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Entre a floresta e o Agro: como as operações ambientais aprofundam a polarização entre Hana, Daniel e o setor produtivo no Pará

Por Estado do Pará Online
20/06/2026 às 20:16 • 6 min
montagem dividida ao meio, com uma floresta amazônica preservada de um lado e uma grande área de produção agropecuária do outro. Ao centro, as imagens de Hana Ghassan e Daniel Santos, tendo ao fundo Helder Barbalho, Zequinha Marinho e Éder Mauro, simbolizando a disputa de narrativas entre preservação ambiental e desenvolvimento econômico.

Pré-candidatos usam a questão ambiental como pano de fundo de um debate emergente no mundo, principalmente na Amazônia. A dicotomia entre produção e preservação.

As eleições de 2026 no Pará tendem a consolidar uma polarização que vai muito além das disputas partidárias tradicionais. Entre os temas capazes de dividir opiniões e mobilizar diferentes segmentos da sociedade paraense, poucos possuem potencial tão grande quanto a relação entre preservação ambiental, produção econômica e soberania sobre o território amazônico.

Nos últimos anos, uma série de operações ambientais ganhou destaque nacional e internacional. A Operação Xapiri Mebêngôkré, na Terra Indígena Kayapó; a Operação Pasto Nullus, na Terra do Meio; a Operação Metaverso, contra fraudes florestais; e as operações Amazônia Viva e Curupira, coordenadas pelo Governo do Pará, passaram a simbolizar uma disputa permanente entre a necessidade de proteger áreas legalmente preservadas e as reclamações de setores produtivos que denunciam excessos na fiscalização.

Neste contexto, Hana Ghassan e Daniel Santos representam visões políticas que tendem a dialogar de forma diferente com esses acontecimentos. Mesmo que nenhum dos adversários políticos

A divergência não é exatamente “agro contra antiagro”. Os dois lados tentam falar com o setor. A diferença está na moldura.

O legado de Helder Barbalho

Antes de discutir os dois principais nomes da disputa estadual, é impossível ignorar a influência do ex-governador Helder Barbalho.

Durante sua gestão, o governo do Pará buscou assumir protagonismo internacional na agenda climática, ampliando o combate ao desmatamento ilegal, fortalecendo ações da Semas e construindo uma narrativa de liderança ambiental na Amazônia.

Essa estratégia ganhou ainda mais relevância com a realização da COP30 em Belém e com o esforço do governo estadual para apresentar o Pará como exemplo de desenvolvimento sustentável.

As operações Amazônia Viva e Curupira são reflexos diretos dessa política, tendo como foco a repressão ao desmatamento ilegal, à exploração irregular de madeira e à ocupação indevida de áreas protegidas.

Para os defensores do governo e da agenda ambiental sustentável, essas ações demonstram compromisso com a legalidade e a preservação ambiental.

Já os críticos e opositores dos governos de Helder e Hana, argumentam que parte das medidas adotadas pelos gestores afeta produtores rurais que agem na legalidade e comunidades locais que enfrentam dificuldades para regularizar suas atividades.

No bojo do debate midiático que ocorre principalmente nas redes sociais, o senador Zequinha Marinho e os deputados Éder Mauro e Caveira tentam apresentarem-se como as vozes em defesa do setor produtivo contra os excessos da fiscalização.

Hana e a continuidade da agenda ambiental

Como sucessora política de Helder Barbalho, Hana Ghassan tende a herdar tanto os méritos quanto os desgastes dessa política ambiental.

De um lado, Hana tenta ocupar o espaço institucional. Como governadora, tem usado a máquina pública, eventos oficiais e agendas com entidades do agro para defender regularização fundiária, segurança jurídica, sustentabilidade, infraestrutura e presença feminina no campo. Em encontro com Mulheres do Agro, destacou mais de 50 mil títulos fundiários entregues, criação da Delegacia do Agro e diálogo com Faepa/Senar.

Hana Ghassan, participou no dia 02 de Junho do 2º Encontro Estadual das Mulheres do Agro Pará, ao lado de representantes de órgãos estaduais, lideranças rurais de diversas regiões e instituições e entidades parceiras do setor produtivo do Estado. Foto: Marco Santos/Ag; Pará.

Dentro dessa visão, operações como Xapiri Mebêngôkré, Pasto Nullus e Metaverso seriam apresentadas como mecanismos legítimos de combate ao crime ambiental, ao garimpo ilegal, à grilagem de terras e às fraudes florestais.

O discurso da continuidade busca transmitir ao eleitorado urbano, ao mercado internacional e aos investidores a imagem de um Pará comprometido com segurança jurídica, sustentabilidade e cumprimento da legislação ambiental.

Ao mesmo tempo, Hana terá o desafio de convencer produtores rurais de que o combate à ilegalidade não significa hostilidade ao agronegócio e à agropecuária legalmente estabelecidos.

Leitura política

O setor produtivo virou uma arena simbólica da eleição. Para Hana, vencer essa narrativa significa mostrar que o governo Helder não é inimigo do agro, mas parceiro de uma produção moderna e sustentável. Para Daniel, significa convencer que o produtor rural foi deixado de lado e precisa de um governador mais próximo do campo.

Daniel Santos e a aproximação com setores produtivos

Daniel Santos surge em um campo político diferente.

Embora não exista defesa pública da ilegalidade, seu discurso tende a encontrar maior receptividade entre produtores que reclamam do aumento da fiscalização, dos embargos ambientais e das dificuldades de regularização fundiária.

Nesse ambiente, operações como Pasto Nullus, Xapiri Mebêngôkré e Metaverso podem ser utilizadas como exemplos para alimentar um debate sobre limites da atuação estatal, direitos dos produtores e necessidade de maior equilíbrio entre preservação e desenvolvimento econômico.

Daniel Santos busca construir uma narrativa de oposição produtivista. Suas postagens e agendas recentes têm apresentado o agro como setor que precisa ser “ouvido”, “respeitado” e “valorizado”, com críticas à atual gestão estadual e ao que aliados chamam de perseguição ou descaso com quem produz.

A estratégia política tende a dialogar com o sentimento de parte do setor produtivo que considera haver excesso de burocracia, lentidão nos processos de licenciamento e insegurança jurídica para investimentos no campo.

Daniel pode encontrar espaço especialmente entre produtores rurais, pecuaristas e empresários que desejam uma postura mais firme em defesa da atividade econômica.

O campo como novo palco da disputa eleitoral

Se em eleições anteriores os principais debates giravam em torno da segurança pública, saúde e infraestrutura, a eleição de 2026 pode transformar a questão ambiental em um dos principais campos de batalha política.

O ponto central da polarização é este: Hana fala como continuidade institucional do governo Helder; Daniel fala como ruptura política com o grupo Barbalho. A primeira tenta vender estabilidade, regularização e sustentabilidade. O segundo tenta explorar insatisfação, burocracia, insegurança no campo e desejo de mudança.

O Pará concentra alguns dos maiores rebanhos bovinos do Brasil, possui forte atividade mineral, abriga extensas áreas protegidas e ocupa posição estratégica no debate climático mundial.

Por isso, cada operação ambiental acaba produzindo efeitos políticos que vão muito além dos autos de infração e das multas aplicadas.

Para Hana, a narrativa é de que proteger a floresta é garantir o futuro econômico do estado.

Para Daniel, a narrativa tende a enfatizar a necessidade de proteger quem produz, gera empregos e movimenta a economia.

No meio dessa disputa está o eleitor paraense, que precisará decidir qual modelo considera mais adequado para conciliar preservação ambiental, desenvolvimento econômico e inclusão social em um dos estados mais estratégicos da Amazônia.

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