Política

Lula e Trump conversam por telefone em tentativa de reaproximação entre Brasil e EUA

Presidentes falaram por cerca de 1h20 nesta sexta-feira (21); tarifa sobre produtos brasileiros, segurança e conflitos internacionais estiveram entre os assuntos discutidos.

Por Estado do Pará Online
21/08/2026 às 16:32 • 5 min

Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump conversaram por telefone nesta sexta-feira (21) em meio ao período de maior tensão recente nas relações entre Brasil e Estados Unidos. O contato, que durou cerca de uma hora e 20 minutos, foi realizado por iniciativa do presidente brasileiro, segundo informações divulgadas pelo governo do Brasil.

A ligação vinha sendo articulada havia algumas semanas e representa o primeiro contato oficial entre Lula e Trump desde o encontro presencial dos dois na Casa Branca, em Washington, em maio. Desde então, os governos brasileiro e norte-americano adotaram medidas e trocaram críticas em temas como comércio, segurança e questões diplomáticas.

Segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, a conversa ocorreu em clima considerado “cordial e amistoso”. Lula questionou os argumentos utilizados pelo governo dos Estados Unidos para justificar a aplicação de novas tarifas sobre produtos brasileiros e defendeu a retomada das negociações comerciais.

Ainda de acordo com o governo brasileiro, Trump demonstrou disposição para que representantes dos dois países voltem a negociar. Os presidentes teriam concordado sobre a importância de preservar relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, com a retomada das discussões prevista para ocorrer o mais breve possível.

O chamado tarifaço esteve entre os principais assuntos do telefonema. Lula argumentou que as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos para as novas medidas — relacionadas, entre outros pontos, a desmatamento, acordos preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e importações de produtos associados a trabalho forçado — não teriam fundamento.

Segurança pública

Outro tema tratado pelos presidentes foi a segurança pública. O governo brasileiro informou que Lula defendeu a posição de que o Brasil possui mecanismos próprios para enfrentar organizações criminosas, sem a necessidade de classificá-las como organizações terroristas.

A discussão ocorre após o governo norte-americano designar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A decisão provocou reações distintas no Brasil e passou a integrar a pauta de tensão entre os dois governos.

Segundo a Presidência, Trump teria indicado que pretende ampliar a cooperação entre Brasil e Estados Unidos na área de segurança. O presidente norte-americano também teria afirmado que funcionários de alto escalão dos dois governos serão mobilizados para dar continuidade às conversas sobre o tema.

Guerras e cenário internacional

Lula e Trump também trataram de conflitos internacionais, com destaque para a guerra entre Rússia e Ucrânia e os confrontos no Oriente Médio.

Conforme a versão divulgada pelo governo brasileiro, os dois presidentes concordaram sobre a necessidade de buscar uma solução negociada para a guerra na Ucrânia. Lula também teria criticado a dificuldade do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) em avançar na resolução de crises internacionais.

Durante a ligação, o presidente brasileiro propôs a realização de uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança para discutir alternativas diplomáticas para os conflitos em andamento.

Relação entre Brasil e Estados Unidos

O telefonema ocorre depois de meses de desgaste entre os dois países. Além das divergências comerciais, Brasil e Estados Unidos protagonizaram episódios envolvendo vistos diplomáticos e declarações públicas de autoridades dos dois governos.

Em março, o governo brasileiro revogou o visto de Darren Beattie, integrante da administração Trump. Ele pretendia viajar ao Brasil para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre prisão domiciliar. Na ocasião, Lula relacionou a decisão brasileira às restrições de entrada nos Estados Unidos impostas anteriormente a integrantes de seu governo.

Em julho, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, criticou Lula ao defender as novas tarifas aplicadas a produtos brasileiros. Em uma publicação nas redes sociais, Rubio afirmou que o governo brasileiro não teria negociado com os Estados Unidos de boa-fé.

No mesmo período, o Itamaraty recusou vistos aos diplomatas norte-americanos Riley M. Barnes e Samuel Samson. O episódio foi associado, segundo relatos divulgados à época, a preocupações do governo brasileiro sobre possíveis questionamentos ao sistema eleitoral do país.

Em agosto, o governo dos Estados Unidos revogou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A decisão foi relacionada pelo Departamento de Estado norte-americano à demora do Brasil em conceder o agrément para Daniel Perez, indicado por Trump para ocupar a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília.

Diante do cenário de tensão, Lula também passou a fazer críticas públicas a Marco Rubio. Em declaração durante uma viagem a São José dos Campos (SP), o presidente brasileiro afirmou que o secretário de Estado norte-americano não teria simpatia pelo Brasil e pela América Latina.

A conversa desta sexta-feira ocorre, portanto, em um momento de tentativa de reabertura do diálogo direto entre os dois presidentes. A partir das tratativas, os governos deverão avaliar os próximos passos nas negociações comerciais e na cooperação bilateral em segurança.

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