Entre a esperança e a dor da ausência, mães de pessoas desaparecidas vivem diariamente a expectativa por notícias, reencontros e respostas. Neste Dia das Mães, celebrado neste domingo (10), mulheres de diferentes regiões do país reforçam pedidos por mais visibilidade, respeito e ações efetivas das autoridades diante do desaparecimento de milhares de brasileiros.
Segundo dados citados pela Agência Brasil, mais de 84 mil pessoas desapareceram no país em 2025.
Entre as histórias está a de Clarice Cardoso, de 27 anos, moradora da comunidade quilombola São Sebastião dos Pretos, na zona rural de Bacabal. Os filhos dela, Ágatha Isabelle, de 6 anos, e Allan Michael, de 4, desapareceram em janeiro deste ano após saírem para brincar em uma área de mata próxima da residência da família.
Clarice é mãe de Ágatha e Allan, desaparecidos em janeiro, no Maranhão – Arquivo pessoal
Desde então, a rotina da mãe passou a ser marcada por buscas, contatos frequentes com a polícia e pela espera de qualquer pista sobre o paradeiro das crianças.
“A cada ligação que eu recebo, penso que pode ser uma novidade”, relatou Clarice em entrevista à Agência Brasil.
Além da angústia provocada pelo desaparecimento dos filhos, ela afirma enfrentar preconceito quando vai à cidade em busca de informações. Segundo a mãe, há olhares e comentários maldosos direcionados à família.
A dor compartilhada por mães de desaparecidos também levou à criação de redes de apoio em diferentes estados do país. Uma das iniciativas mais conhecidas é o Mães da Sé, fundado por Ivanise Espiridião, que procura pela filha Fabiana desde 1995.
Fabiana desapareceu aos 13 anos de idade. Desde então, Ivanise transformou a própria dor em ativismo, ajudando outras famílias que enfrentam situações semelhantes.
Ivanise com a filha Fagna e a neta Eva, de 7 anos – Arquivo pessoal
“O Dia das Mães causa uma mistura de sentimentos. Existe a alegria pelos filhos que estão conosco, mas também a tristeza pela ausência de quem desapareceu”, afirmou.
O grupo atualmente reúne milhares de mães em todo o país e atua oferecendo orientação, acolhimento e apoio nas buscas. A associação também utiliza tecnologia de reconhecimento facial para auxiliar na localização de desaparecidos.
Ivanise na escadaria da Sé – Arquivo pessoal
Outra integrante do movimento é Lucineide Damasceno, que procura pelo filho Felipe desde 2008. O adolescente desapareceu aos 16 anos após sair de casa para encontrar um amigo.
Lucineide conta que, apesar da dor constante, mantém viva a esperança de reencontrar o filho.
“Eu não quero mudar daqui porque tenho esperança de o Felipe bater no portão e dizer: ‘mãe, estou aqui’”, disse.
Felipe, filho de Lucineide desapareceu em 2008 – Arquivo pessoal
Especialistas apontam que familiares de desaparecidos frequentemente enfrentam quadros de ansiedade, depressão e crises de pânico. Para a psicóloga Melânia Barbosa, o suporte emocional é fundamental nesses casos.
“O principal é saber que existe alguém ao seu lado e não se sentir sozinho”, destacou.
As mães também alertam para a necessidade de maior conscientização sobre os direitos das famílias. Pela legislação brasileira, não é necessário esperar 24 horas para registrar o desaparecimento de uma pessoa. A ocorrência deve ser feita imediatamente, principalmente em casos envolvendo crianças e adolescentes.
Enquanto aguardam respostas, essas mulheres seguem mobilizadas entre cartazes, grupos de apoio, redes sociais e buscas incansáveis, mantendo viva a esperança de um reencontro e o apelo para que seus filhos jamais sejam esquecidos.
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