Esportes

Uefa, AFC e Concacaf criticam Fifa e pedem investigação independente sobre gestão de Infantino

Confederações questionam condução de proposta de US$ 4,2 bilhões e defendem análise externa sobre decisões da entidade

Por Felipe Borges
10/08/2026 às 10:57 • 9 min

Foto: Reprodução/Fifa

A Uefa, a Confederação Asiática de Futebol (AFC) e a Concacaf voltaram a criticar a condução da Fifa sob a presidência de Gianni Infantino. Em uma carta conjunta divulgada nesta segunda-feira (10), as três confederações afirmaram que o futebol não pertence a nenhum indivíduo e defenderam uma investigação conduzida por uma entidade terceira e totalmente independente.

Embora Infantino não seja citado nominalmente no documento, as críticas são direcionadas à forma como a Fifa conduziu a proposta de venda de uma participação nos direitos comerciais da Copa do Mundo, iniciativa que acabou abandonada.

As entidades afirmaram que a liderança no futebol deve ser entendida como um dever de serviço à comunidade do esporte e acusaram a direção da Fifa de romper a confiança ao tomar decisões sem uma consulta ampla às instituições que integram a organização.

Confederações questionam condução da proposta

Segundo Uefa, AFC e Concacaf, uma comunicação recente enviada pela Fifa aos vice-presidentes e às 211 federações-membro reconheceu que houve erros no processo, mas classificou o episódio como uma falha de comunicação.

As três confederações discordaram dessa avaliação. Para elas, o caso representou uma “falha de discernimento” e envolveu uma proposta apresentada em prazo curto, sem consulta significativa e antes que as federações-membro pudessem analisar adequadamente os termos.

A proposta previa a arrecadação de cerca de US$ 4,2 bilhões, o equivalente a aproximadamente R$ 24,8 bilhões, por meio da venda de uma participação nos direitos comerciais da Copa do Mundo e de outros torneios. A iniciativa acabou abandonada após provocar críticas dentro e fora da estrutura da Fifa.

As entidades também afirmaram que a questão não se limita ao aspecto financeiro. Segundo a carta, o principal ponto envolve a integridade do futebol e a responsabilidade de quem ocupa posições de liderança no esporte.

Pedido por investigação independente

Uefa, AFC e Concacaf defenderam que a análise dos acontecimentos seja feita por uma entidade terceira e totalmente independente. As confederações afirmaram que a própria administração da Fifa, seus funcionários ou qualquer parte interessada no futebol não devem participar da investigação.

A Fifa havia se comprometido a apresentar um relatório sobre o episódio ao Conselho da entidade. Para as confederações, porém, a gravidade do caso exige uma análise independente.

As entidades também questionaram uma reunião de liderança realizada no Marrocos, afirmando que apenas um dirigente eleito esteve presente e que nenhum integrante do Conselho da Fifa ou das federações-membro foi convidado.

Fifa afirma que há tentativa de enfraquecer Infantino

Em meio à crise, a Fifa afirmou no sábado (8) que existe um “esforço coordenado e contínuo” para enfraquecer a posição de Gianni Infantino. A entidade defendeu que eventuais contestações à liderança do presidente devem seguir os estatutos e os procedimentos democráticos estabelecidos pela organização.

A manifestação ocorreu após o aumento da pressão sobre Infantino em razão do fracasso da proposta envolvendo os direitos comerciais dos torneios. A iniciativa provocou críticas da Uefa, de federações nacionais e de dirigentes da própria Fifa, além de pedidos para que o presidente deixasse o cargo.

A Fifa não identificou quem estaria por trás das supostas tentativas de enfraquecer Infantino e afirmou que algumas alegações divulgadas recentemente são infundadas ou falsas. A entidade também declarou que o presidente continua exercendo o mandato para o qual foi eleito.

Pressão sobre Infantino

Na carta, as três confederações afirmaram que não questionam decisões tomadas coletivamente, como a expansão das competições, a distribuição de vagas para a Copa do Mundo e a escolha das sedes dos Mundiais de 2030 e 2034.

O foco das críticas, segundo o documento, está na forma como decisões de grande impacto foram conduzidas e na necessidade de preservar a integridade e a governança do futebol.

As entidades também afirmaram que não defendem mudanças nas decisões tomadas de forma coletiva nem a retirada do apoio financeiro conquistado pelas federações-membro.

O documento sustenta que a liderança no futebol não deve ser tratada como uma forma de posse ou domínio, mas como um dever de serviço às instituições e pessoas que integram o esporte.

Leia a carta completa

“Querida Família do Futebol,

O futebol é a maior paixão partilhada do mundo. Não pertence a nenhum indivíduo nem a nenhuma instituição.

Pertence aos jogadores, aos adeptos, aos clubes, às Federações-Membro e a todas as instituições encarregadas de salvaguardar o seu futuro.

É nesse espírito, na qualidade de confederações que representam os seus membros, que hoje nos pronunciamos coletivamente.

O crescimento registado na última década foi real. Mas esse progresso nunca foi obra de uma única pessoa. Foi o resultado do trabalho da Fifa, das Confederações, das Federações-Membro e dos milhares de pessoas que dedicam as suas vidas ao futebol.

A ampliação dos torneios, a atribuição dos Campeonatos do Mundo da Fifa de 2030 e 2034 e a distribuição de recursos às federações. Estas foram conquistas partilhadas, acordadas em conjunto e concretizadas em conjunto.

Isto não tem a ver com dinheiro. As Confederações já apelaram a uma distribuição responsável das vastas reservas existentes da Fifa, com vista a reforçar ainda mais o investimento no desenvolvimento das Federações-Membro.

Também não se trata de nenhuma Federação-Membro perder o apoio que conquistou, apesar do alarmismo dirigido aos nossos membros para sugerir o contrário. Nem se trata de rever a expansão das competições, a atribuição de vagas para o Campeonato do Mundo ou quaisquer outras decisões tomadas coletivamente. Essas decisões foram tomadas em conjunto e devem ser mantidas.

Trata-se de algo mais fundamental: a integridade do jogo e a integridade daqueles que foram eleitos para o liderar.

A liderança no futebol não é uma posse. Não se trata de deter, nem de exigir, o poder para o deter. É um dever de serviço para com a família do futebol que a confia.

Quando a confiança é quebrada por meio do engano, quando um indivíduo se coloca acima do coletivo que lhe confiou autoridade, esse dever foi abandonado.

A recente carta da Fifa aos seus vice-presidentes e às 211 federações-membro reconhece que foram cometidos erros ao longo do processo. A carta aborda esta situação como uma falha de comunicação, quando o que o futebol testemunhou foi uma falha de discernimento.

Uma proposta apresentada num prazo apertado, sem uma consulta significativa e levada a cabo antes de as federações-membro poderem analisar devidamente os seus termos, não é fruto de um descuido: é o resultado de uma estratégia destinada a limitar o escrutínio.

Não reconheceu que a proposta em si era intrinsecamente errada. Continua a não haver qualquer reconhecimento de que a tentativa de vender uma participação no Campeonato do Mundo da Fifa constituiu um grave erro de avaliação, não apenas um deslize processual, mas uma quebra fundamental da confiança das próprias instituições que a Fifa existe para servir.

A Fifa comprometeu-se também a apresentar um relatório completo sobre estes acontecimentos ao Conselho da Fifa, deixando mais uma vez de reconhecer que uma governação adequada, face a uma falta de discernimento tão grave, exigiria que tal análise fosse conduzida por uma entidade terceira totalmente independente e não pela própria Fifa, pelo seu pessoal ou por qualquer parte interessada do mundo do futebol.

A administração da Fifa não deve desempenhar qualquer papel na condução dessa análise.

Conforme correspondência anterior, todos os documentos e registos relevantes devem ser conservados em conformidade com a comunicação da Uefa sobre a conservação de documentos.

A própria carta da Fifa confirma também que apenas um dirigente eleito esteve presente na reunião de liderança em Marrocos. Nenhum membro do Conselho da Fifa nem das Federações-Membro foi convidado a participar. Apenas o comité de gestão, composto por quadros superiores ao serviço da Fifa, esteve presente.

Esta recente reunião, em que um número restrito de membros do Comité de Gestão da Fifa, e não o Comité na sua totalidade, foi convocado no estrangeiro, em vez de os dirigentes se deslocarem a Zurique para se dirigirem ao coração da Fifa, apenas reforça estas preocupações e representa uma continuação do próprio padrão de conduta que nos trouxe até este momento.

Não é a conduta de um guardião do futebol, mas sim de alguém que acredita que o futebol lhe deve prestar contas.

Há silêncio onde deveria haver responsabilização, e distância onde deveria haver abertura.

Estas não são as qualidades que o futebol merece na sua liderança. É por isso que assumimos esta posição: não de ânimo leve nem sozinhos, mas em conjunto, e por um sentido de dever para com o desporto que servimos.

A força do futebol sempre residiu na sua unidade. Apelamos a que essa unidade seja agora respeitada e a que haja uma liderança que sirva o futebol, em vez de procurar dominá-lo.”

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