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Política

Vice de Hana e Daniel vira peça-chave na disputa pelo palanque de Lula no Pará

Pressões do PT, de evangélicos e do setor produtivo se cruzam com a corrida ao Senado; avanço de Lula nas pesquisas fortalece Celso Sabino como alternativa caso Hana mantenha distância da campanha presidencial

Por Estado do Pará Online
21/07/2026 às 18:01 • 11 min
Montagem com as fotos de Daniel Santos, Hana e Helder Barbalho.

A escolha dos candidatos a vice-governador nas chapas de Hana Ghassan (MDB) e Daniel Santos (Podemos) ganhou uma dimensão muito maior do que a simples acomodação de partidos e aliados. A decisão passou a envolver também a disputa pelo palanque presidencial no Pará e a formação das chapas para as duas vagas ao Senado.

Hana é pressionada pelo PT, por lideranças evangélicas e pelo setor produtivo. Daniel enfrenta reivindicações do PL, do Podemos, do agronegócio e de grupos familiares ligados aos seus principais apoiadores.

Por trás dessa disputa existe uma pergunta que começa a incomodar as duas candidaturas: quem representará, de maneira clara, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Pará?

O questionamento ganha importância diante da recente ampliação da vantagem do petista sobre Flávio Bolsonaro nas pesquisas nacionais. Quanto mais Lula cresce, menor tende a ser sua disposição para aceitar palanques indefinidos, apoios silenciosos ou aliados tentando esconder sua imagem para agradar a diferentes segmentos do eleitorado.

Hana e o PT: aliança institucional sem entusiasmo

Embora Hana integre o grupo político que mantém uma parceria administrativa e eleitoral com o governo federal, informações de bastidores indicam que ela e o marido não possuem grande afinidade política ou pessoal com o PT e com Lula.

Não existe declaração pública de rompimento, hostilidade ou afastamento institucional. A relação do Governo do Pará com a Presidência da República continua envolvendo obras, investimentos, transferências, financiamentos e projetos conjuntos.

Nos bastidores, entretanto, a avaliação é de que a proximidade com Lula está muito mais associada à articulação construída por Helder Barbalho do que a uma preferência política do núcleo pessoal de Hana.

Essa diferença ajuda a explicar por que a indicação do deputado estadual Dirceu Ten Caten para a vaga de vice não foi automaticamente aceita. O nome foi aprovado pela direção estadual desde dezembro de 2026, mas continua enfrentando resistências dentro do MDB e da composição governista.

Para o PT, Dirceu representa uma maneira de assegurar o vínculo entre a candidatura estadual e a campanha presidencial. Para Hana, a escolha pode significar carregar uma identificação partidária que encontra resistência entre empresários, conservadores e parte expressiva das lideranças evangélicas.

Crescimento de Lula muda a correlação de forças

A posição de Lula nas mais recentes pesquisas nacionais fortalece o poder de negociação do presidente com seus aliados nos estados.

Segundo a última pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira (20), houve uma considerável redução na parcela dos entrevistados que veem Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como provável vencedor da disputa. 55% dos entrevistados afirmaram acreditar na vitória de Lula. Já a expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro ficou em 25%, abaixo dos 32% registrados na pesquisa anterior, realizada em abril.

Outros 4% dos entrevistados disseram acreditar na vitória de algum outro candidato, enquanto 16% não souberam responder quem deverá vencer a eleição presidencial.

No Pará, o presidente igualmente demonstra força. A pesquisa Doxa/TVC divulgada em junho mostrou Lula com 37,8% das intenções de voto, contra 30,9% de Flávio Bolsonaro.

Outro levantamento, realizado pela Simetria em parceria com o EPOL, registrou 52% de aprovação ao governo Lula entre os eleitores paraenses, contra 44% de desaprovação.

Esses números transformam o apoio presidencial em um ativo eleitoral valioso. Lula deixa de ser apenas o aliado que precisa encontrar espaço nas chapas estaduais e passa a ser alguém em condições de exigir reciprocidade, participação e um palanque comprometido com sua reeleição.

Se Hana ficar em cima do muro, Celso pode ocupar o espaço

Caso Hana prefira manter distância da polarização presidencial, Celso Sabino surge como uma alternativa concreta para oferecer a Lula estrutura, agenda e presença política no Pará.

O PDT oficializou nacionalmente o apoio à reeleição do presidente. Durante a convenção da legenda, realizada em Brasília, Celso adotou um discurso claramente alinhado ao governo federal e defendeu a eleição de senadores comprometidos com a governabilidade.

“O presidente Lula precisa de um Senado que não o chantageie, que não negocie cargos, mas que lhe dê condições de governar para o povo brasileiro”, afirmou o pré-candidato, conforme reportagem publicada pelo EPOL.

Celso foi ministro do Turismo durante o governo Lula, manteve-se no cargo mesmo sob pressão de sua antiga legenda e ampliou sua presença no interior do Pará durante a preparação e a realização da COP30.

Ao permanecer candidato ao Senado, ele preservou uma ponte direta com o presidente e com setores da esquerda paraense. Tendências internas do PT já se mobilizaram em defesa de sua candidatura, com participação de lideranças históricas, como a ex-governadora Ana Júlia Carepa.

Se a chapa de Hana decidir adotar uma posição de neutralidade ou limitar o apoio a Lula a manifestações protocolares, Celso poderá preencher esse vazio.

Nesse cenário, o ex-ministro não seria apenas candidato ao Senado. Poderia transformar-se no principal articulador da campanha presidencial no estado, reunir petistas insatisfeitos e oferecer a Lula um palanque que não dependa exclusivamente da boa vontade do MDB.

A vice de Hana pode definir seu lado na eleição presidencial

A escolha do vice passou, portanto, a funcionar como uma espécie de declaração antecipada de posicionamento presidencial.

Se Hana aceitar Dirceu Ten Caten, sinalizará que pretende manter uma aliança mais orgânica com o PT e abrir espaço para a presença de Lula em sua campanha. A composição também poderá facilitar a cobrança de apoio petista a Helder Barbalho e a Chicão na disputa pelo Senado.

Se optar por um representante evangélico, do setor produtivo ou de outra legenda, Hana ampliará o diálogo com setores conservadores, mas poderá confirmar a percepção de que prefere manter o PT a uma distância segura.

A pressão evangélica é especialmente delicada. Segundo informações que circulam nos bastidores, pastores ligados à Assembleia de Deus e à Igreja do Evangelho Quadrangular teriam informado a Helder que não pretendem se empenhar na campanha de Hana caso a vice seja entregue ao PT.

O grupo governista teme que essas lideranças migrem definitivamente para Daniel, que hoje ocupa com mais força o espaço conservador e religioso. Embora não existam pesquisas públicas suficientes para afirmar que Daniel possui a maioria absoluta dos votos evangélicos, sua proximidade com o PL, Éder Mauro e Zequinha Marinho lhe garante vantagem política nesse campo.

Hana precisa decidir se a prioridade será segurar o PT e Lula ou impedir que Daniel amplie seu domínio entre os evangélicos. É o tipo de escolha em que qualquer porta aberta fecha outra.

Daniel também tenta transitar entre Lula e Flávio

A candidatura de Daniel enfrenta uma contradição semelhante.

O ex-prefeito de Ananindeua aproximou-se de Flávio Bolsonaro, participou de ato político ao lado do senador e recebeu o apoio de Éder Mauro, Joaquim Passarinho e outras lideranças do PL.

Pouco depois, porém, aliados de esquerda lançaram o movimento “Lula presidente e Daniel governador”. O apoio de Daniel à iniciativa ocorreu apenas duas semanas depois do encontro com Flávio e expôs sua tentativa de disputar votos nos dois polos da política nacional.

O movimento “Lula-Daniel” foi interpretado como uma estratégia para atrair eleitores lulistas que desejam mudança no Governo do Pará, mas não pretendem votar no candidato presidencial do PL.

O crescimento de Lula nas pesquisas pode incentivar Daniel a manter essa ambiguidade. Ao mesmo tempo, dificulta a convivência com o PL, que reivindica a indicação do candidato a vice e espera que a chapa estadual assuma claramente o palanque de Flávio Bolsonaro.

Entre os nomes já especulados está o da vereadora Ágatha Barra, sobrinha de Éder Mauro. Sua indicação consolidaria a aliança de Daniel com o PL, mas também reforçaria a identificação da candidatura com o bolsonarismo e poderia afastar eleitores lulistas e moderados.

O Podemos, o agronegócio e outras lideranças ligadas ao projeto de Daniel também cobram espaço. Assim como Hana, ele terá de escolher entre aprofundar sua identidade política ou continuar tentando navegar em águas ideologicamente opostas.

Celso e Chicão aquecem disputa pelo Senado

Enquanto os candidatos ao governo calculam seus movimentos, a disputa pelo Senado avança para uma fase decisiva.

O PDT realizará sua convenção estadual no dia 23 de julho, na sede campestre da Tuna Luso Brasileira, para oficializar a candidatura de Celso Sabino. O ato encerra as especulações de que ele poderia abandonar a corrida para ocupar uma vaga de vice ou ser acomodado em um tribunal de contas.

Chicão deverá ter a candidatura homologada pelo União Brasil no dia 27 de julho, na sede estadual da legenda, na Avenida José Malcher.

Seus aliados trabalham com a possibilidade de repetir o fenômeno ocorrido com Beto Faro em 2022. Naquela eleição, o petista chegou à campanha sem liderar as pesquisas, mas foi impulsionado pela estrutura da chapa de Helder Barbalho e acabou eleito com 1.781.582 votos, correspondentes a 42,55% dos votos válidos.

O cenário de 2026, porém, apresenta adversários mais numerosos e competitivos. Na pesquisa Simetria/EPOL divulgada no fim de junho, Helder apareceu com 49% das intenções, considerando os dois votos para senador. Éder Mauro registrou 28%, Celso Sabino apareceu com 23%, Zequinha Marinho alcançou 21% e Chicão marcou 12%.

Celso também apresentou a menor rejeição entre os principais nomes, com apenas 5%. Esse dado amplia sua capacidade de receber o segundo voto de eleitores que já escolheram Helder, Éder Mauro ou Zequinha Marinho para a primeira opção.

PT pode decidir entre Chicão e Celso

A principal esperança de Chicão está na estrutura governista e no apoio do PT. O presidente da Assembleia já recebeu manifestações favoráveis de integrantes da direção estadual e do senador Beto Faro.

O partido, porém, está longe de uma posição consensual.

Parte das tendências petistas questiona por que deveria abandonar Celso Sabino, aliado direto de Lula, para apoiar um nome do União Brasil que ainda precisa consolidar sua identificação com o projeto político do governo federal.

Essa divisão poderá ser aprofundada pela escolha do vice de Hana.

Se o PT receber a vaga, Helder ganhará argumentos para cobrar unidade em torno de Chicão. Se o partido for afastado da chapa, suas tendências poderão direcionar mais energia e votos para Celso, especialmente se ele assumir de maneira inequívoca o palanque presidencial.

Nesse cenário, Lula teria uma estrutura de campanha no Pará; Celso ganharia o eleitorado petista e governista; e Chicão perderia justamente o impulso que seus aliados esperam repetir a partir do exemplo de Beto Faro.

Lula não aceitará ser apenas uma fotografia

O crescimento de Lula nas pesquisas altera a relação com todos os aliados. Um presidente competitivo, liderando nacionalmente e à frente no Pará, dificilmente aceitará participar da eleição estadual apenas como uma fotografia em materiais de campanha.

Lula precisará de coordenação, agenda, mobilização e candidatos comprometidos com sua reeleição. Se Hana não quiser assumir esse papel, Celso demonstra disposição para fazê-lo. Daniel, por sua vez, tenta manter uma janela aberta para os lulistas sem fechar a porta para Flávio Bolsonaro – uma engenharia que poderá se tornar insustentável durante a campanha oficial.

A escolha dos vices revelará muito mais do que os nomes que acompanharão Hana e Daniel.

Mostrará quem pretende marchar com Lula, quem escolherá Flávio Bolsonaro e quem ainda tentará permanecer em cima do muro.

Com a polarização avançando e as pesquisas fortalecendo o presidente, o muro pode até continuar no mesmo lugar. O espaço para ficar sentado sobre ele é que começa a diminuir.

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