Com data marcada para a próxima quinta-feira, 23, a convenção partidária que fará o lançamento candidatura de Celso Sabino (PDT) ao Senado colocou uma pá de cal sobre as especulações de que o deputado federal poderia abandonar a corrida eleitoral de 2026. Nos bastidores, circularam versões de que ele aceitaria disputar uma vaga em tribunal de contas ou até compor, como vice, uma chapa ao Governo do Pará. Sabino escolheu outro caminho: manteve o projeto, enfrentou resistências partidárias e passou a trabalhar para transformar sua presença nacional em votos nos 144 municípios paraenses.
A decisão não foi tomada sem pressão. Ainda quando ocupava o Ministério do Turismo no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o parlamentar deixou claro que pretendia disputar uma das duas cadeiras do Pará no Senado. O projeto provocou tensão dentro do União Brasil, sua antiga legenda, e sobreviveu ao desgaste que culminou em sua saída do partido.
Ao se filiar ao PDT e oficializar a pré-candidatura, Sabino mostrou que a corrida ao Senado não era moeda de negociação nem plano secundário. Durante o lançamento, realizado em abril, o deputado afirmou que se preparou para não ser “apenas mais um” no cenário político nacional.
Mais do que uma manifestação de vontade, o lançamento reorganiza o tabuleiro eleitoral. Em seu segundo mandato na Câmara dos Deputados e depois de comandar um ministério com forte presença institucional nos estados e municípios, Sabino acumulou interlocução com prefeitos, vice-prefeitos, vereadores, parlamentares e lideranças políticas de diferentes campos.
Durante sua passagem pelo Ministério do Turismo, o paraense percorreu o estado, participou de agendas municipais e acompanhou investimentos, eventos, obras e projetos ligados ao setor. A função deu ao deputado uma vitrine nacional e, sobretudo, ampliou sua entrada no interior do Pará. O resultado político é uma capilaridade que poucos pré-candidatos conseguem construir antes do início oficial da campanha.
Apoios que atravessam fronteiras partidárias
O arco político construído em torno de Sabino não cabe facilmente na divisão tradicional entre esquerda e direita. O ex-ministro mantém proximidade com integrantes do governo Lula e recebe apoio de lideranças identificadas com o campo progressista, mas também conserva pontes com prefeitos, vereadores e parlamentares de centro e de direita.
No campo da esquerda, o movimento mais expressivo ocorreu com a mobilização de tendências do PT em defesa de sua candidatura. Lideranças petistas reunidas no início deste mês em Belém aprovaram um manifesto favorável ao nome de Sabino, com participação da ex-governadora Ana Júlia Carepa.
A articulação chegou a incluir a defesa de uma composição com Ana Júlia na suplência, sinal de que setores do partido enxergam no ex-ministro um candidato comprometido com a sustentação política do governo Lula no Senado.
O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, também sinalizou apoio à construção dessa composição durante agenda partidária realizada em Belém.
Outro gesto público veio de Igarapé-Miri, onde o prefeito Roberto Pina, do PT, declarou apoio a Celso Sabino e a Helder Barbalho na disputa pelas duas vagas. O episódio revelou uma característica central da pré-candidatura: sua capacidade de dialogar tanto com a base governista estadual quanto com setores que não se alinham integralmente a um único grupo político.
Esse trânsito ajuda a explicar por que Sabino resistiu às tentativas de convencê-lo a recuar. Ao seu redor já existe uma estrutura formada por dezenas de prefeitos, vice-prefeitos, vereadores, deputados e lideranças regionais.
Nem todos esses apoios estão formalizados, e parte deles dependerá das convenções e das composições partidárias. O volume de adesões e manifestações públicas, entretanto, tornou mais difícil tratar sua candidatura como simples instrumento de barganha.
Pesquisas confirmam presença na faixa competitiva
Os levantamentos divulgados até aqui também deram sustentação à decisão.
Pesquisa Doxa realizada no fim de 2025 colocou Helder Barbalho na liderança e Celso Sabino em segundo, com 16,4% das intenções de voto no cenário apresentado. Em junho de 2026, nova rodada do instituto apontou Helder com 27,2% e mostrou Éder Mauro, Zequinha Marinho, Celso Sabino e Chicão tecnicamente empatados na disputa pela segunda cadeira.
Já a pesquisa Simetria divulgada no fim de junho colocou Helder e Sabino à frente na corrida ao Senado. O levantamento também registrou rejeição de apenas 5% para o ex-ministro, índice inferior ao dos principais adversários apresentados.
Em uma eleição com duas escolhas para senador, baixa rejeição e capacidade de circular por diferentes grupos podem valer tanto quanto a liderança isolada em determinado cenário.
Os números variam conforme o instituto, a metodologia e a lista de nomes oferecida ao eleitor. Ainda assim, a sequência dos levantamentos sustenta uma conclusão política: Celso Sabino está no pelotão competitivo e aparece, de forma recorrente, entre os candidatos com possibilidade real de conquistar uma das duas vagas.
De alternativa negociável a projeto consolidado
Por meses, adversários e até possíveis aliados alimentaram a narrativa de que Sabino acabaria cedendo. A lista de destinos especulados incluía um tribunal de contas, uma candidatura a vice-governador ou alguma acomodação capaz de reduzir o número de concorrentes ao Senado.
O lançamento público, a filiação ao PDT, a mobilização municipal e o apoio de setores petistas produziram o efeito contrário.
Sabino deixou de ser tratado como uma alternativa negociável e passou a conduzir um projeto próprio. A estratégia combina três elementos: a lembrança de sua atuação no Ministério do Turismo, uma rede municipal construída ao longo dos últimos anos e a imagem de candidato capaz de conversar com campos políticos antagônicos.
Essa amplitude também será um desafio. Para chegar competitivo às urnas, o deputado precisará transformar manifestações de apoio em estrutura eleitoral, definir com clareza sua posição nas chapas majoritárias e administrar interesses de aliados que poderão estar em palanques diferentes nas disputas estadual e presidencial.
Até as convenções, o jogo continuará sujeito a pressões, acomodações e mudanças. Uma dúvida, porém, parece superada: Celso Sabino não construiu sua pré-candidatura para desistir na primeira curva.
Ao resistir às pressões e ampliar sua rede de apoio, o ex-ministro entrou definitivamente na disputa e obrigou os demais grupos políticos a refazerem as contas para as duas vagas do Pará no Senado.
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