Eleições 2026

Presidenciáveis adotam jingles feitos com IA e produtores comentam: como isso afeta profissionais de carne e osso?

O uso de conteúdos produzidos por inteligência artificial por campos políticos opostos reforça a tendência de que a tecnologia deve dominar a produção de jingles nas campanhas eleitorais de 2026.

Por Estado do Pará Online
04/08/2026 às 15:24 • 5 min

Lina Luz 'artista' gerada por Inteligência Artificial Créditos: Redes Sociais

A inteligência artificial deixou de ser uma promessa para se tornar protagonista da campanha presidencial de 2026. No lançamento de sua candidatura à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou um dos jingles da campanha produzido com inteligência artificial, marcando a entrada oficial da tecnologia em uma das principais vitrines da disputa eleitoral brasileira.

A música foi criada pela Aline Paula que usa o nome artistico de Lina Luz, responsável pelo perfil @LinaLuz.oficial, que reúne cerca de 27 mil seguidores nas redes sociais e produz canções com auxílio de inteligência artificial em diferentes estilos musicais, como o sertanejo. A escolha evidencia uma estratégia que deve ganhar força ao longo da campanha: utilizar ferramentas capazes de criar músicas, vídeos, narrações e conteúdos personalizados em poucos minutos.

Perfil de Lina Luz conta com mais de 25 mil seguidores e videos que ultrapassam 100 mil visualizações (créditos: redes sociais)
Lina Luz soma mais de 1 milhão de visualizações (foto: Redes Sociais)

IA em todos os campos políticos

Do outro lado da corrida presidencial, a inteligência artificial também já mostrou seu potencial de alcance nas redes sociais. O principal adversário de Lula, Flávio Bolsonaro, viralizou recentemente ao compartilhar um vídeo baseado na música “Meu Amigo Flávio”, criada pelo humorista paraense Murilo Couto com apoio de inteligência artificial. Os vídeos inspirados na canção ultrapassaram a marca de um milhão de visualizações no Instagram, demonstrando a capacidade desse tipo de conteúdo de alcançar milhões de pessoas em pouco tempo.

A rápida disseminação dessas produções reforça que a inteligência artificial deve ocupar um papel central na comunicação política deste ano. Com poucos comandos, plataformas conseguem gerar jingles, adaptar letras para diferentes públicos, criar vozes sintéticas e produzir vídeos em larga escala, permitindo que campanhas alimentem as redes sociais com um volume de conteúdo nunca antes visto.


Artistas, compositores e produtores musicais demonstram preocupação com a crescente substituição de processos criativos por ferramentas automatizadas, o que pode reduzir oportunidades para profissionais da área e provocar novos debates sobre direitos autorais e remuneração de obras utilizadas para treinar modelos de IA.

O que pensa quem trabalha com isso?
A produtora musical e DJ paraense Meury, conhecida por sua atuação no tecnobrega, avalia que a inteligência artificial chegou para facilitar a produção de jingles políticos e ampliar as opções disponíveis aos candidatos.

Segundo ela, hoje é possível escolher entre um jingle criado inteiramente por IA ou uma produção tradicional. Apesar do avanço da tecnologia, Meury afirma que, no Pará, a preferência ainda é por produções feitas por profissionais, principalmente no ritmo conhecido como “rock doido”, estilo que, segundo ela, a inteligência artificial ainda não consegue reproduzir com a mesma autenticidade.

Meury também afirma ter percebido uma redução na procura por produtores, compositores e cantores desde a popularização da IA. Para ela, esse movimento já era esperado com o avanço da tecnologia, mas ressalta que os jingles regionais continuam sendo bastante procurados justamente por carregarem características culturais que ainda diferenciam o trabalho humano.

Dj Meury (foto: Acervo Pessoal)

Já o músico e produtor Jimmy Góes, que atua há 20 anos no mercado, reconhece que a IA vem transformando a forma como campanhas produzem músicas. Segundo ele, as plataformas aceleram o processo de criação ao gerar letras e melodias em poucos minutos. No entanto, avalia que o resultado costuma ser uma produção “achatada”, sem a sensibilidade e a identidade artística de uma composição desenvolvida por músicos e produtores.

Para Jimmy, o impacto da IA vai além da produção musical. Ele acredita que candidatos precisam ter cautela ao associar sua imagem a conteúdos gerados por inteligência artificial, já que esse tipo de material pode transmitir uma percepção de baixa qualidade ou excesso de padronização. Embora ainda não tenha sentido uma queda significativa na procura por seus serviços, avalia que o uso da tecnologia tende a crescer nas próximas campanhas, mas dificilmente substituirá produções que valorizam a criatividade e a identidade regional.

Outro desafio envolve a manipulação de informações. As mesmas ferramentas capazes de produzir músicas e peças publicitárias também conseguem criar imagens, áudios e vídeos extremamente realistas, tornando mais difícil distinguir conteúdos autênticos de materiais produzidos artificialmente. Especialistas apontam que esse cenário exigirá atenção redobrada da Justiça Eleitoral e das plataformas digitais durante a campanha.

Se antes os jingles eleitorais dependiam de estúdios, músicos e longos processos de produção, a eleição de 2026 começa a mostrar que a inteligência artificial pode se transformar em uma das principais armas de comunicação dos candidatos na disputa pelo Palácio do Planalto.

Por Mayra Peniche

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