Política

Vorcaro consultou Moraes sobre deixar o país dois dias antes de prisão

Mensagens recuperadas pela Polícia Federal mostram que o ex-controlador do Banco Master procurou o ministro às vésperas da Operação Compliance Zero; conteúdo, isoladamente, não comprova que Moraes conhecesse ou interferisse na ordem judicial

Por Estado do Pará Online
01/09/2026 às 15:27 • 6 min
Montagem com Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes diante de um celular, em referência às mensagens investigadas pela Polícia Federal

Mensagens recuperadas do celular de Daniel Vorcaro revelaram contatos com Alexandre de Moraes antes da prisão do ex-banqueiro. Montagem EPOL | Fotos: Reprodução/Polícia Penal e Wilton Junior

Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revelam que o empresário consultou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), sobre a possibilidade de deixar o Brasil dois dias antes de ser preso.

Em 15 de novembro de 2025, um sábado, Vorcaro enviou ao ministro a pergunta que passou a ocupar o centro da apuração:

“Acha que segunda já tenho que estar fora?”

A mensagem teria sido enviada depois de Vorcaro fazer questionamentos sobre o juiz responsável pelo caso, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e a possibilidade de alguma medida ser adotada diante do avanço da investigação.

Quarenta e oito horas depois, na noite de 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela PF no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Ele se preparava para embarcar em um jato particular com destino inicial a Malta e, posteriormente, a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

A proximidade entre a conversa e a prisão tornou o episódio um dos pontos mais sensíveis da investigação sobre a rede de contatos mantida pelo empresário. A sequência dos acontecimentos, entretanto, não permite concluir, por si só, que Moraes soubesse antecipadamente da ordem judicial ou tivesse orientado Vorcaro a deixar o país.

Novas mensagens na véspera da prisão

No domingo, 16 de novembro, Vorcaro voltou a procurar Moraes. Em uma das mensagens, perguntou se havia alguma possibilidade de uma medida contra ele ocorrer na manhã seguinte. Em outra, sugeriu um encontro às 14h e perguntou se a conversa seria realizada na casa do ministro ou na residência dele.

Os registros mostram ainda que o empresário se dizia perplexo e indignado, além de demonstrar preocupação com os impactos que as medidas poderiam provocar sobre o Banco Master.

As respostas eventualmente enviadas por Moraes não aparecem no material divulgado. Segundo a apuração, parte das conversas utilizava mensagens de visualização única, o que impediu a recuperação integral do diálogo.

Sem acesso às respostas, não é possível determinar qual orientação, se alguma, foi dada pelo ministro.

Contato estava salvo como “Alexandre Brasília”

A investigação apontou que Vorcaro escrevia parte das mensagens no bloco de notas do celular e depois encaminhava imagens dos textos por meio de um aplicativo com visualização única. Os conteúdos desapareciam após serem abertos, mas fragmentos e outros dados puderam ser recuperados na perícia do aparelho.

O número atribuído a Moraes estaria registrado como “Alexandre Brasília”. O despacho da Petição 16.662 afirma que a PF encontrou conversas de Vorcaro com uma pessoa inicialmente não identificada. Reportagens posteriores apontaram Moraes como o interlocutor.

De acordo com a Polícia Federal, os diálogos indicariam que Vorcaro teve conhecimento antecipado de procedimentos criminais e de apurações conduzidas pelo Banco Central. Os investigadores também trabalham com a hipótese de que o empresário buscava a intervenção de autoridades públicas.

Essas conclusões ainda dependem de aprofundamento investigativo e análise judicial.

Operação apura títulos de crédito sem lastro

Vorcaro foi preso durante a primeira fase da Operação Compliance Zero, aberta para investigar a possível fabricação e comercialização de carteiras de crédito sem lastro ou formadas por operações inexistentes.

O Banco Master havia ganhado espaço no mercado oferecendo CDBs com rentabilidade que chegava a 140% do CDI, acima das taxas normalmente praticadas por instituições financeiras de porte semelhante. A apuração da PF, contudo, não se limita à remuneração dos investimentos e se concentra principalmente na suspeita de emissão e negociação de títulos de crédito falsos.

O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição em 18 de novembro de 2025, um dia depois da prisão do empresário.

Contrato milionário também entrou na apuração

O material extraído do celular de Vorcaro também contém documentos relacionados ao contrato firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado pela advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.

O acordo previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões e poderia alcançar aproximadamente R$ 131 milhões durante três anos. Metadados do arquivo indicam que uma versão do documento foi editada por um perfil do Office 365 identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.

O escritório confirmou que Moraes teve acesso à minuta, mas afirmou que a consulta ocorreu exclusivamente para verificar possíveis impedimentos legais relacionados à contratação. Segundo a banca, não havia previsão de atuação no STF e o ministro nunca julgou processos envolvendo o Banco Master.

A identificação do usuário nos metadados e a confirmação de acesso ao arquivo não demonstram, isoladamente, participação de Moraes na contratação ou na prestação dos serviços advocatícios.

Mendonça envia caso para análise do STF

Nesta terça-feira (1º), o ministro André Mendonça retirou o sigilo da Petição 16.662 e encaminhou os novos elementos para manifestação da Procuradoria-Geral da República.

No despacho, Mendonça não identifica nominalmente Alexandre de Moraes como alvo. O relator afirma, porém, que o “caminho inevitável” do caso leva ao plenário do Supremo, que deverá analisar as informações apresentadas pela PF de maneira pública, presencial e, segundo ele, “estritamente jurídica”.

A data da sessão ainda será definida pela presidência do STF.

Até o momento, a decisão não representa abertura formal de investigação contra Moraes. Caberá ao plenário avaliar se os elementos reunidos justificam novas diligências ou a instauração de um procedimento específico.

As assessorias de Alexandre de Moraes, do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, assim como a defesa de Daniel Vorcaro, foram procuradas pela imprensa. O escritório Barci de Moraes apresentou manifestação apenas sobre o contrato.

Com informações de CBN, Estadão, CNN Brasil, Poder360, SBT News e Agência Brasil.

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