Eleições 2026

O voto que pode decidir a eleição: por que os eleitores com 60 anos ou mais viraram alvo estratégico em 2026

Com 36,2 milhões de eleitores, população 60+ foi quase um quarto do eleitorado brasileiro. Em 2022, mais de 11 milhões desse grupo não foram às urnas, enquanto Lula venceu Bolsonaro no segundo turno por uma diferença de 1,89 milhão de votos

Por Mayra Peniche
25/08/2026 às 11:01 • 6 min

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Se existe um eleitorado que pode ser decisivo nas eleições de 2026, ele talvez esteja justamente entre aqueles que nem sempre aparecem nas filas das urnas: os brasileiros com 60 anos ou mais.

O grupo não apenas cresceu. Ele cresceu em um ritmo muito superior ao do eleitorado brasileiro como um todo. De Acordo com o nevantamento NEXUS em 2010, eram 20,8 milhões de eleitores nessa faixa etária. Em 2026, já são 36,2 milhões, o equivalente a 23,2% de todo o eleitorado nacional. Em outras palavras, praticamente um em cada quatro brasileiros aptos a votar tem 60 anos ou mais.

E é justamente aí que está o ponto mais interessante para a disputa presidencial: não se trata apenas de conquistar o voto desse eleitor. Trata-se de fazê-lo comparecer.

O fantasma da abstenção

Os números das eleições de 2022 dão dimensão ao tamanho desse potencial.

Naquele pleito, 32,9 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais estavam aptos a votar. Apenas 21,6 milhões compareceram ao primeiro turno. Cerca de 11,3 milhões ficaram fora da eleição.

A taxa de abstenção entre os maiores de 60 anos chegou a 34,5%, bem acima do que seria necessário para transformar esse eleitorado em uma força eleitoral ainda mais expressiva.

Mas existe uma diferença fundamental dentro desse grupo.

Entre 60 e 69 anos, o voto continua sendo obrigatório. Nessa faixa, o comparecimento chegou a 85,7% em 2022. Já entre aqueles com 70 anos ou mais, quando o voto passa a ser facultativo, apenas 41,1% foram às urnas. A abstenção chegou a 58,9%.

É aqui que a eleição começa a ganhar contornos interessantes.

O eleitor com 70 anos ou mais não precisa convencer ninguém de que tem o direito de não votar. Ele simplesmente pode escolher ficar em casa. E, justamente por isso, quando decide sair de casa e votar, sua participação tende a ser resultado de algum grau de interesse, identificação ou convencimento.

É um eleitor que não precisa ser mobilizado pela obrigação. Precisa ser mobilizado pela política.

E se parte desses eleitores tivesse votado?

É claro que não dá para transformar abstenção em voto imaginário. Os 11,3 milhões de eleitores que não compareceram em 2022 não podem ser contabilizados como votos potenciais de Lula, Bolsonaro ou qualquer outro candidato.

Mas existe uma comparação impossível de ignorar.

No segundo turno de 2022, Lula recebeu 59,56 milhões de votos e Bolsonaro, 57,68 milhões. A diferença foi de aproximadamente 1,89 milhão de votos.

Ou seja: a margem que decidiu a Presidência foi muito menor do que o número de eleitores com 60 anos ou mais que haviam deixado de comparecer às urnas no primeiro turno.

Isso não significa que os idosos “teriam decidido” a eleição de 2022. Significa algo mais importante para 2026: em uma disputa apertada, qualquer campanha que consiga aumentar a participação desse eleitorado pode mexer diretamente no resultado.

É uma reserva eleitoral gigantesca.

E, em uma eleição que promete novamente ser marcada pela polarização, ignorá-la pode custar caro.

O eleitor 60+ não é um bloco

Também seria um erro imaginar que existe um “voto dos idosos”.

O eleitor de 60 anos não necessariamente pensa como o de 80. O aposentado que ainda trabalha pode ter prioridades completamente diferentes daquele que depende exclusivamente da Previdência. A mulher de 65 anos pode enxergar a política de maneira muito diferente de um homem de 75. E questões regionais, renda, escolaridade, religião e trajetória política continuam pesando.

Por isso, o envelhecimento do eleitorado não significa que os candidatos ganharam um novo grupo político homogêneo.

Significa que ganharam um grupo numericamente grande demais para ser ignorado.

A pauta que pode tirar o eleitor de casa

E aqui está talvez o maior desafio para os candidatos.

Não basta falar com o eleitor mais velho. É preciso oferecer uma razão para que ele participe.

Saúde, acesso a medicamentos, aposentadoria, Previdência, custo de vida, segurança, transporte público e proteção contra golpes financeiros são temas que podem atravessar diretamente a vida dessa população.

Mas há algo ainda mais amplo: o medo de perder o que já foi conquistado.

Para uma parcela significativa desse eleitorado, a eleição não é necessariamente sobre uma promessa de futuro distante. Pode ser sobre aposentadoria, renda, atendimento médico, preço dos remédios ou segurança para a família.

É uma diferença importante em relação ao eleitor mais jovem.

Enquanto candidatos costumam disputar o jovem falando sobre futuro, inovação e oportunidades, com o eleitor mais velho a conversa pode ser muito mais concreta: o que vai acontecer com aquilo que eu já tenho?

Um eleitorado que cresce e muda o jogo

O Brasil está envelhecendo e as urnas estão acompanhando esse movimento. Entre 2010 e 2026, o eleitorado geral cresceu 15%. Entre os brasileiros com 60 anos ou mais, o crescimento foi de 74%. Isso significa que o peso eleitoral dessa população tende a aumentar, não diminuir.

O que antes poderia ser tratado como um segmento específico do eleitorado passou a ocupar uma posição central no cálculo eleitoral. E existe uma ironia nesse processo: quanto maior fica esse grupo, mais importante se torna a parcela que não vota.

É justamente a abstenção que pode transformar milhões de eleitores em uma espécie de eleitorado “adormecido”.

Se uma campanha conseguir acordá-lo, o efeito pode ser enorme.

O verdadeiro desafio: conquistar e mobilizar

Para 2026, portanto, a pergunta não deveria ser apenas “em quem o eleitor 60+ vai votar?”. A pergunta talvez seja ainda mais simples: ele vai votar? Em uma eleição decidida por margens estreitas, a resposta pode valer milhões de votos.

O eleitorado brasileiro com 60 anos ou mais já ultrapassa 36 milhões de pessoas. Quase um quarto dos eleitores do país. Ao mesmo tempo, os dados de 2022 mostram que uma parcela expressiva desse contingente pode simplesmente não aparecer para votar.

E é justamente por isso que esse grupo pode ser o um peso enorme na balança. Não necessariamente porque esteja politicamente unido. Não porque tenha uma preferência eleitoral única. Mas porque é grande, cresce rapidamente e ainda possui milhões de eleitores que podem ser convencidos a sair de casa.

Em uma eleição em que cada voto pode decidir o vencedor, talvez a disputa mais importante de 2026 não esteja apenas entre quem vota em quem. Pode estar entre quem consegue levar mais gente às urnas. E, nesse jogo, os brasileiros com 60 anos ou mais podem ter uma das maiores cartas na mão.

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