Eleições 2026

Empate sem confronto: Hana e Daniel evitam duelo direto e mantêm Helder no centro da eleição no Pará

Enquanto Daniel concentra críticas no ex-governador e Hana aposta na continuidade administrativa e na agenda voltada às mulheres, analistas avaliam que a ausência de embate pode estar ajudando a prolongar o equilíbrio da disputa

Por Estado do Pará Online
30/08/2026 às 14:28 • 7 min
Hana Ghassan e Dr. Daniel Santos aparecem em lados opostos, com Helder Barbalho ao centro, em montagem sobre a eleição para o Governo do Pará em 2026

Sem confronto direto entre Hana Ghassan e Dr. Daniel, Helder Barbalho permanece como o personagem central da sucessão estadual. Arte: EPOL

A eleição para o Governo do Pará tem dois candidatos claramente à frente, mas apenas um personagem ocupando, até agora, o centro do confronto político. Dr. Daniel Santos (Podemos) e Hana Ghassan (MDB) seguem tecnicamente empatados, porém evitam transformar um ao outro no alvo principal de suas campanhas. No lugar desse duelo direto, é o ex-governador Helder Barbalho (MDB) quem continua dominando a narrativa da sucessão estadual.

A mais recente pesquisa Quaest, contratada pela Globo/TV Liberal e divulgada no sábado (29), mostrou Daniel com 28% das intenções de voto e Hana com 27% no cenário estimulado. A diferença de um ponto está dentro da margem de erro de três pontos percentuais. Em um eventual segundo turno, o equilíbrio é absoluto: 36% para cada um. O levantamento ouviu 804 eleitores entre 25 e 28 de agosto e foi registrado na Justiça Eleitoral sob os números PA-07718/2026 e BR-05309/2026.

O cenário, portanto, não representa nehuma novidade. Em julho, outra rodada da Quaest já havia colocado Hana e Daniel dentro da margem de erro. No início de agosto, a Real Time Big Data mostrou a governadora com 31% e o ex-prefeito de Ananindeua com 29%, novamente em empate técnico. A estabilidade persiste mesmo após as convenções, o início oficial da campanha e a entrada da propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

Dois candidatos, mas o mesmo personagem central

Daniel construiu sua candidatura apresentando-se como a principal alternativa ao grupo político que governa o Pará desde 2019. Por isso, sua comunicação continua mirando Helder, identificado como chefe do grupo adversário e símbolo da estrutura que o candidato do Podemos pretende derrotar.

Analistas políticos ouvidos pelo EPOL avaliam que essa escolha também procura evitar que Daniel ajude a ampliar o conhecimento eleitoral de Hana. Ao direcionar o embate para o ex-governador e para a família Barbalho, ele tenta transformar a eleição em um confronto entre mudança e continuidade, mantendo-se como antagonista direto de uma liderança amplamente conhecida no Estado.

O movimento tem uma lógica: para Daniel, citar Hana com frequência significaria reconhecê-la como protagonista autônoma e contribuir para consolidar sua imagem diante dos 43% que, segundo a nova Quaest, ainda dizem não conhecê-la. Ao atacar Helder, o candidato preserva a narrativa de que não enfrenta apenas uma adversária, mas toda uma estrutura política.

Há, porém, um risco. Ao escolher Helder como adversário preferencial, Daniel também mantém em evidência um ex-governador que registrou 66% de aprovação na Quaest divulgada em julho. Em vez de desgastar o projeto governista, a estratégia pode reforçar, entre parte do eleitorado, a associação de Hana com uma administração popular.

Hana evita o confronto e vende continuidade

Do outro lado, a campanha de Hana também evita dar centralidade a Daniel. A governadora tem concentrado sua comunicação na divulgação de ações do governo, na continuidade da gestão Helder-Hana e na construção de uma identidade ligada ao cuidado, à presença feminina na política e às políticas públicas voltadas às mulheres.

Para analistas ouvidos pelo EPOL, a orientação procura manter Hana acima do confronto direto, usando a exposição do cargo e a avaliação positiva do governo anterior como ativos eleitorais. A estratégia pretende apresentá-la como uma gestora em atividade, e não apenas como uma candidata envolvida em troca de acusações.

Ao não responder diretamente a Daniel, Hana evita oferecer ao adversário o espaço de oposição frontal que ele busca. A campanha governista tenta falar com o eleitor a partir das entregas administrativas, enquanto Helder aparece como fiador da continuidade e principal cabo eleitoral da sucessora.

Essa opção, contudo, também tem limites. Ao se apoiar intensamente na herança política do ex-governador, Hana corre o risco de adiar a construção de uma identidade própria. A associação com Helder transfere força, estrutura e aprovação, mas também facilita o discurso de Daniel de que a disputa seria contra a permanência do mesmo grupo no poder.

O silêncio entre os rivais ajuda a congelar a disputa?

Uma segunda leitura apresentada por analistas ao EPOL é que a ausência de confronto direto pode estar contribuindo para a estabilidade do empate. Sem um debate mais claro entre Hana e Daniel sobre propostas, diferenças administrativas, prioridades e responsabilidades, os eleitores recebem poucas razões novas para mudar de lado.

Os números da Quaest reforçam essa percepção. Mesmo com os nomes apresentados, 29% ainda não sabem em quem votar. Na pergunta espontânea, quando o entrevistador não mostra a lista de candidatos, os indecisos chegam a 69%. Além disso, 44% afirmam não conhecer Daniel e 43% dizem não conhecer Hana.

O empate, portanto, não significa necessariamente que os dois tenham bases consolidadas e impenetráveis. Ele também pode ser o resultado de uma campanha que ainda não conseguiu organizar, para grande parte do eleitorado, um contraste direto entre os dois projetos.

Daniel fala sobre sí e sobre Helder. Hana fala sobre o governo e sobre si mesma. Enquanto isso, o eleitor ainda ouve pouco sobre o que separa, de maneira objetiva, as propostas dos dois candidatos que lideram a disputa.

Helder quer manter o empate?

Não há elementos públicos que permitam afirmar que Helder trabalhe deliberadamente para conservar a igualdade entre Hana e Daniel. Politicamente, o interesse mais evidente do ex-governador é ampliar a vantagem de sua sucessora, proteger a continuidade do grupo no Palácio dos Despachos e fortalecer sua própria candidatura ao Senado.

Isso não significa, porém, que Helder não tenha influência sobre a estratégia. Sua liderança sobre a coalizão, sua presença nas agendas e sua condição de principal avalista político de Hana indicam que ele participa do desenho geral da campanha. O que pode interessá-lo não é o empate em si, mas a manutenção da centralidade.

Enquanto Daniel o escolhe como alvo, Helder permanece como referência da oposição. Enquanto Hana o apresenta como legado, ele segue como referência da situação. Nos dois campos, a eleição continua girando ao redor de seu nome.

Essa centralidade produz ganhos claros. Ela ajuda Helder a preservar protagonismo na disputa ao Senado, transforma a avaliação de sua gestão em argumento eleitoral e mantém sob sua liderança a ampla aliança partidária construída no Estado. Ao mesmo tempo, permite que Hana seja apresentada como continuidade sem precisar entrar, desde já, em uma guerra aberta com o principal adversário.

O custo é igualmente visível. Se a candidata governista não desenvolver uma voz mais própria e não estabelecer diferenças diretas em relação a Daniel, poderá chegar à reta final excessivamente dependente da capacidade de transferência de votos de Helder. E transferência de popularidade nunca é automática.

Um confronto que dificilmente poderá ser adiado

Faltando pouco mais de um mês para o primeiro turno, marcado para 4 de outubro, a estratégia de evitar o choque direto será testada pela propaganda eleitoral, pelas entrevistas e, principalmente, pelos debates. Nesses espaços, Hana e Daniel terão dificuldade para continuar falando um do outro por intermédio de Helder.

A campanha entra agora na fase em que biografias, alianças e slogans deixam de ser suficientes. O eleitor ainda indeciso começará a cobrar comparação de propostas, respostas sobre problemas concretos e clareza sobre o futuro do Estado.

Até aqui, o silêncio entre os principais adversários favoreceu a permanência de Helder como o maior personagem da eleição. A questão decisiva é saber por quanto tempo Hana e Daniel conseguirão disputar o mesmo cargo sem assumir, publicamente, que o verdadeiro confronto eleitoral precisa ocorrer entre os dois.

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