De aliados a adversários: o discurso da renovação e os desafios da coerência política no Pará - Estado do Pará Online

De aliados a adversários: o discurso da renovação e os desafios da coerência política no Pará

Montagem com as fotos de Helder Barbalho, Éder Mauro e Daniel Santos
Fotos: Bruno Cruz/Agência Pará, Ricardo Amanajás/Prefeitura de Ananindeua e Mário Agra/Câmara dos Deputados

A disputa pelo Governo do Pará em 2026 começa a ganhar contornos cada vez mais definidos. Com a saída de Helder Barbalho (MDB) do comando do Executivo estadual para disputar uma vaga no Senado Federal, o cenário eleitoral passou a ser marcado por uma polarização entre grupos que, até poucos anos atrás, caminhavam lado a lado na política paraense.

De um lado está Hana Ghassan (MDB), apontada como principal herdeira política do projeto liderado por Helder Barbalho. Do outro, surge o ex-prefeito de Ananindeua, Daniel Santos (Podemos), ex-aliado do governador e hoje um de seus mais contundentes críticos.

Mantendo alta aprovação em Ananindeua, nos últimos meses, Daniel Santos intensificou agendas pelo interior do Estado e tem adotado um discurso de oposição centrado em críticas à influência política da família Barbalho, frequentemente classificando o grupo como uma “dinastia” que concentra poder no Pará por décadas. Ao seu lado, o deputado federal Éder Mauro (PL), pré-candidato ao Senado, reforça a narrativa junto ao eleitorado identificado com a direita e com o bolsonarismo.

A retórica, entretanto, abre espaço para um debate inevitável sobre coerência política.

Tanto Daniel Santos quanto Éder Mauro construíram parte significativa de suas trajetórias ao lado do grupo político que hoje combatem. Daniel foi filiado ao MDB e, durante anos, figurou entre os aliados do governo estadual, elogiando publicamente a gestão de Helder Barbalho e a atuação de Hana Ghassan.

Eleito deputado estadual em 2028, Daniel assimiu a presidência da ALEPA – Assembleia Legislativa do Pará – após acordo com Helder, reeleito governador. Antes disso, Daniel só tinha participado de duas eleições para vereador em Ananindeua e “ganhou” a presidência do poder legislativo estadual por ter “traído” o PSDB e abandonado a campanha de Márcio Miranda, quando este disputava o governo estadual com Helder. Dois anos depois, Daniel foi eleito prefeito de Ananindeua e recebeu muitos recursos estaduais já que era o ‘parça’ de Helder e Hana, a vice-governadora.

Éder Mauro também esteve próximo ao grupo barbalhista. Sua ascensão política ocorreu em um contexto em que o delegado recebeu ampla exposição nos veículos de comunicação ligados à família Barbalho. Durante o primeiro mandato de Helder, o então deputado federal participou da base de apoio do governo e indicou nomes para a administração estadual, como do próprio filho, Rogério Barra (PL), que soube transformar o espaço político em plataforma para ser eleito deputado estadual.

As críticas atuais ao que classificam como concentração familiar de poder também encontram paralelo em situações vividas pelos próprios opositores.

Daniel Santos tem na esposa, Alessandra Haber, uma das principais lideranças políticas de seu grupo. Em 2022, ela foi eleita deputada federal, pelo MDB, com expressiva votação, tornando-se a parlamentar mais votada do Estado. Seus adversários argumentam que o crescimento político do casal também reflete a força de um projeto familiar estruturado, onde dinheiro não faltou para arregimentar cabos eleitorais e eleitores.

Situação semelhante envolve Éder Mauro. O deputado federal tem o filho, Rogério Barra, exercendo mandato parlamentar e já participou de articulações eleitorais que buscaram ampliar a presença de familiares próximos em cargos eletivos. Na eleição municipal de Belém, por exemplo, a chapa encabeçada por Éder Mauro teve como candidata a vice-prefeita Tatiane Coelho, sua nora, em uma composição apoiada pelo campo bolsonarista.

Especialistas em ciência política observam que a presença de famílias na política não é um fenômeno exclusivo do Pará. O modelo está presente em praticamente todos os espectros ideológicos brasileiros, envolvendo grupos de esquerda, centro e direita. Nesse contexto, o debate eleitoral tende a se concentrar menos na existência de sobrenomes tradicionais e mais na capacidade dos candidatos de convencer o eleitorado sobre seus projetos administrativos e suas propostas para o futuro do Estado.

À medida que a campanha avança, a trajetória dos principais concorrentes deverá ocupar papel central nas discussões. Para os aliados de Hana Ghassan, a experiência acumulada pelo grupo governista representa continuidade administrativa e estabilidade. Já para Daniel Santos e seus apoiadores, a eleição é apresentada como uma oportunidade de alternância de poder e um novo ciclo de famílias nos postos de decisão política.

Entre discursos de renovação e acusações de continuidade, a eleição paraense começa a expor uma das características mais marcantes da política brasileira: a distância que muitas vezes existe entre a retórica eleitoral e a própria trajetória dos protagonistas que disputam o voto popular.

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