia realizado sua convenção na noite anterior com um roteiro muito diferente. Na sexta-feira (31), a Federação Brasil da Esperança colocou Lula no centro da mobilização, confirmou apoio a Hana, Helder e Chicão e homologou Dirceu como candidato a vice-governador. No dia seguinte, o MDB recebeu esse apoio, mas não ofereceu a mesma reciprocidade pública: falou de Hana, Helder e Chicão, porém silenciou sobre Lula e Dirceu. As duas convenções foram acompanhadas pelo EPOL.

Na matemática da aliança, portanto, o PT anunciou apoio mas não recebeu.

Lula não é um aliado qualquer

A omissão ganha peso porque a relação entre o grupo Barbalho e Lula não é recente nem meramente protocolar.

Jader Filho, presidente estadual do MDB e um dos principais organizadores da convenção, ocupou o Ministério das Cidades no atual governo federal, uma pasta estratégica para investimentos em habitação, mobilidade, saneamento e infraestrutura urbana. Ele assumiu o ministério em janeiro de 2023.

Helder, por sua vez, já declarou publicamente que o MDB deveria ser solidário à reeleição de Lula e reconheceu que a parceria com o governo federal permitiu investimentos importantes no Pará. Em 2022, após ser reeleito governador no primeiro turno, Helder aderiu à campanha presidencial de Lula e prometeu participar ativamente da mobilização no estado.

Por isso, a decisão de não mencionar o presidente no Mangueirinho dificilmente será interpretada apenas como esquecimento.

O MDB nacional decidiu não impor uma candidatura presidencial única aos diretórios estaduais, adotando a neutralidade formal pela primeira vez desde 2006. A resolução permite que cada seção regional faça sua própria escolha. Isso oferece uma justificativa partidária para a cautela, mas não impede o MDB paraense de declarar apoio a Lula. A neutralidade nacional, afinal, não obriga o silêncio estadual. A estratégia nacional foi detalhada pelo EPOL.

A leitura possível é que a campanha de Hana pretende adiar sua identificação com a disputa presidencial para preservar uma aliança heterogênea, formada por lulistas, conservadores e políticos que circularam pelo campo bolsonarista. É uma estratégia compreensível do ponto de vista eleitoral, mas que cobra um preço: irrita o PT justamente quando o partido exige maior protagonismo na chapa.

Aliança existe desde 2014, mas não foi sempre linear

Presente à convenção, o presidente do PT no Pará, senador Beto Faro, recordou que seu partido está ao lado de Helder desde a primeira candidatura ao governo, em 2014, e disse confiar na continuidade da aliança.

A lembrança está historicamente correta, mas precisa ser observada por inteiro.

Em 2014, o PT integrou formalmente a coligação de Helder, que contou também com o apoio de Dilma Rousseff e Lula. Helder venceu o primeiro turno, mas foi derrotado por Simão Jatene na segunda votação, em uma eleição extremamente apertada.

Quatro anos depois, a relação tomou outro rumo. O PT apresentou Paulo Rocha como candidato ao governo no primeiro turno de 2018. O petista recebeu 652.923 votos, equivalentes a 17,05% dos votos válidos, enquanto Helder obteve 47,69% e Márcio Miranda chegou a 30,21%.

No segundo turno, o PT apoiou Helder, que venceu com 55,43% contra 44,57% de Márcio Miranda.

Após a vitória, o PT recebeu espaço no governo, especialmente na Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda, a Seaster. Indicado por Beto Faro, Inocêncio Gasparim assumiu a pasta em janeiro de 2019 e desde então o PT continua no comando.

O histórico demonstra que MDB e PT já estiveram juntos, separados e novamente aliados. A relação sempre foi marcada por pragmatismo, distribuição de espaço e avaliação das circunstâncias eleitorais – menos casamento ideológico e mais sociedade política com cláusulas renegociadas a cada eleição.

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A ameaça de Beto pode ter dois destinatários

Informações que circulam nos bastidores apontam que Beto Faro teria avisado à militância que o PT poderia discutir uma candidatura própria ao governo caso Dirceu Ten Caten não fosse aceito como vice de Hana.

Até o momento, essa possibilidade não foi aprovada formalmente pelo Diretório Estadual. Trata-se de uma advertência política, não de uma candidatura consolidada.

A mensagem pode ter dois destinatários.

O primeiro é Helder Barbalho, responsável pelas principais negociações em torno da chapa de Hana. Ao admitir candidatura própria, Beto tenta mostrar que o PT não aceitará permanecer na aliança apenas como fornecedor de votos, militância e imagem de Lula. A ameaça busca elevar o preço de uma eventual rejeição a Dirceu.

O segundo destinatário é a própria militância petista.

Setores do partido vêm criticando a redução da presença eleitoral do PT no Pará. A legenda saiu das urnas municipais de 2024 com apenas duas prefeituras, enquanto, em 2008, chegou a eleger 27 prefeitos no estado. Um estudo produzido pela própria estrutura partidária já registrava a queda para seis prefeitos em 2016. O levantamento foi elaborado com dados do TSE.

A perda de capilaridade alimenta questionamentos sobre a condução de Beto Faro e sobre a dependência crescente do PT em relação ao MDB.

Família Faro entra no debate interno

Outra crítica presente nos bastidores petistas é a de que a direção estadual estaria priorizando projetos eleitorais ligados à família do presidente da legenda.

Dilvanda Faro, esposa de Beto, é deputada federal e disputa a reeleição. Yuri Faro, filho do casal e atual vice-prefeito de Acará, estreia na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados. A preparação da candidatura de Yuri já havia sido revelada pelo EPOL.

Não existe ilegalidade no fato de integrantes de uma mesma família disputarem eleições. O questionamento é político: críticos cobram que a direção explique se a estratégia eleitoral está fortalecendo coletivamente o PT ou concentrando capital partidário em torno de um mesmo núcleo familiar.

Nesse ambiente, apresentar-se como possível candidato ao governo pode ajudar Beto a trocar o foco do debate. Em vez de responder apenas pelo encolhimento municipal do partido e pelas candidaturas familiares, ele passa a ocupar o papel de dirigente que estaria enfrentando o MDB para defender o espaço do PT.

A ameaça, portanto, pode funcionar simultaneamente como instrumento de negociação externa e proteção interna.

Novas filiações também provocam resistência

A política de filiações adotada pela direção estadual é outro ponto de contestação. Militantes históricos questionam a chegada de políticos identificados durante boa parte da carreira com partidos de centro ou de direita e com grupos distantes da tradição sindical e dos movimentos sociais petistas.

Recentemente filiado ao PT por Beto Faro, o deputado estadual Antônio Tonheiro, eleito em 2022 pelo PP, sendo que em 2018 foi eleito pelo PL. João Tonheiro, seu irmão, foi prefeito de Capitão Poço e reeleito em 2020 pelo PL, com 56,69% dos votos.

A filiação de Antônio Tonheiro foi celebrada oficialmente pela direção do PT como reforço à bancada na Assembleia Legislativa. Para os críticos, contudo, o episódio simboliza a busca por nomes com mandato e estrutura, ainda que sem uma trajetória historicamente ligada ao campo dos trabalhadores. Para a direção, representa uma tentativa pragmática de recuperar força eleitoral.

O embate revela uma disputa mais profunda: crescer incorporando lideranças prontas ou reconstruir o partido a partir de suas bases tradicionais?

O teste de Beto começa agora

O silêncio do MDB sobre Dirceu Ten Caten não encerra a negociação. A legislação permite que a chapa completa seja registrada até 15 de agosto, e o próprio EPOL já havia destacado que Hana terminou a convenção sem anunciar o vice.

Mas o episódio aumenta a pressão sobre Beto Faro.

Presente na convenção do MDB, Beto Faro crava Dirceu e expõe queda de braço na aliança

Em entrevista no Mangueirinho, presidente do PT-PA disse que Ten Caten “vai ser” vice de Hana e descartou rompimento com o MDB; declaração contrasta com a ausência do anúncio oficial e transforma a composição da chapa em teste da força política do senador

Na entrevista concedida ao portal O Fluxo, durante o evento deste sábado (1º), Beto não tratou a indicação de Dirceu Ten Caten como desejo, possibilidade ou reivindicação partidária. Falou como se a negociação já estivesse concluída.

“O Dirceu vai ser o vice-governador do Estado junto com a Hana”, afirmou o senador em entrevista ao portal O Fluxo,

O vídeo registrado durante a convenção.

Beto acrescentou que PT e MDB mantêm uma relação política construída há muitos anos. Recordou que os dois partidos já estiveram juntos em Ananindeua, quando Helder foi prefeito e teve uma petista na vice, e mencionou a aliança de 2014, quando o atual candidato ao Senado disputou pela primeira vez o Governo do Pará.

O presidente do PT afirmou não ter dúvidas de que os partidos permanecerão unidos.

A declaração é politicamente importante porque foi feita no mesmo evento em que o MDB não anunciou Dirceu, não deliberou apoio à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva e encerrou a convenção sem apresentar a chapa completa de Hana.

O que existe, portanto, são duas mensagens públicas diferentes: o MDB diz, pelo silêncio, que a vice ainda não está formalmente resolvida; Beto afirma, com todas as letras, que Dirceu ocupará a vaga.

Essa diferença está longe de ser apenas semântica.

Se Dirceu for confirmado, o senador poderá apresentar o resultado como demonstração de força e capacidade de negociação. Se o MDB escolher outro nome, Beto terá de decidir se cumpre a ameaça de defender candidatura própria ou se permanece na aliança sem ocupar a vice.

Um recuo sem compensação poderá fortalecer as críticas de que o PT paraense se tornou dependente do projeto político de Helder. Uma candidatura própria, por outro lado, exigirá estrutura, unidade interna, programa e um nome capaz de enfrentar a máquina eleitoral do MDB sem apenas servir como instrumento de pressão.

Há ainda a disputa pelo palanque presidencial. Caso Hana mantenha distância de Lula, setores da esquerda poderão procurar outros espaços de campanha, inclusive na candidatura de Celso Sabino ao Senado. O problema é que a convenção petista já confirmou apoio a Helder e Chicão, criando uma contradição entre a posição formal da direção e as preferências de parte da militância.

A convenção do MDB demonstrou força, organização e capacidade de mobilização. Mas também expôs os limites de uma aliança na qual todos aparecem juntos nas arquibancadas, embora nem todos tenham o mesmo espaço no palco.

O Mangueirinho oficializou Hana, Helder e Chicão. O silêncio sobre Lula e Dirceu mostrou que a parte mais delicada do acordo ainda não foi escrita.

E silêncio, em política, pode comprar tempo. Dificilmente compra lealdade.

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