Cidades

Santarém terá atendimento 24 horas em Delegacia da Mulher após aumento de casos de violência

Medida foi anunciada pelo Governo do Pará junto com a autorização de concurso para a Polícia Civil; município soma registros de feminicídios, tentativas e centenas de ocorrências de violência doméstica

Por Ludmila Viana
03/08/2026 às 22:16 • 4 min


A Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) de Santarém, no oeste do Pará, passou a operar em funcionamento integral, com atendimento durante as 24 horas do dia. A mudança foi anunciada pela governadora Hana Ghassan nesta segunda-feira (3), após uma série de feminicídios registrados no município. Na mesma ocasião, a gestora informou a autorização de um novo concurso público para a Polícia Civil.

A ampliação do serviço tem como objetivo garantir que mulheres em situação de violência tenham acesso ao atendimento especializado em qualquer horário. Em publicação nas redes sociais, Hana Ghassan afirmou que a medida representa uma tentativa de fortalecer a rede de proteção às vítimas e disse que pretende levar esse modelo para outras regiões do Estado.

No vídeo divulgado, a governadora relacionou a decisão aos casos recentes registrados em Santarém e afirmou que a mudança precisou ser planejada antes de um pronunciamento público sobre o tema.

“Quatro mulheres tiveram a vida interrompida por ex-companheiros aqui em Santarém. E muita gente me escreveu pedindo para eu me posicionar. Se eu não fiz antes, é porque me revolta vir aqui lamentar. Então, primeiro eu busquei viabilizar uma mudança fundamental: a Delegacia da Mulher aqui de Santarém vai estar aberta 24 horas. E eu quero que isso vire um padrão no Pará, mas demanda orçamento, efetivo e treinamento”, declarou.

Além da alteração no funcionamento da unidade, o Governo do Pará anunciou a autorização de um concurso para a Polícia Civil. A expectativa, segundo a governadora, é ampliar o quadro de profissionais e fortalecer os serviços voltados ao combate à violência contra a mulher.

Durante o anúncio, Hana Ghassan também chamou atenção para o cadastro no programa SOS Mulher, ferramenta criada pelo Estado para facilitar o acionamento da Polícia Militar em situações de emergência. Conforme explicado pela governadora, o recurso permite que a vítima peça ajuda pelo telefone 190 sem precisar realizar uma comunicação verbal, possibilitando a identificação da localização.

“O SOS Mulher não é só para quem pensa que vai ser agredida. É para qualquer mulher. É como uma vacina: você não toma pensando que vai ficar doente, mas para se proteger”, afirmou.

A situação da violência doméstica em Santarém é refletida nos dados do Judiciário e da segurança pública. Entre janeiro e julho deste ano, a Vara de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher recebeu 1.873 pedidos de medidas protetivas de urgência. Atualmente, 902 ações penais relacionadas a crimes praticados nesse contexto estão em andamento.

Segundo levantamento da Segup, entre janeiro e junho deste ano, o município registrou dois feminicídios consumados, seis tentativas de feminicídio e 535 casos de lesão corporal relacionados à violência doméstica.

Crimes recentes

Os casos que motivaram a repercussão sobre a violência contra a mulher no município incluem quatro mortes registradas entre março e julho.

O primeiro caso ocorreu em 19 de março, quando Caroline Fontineli Carneiro Pereira, de 26 anos, foi morta a tiros dentro de um carro próximo ao viaduto de Santarém. O policial penal Renato Matos Parente, apontado como autor dos disparos, morreu no Hospital Municipal no dia 3 de julho após permanecer internado por mais de três meses.

Em 19 de julho, Tainá Yarina dos Santos Cardoso, de 29 anos, morreu após uma discussão com o companheiro, o advogado Wlandre Gomes Leal, no bairro Aparecida. O suspeito está preso preventivamente em Belém.

No dia 25 de julho, Edmara de Sousa Góes, de 22 anos, foi encontrada morta em um terreno baldio no bairro Maracanã. Um adolescente confessou o crime e permanece internado em uma unidade socioeducativa.

Já Dayse Diniz, de 25 anos, desaparecida desde 23 de julho, foi encontrada morta cinco dias depois em uma área de mata da comunidade São Brás, na região do Eixo Forte. O principal suspeito, João Pedro Pereira dos Santos, confessou o assassinato. Durante a investigação, a Polícia Civil informou que ele era foragido do sistema prisional e cumpria pena por outro feminicídio, cometido em Uruará. A prisão em flagrante foi convertida em preventiva pela Justiça durante audiência de custódia realizada na quinta-feira (30).

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