Eleições 2026

Hana sem vice e Senado em ebulição: a “porteira fechada” que pode rachar a base governista

Até as convenções do MDB e do PT, nenhum dos principais atores terá certeza sobre o resultado desse confronto. A definição do vice de Hana, o posicionamento de Lula e a decisão final dos petistas poderão transformar a atual divergência em acomodação política ou em uma crise capaz de redesenhar toda a eleição paraense.

Por Estado do Pará Online
25/07/2026 às 23:32 • 10 min
montagem 16:9 com Hana ao centro, Helder e Chicão à esquerda, Celso e Lula à direita, mapa do Pará e tabuleiro político. Produzida com a criação visual integrada.

Escolha do vice de Hana Ghassan está diretamente ligada à disputa pelas duas vagas do Pará no Senado. Arte: EPOL.

Editorial | Estado do Pará Online

O assunto mais quente deste fim de semana na política paraense não é apenas quem será o candidato a vice-governador na chapa de Hana Ghassan (MDB). A indefinição está diretamente ligada à disputa pelas duas vagas do Pará no Senado e ao esforço da base governista para eleger Helder Barbalho e Chicão em uma composição de “porteira fechada”.

A primeira vaga é tratada pelos governistas e opositores como praticamente encaminhada para Helder. Isso não significa, evidentemente, que esteja garantida antes do voto. Significa que todas as pesquisas divulgadas até aqui colocam o ex-governador em uma posição muito superior à dos demais concorrentes.

Na pesquisa Simetria/EPOL divulgada em 30 de junho, Helder apareceu com 49% das intenções, considerando os dois votos para o Senado. Éder Mauro registrou 28%, Celso Sabino 23%, Zequinha Marinho 21%, Chicão 12% e Fernando Carneiro 7%.

A pesquisa Doxa/TVC de junho também mostrou Helder na liderança, com 27,2%. Éder Mauro, com 15,5%, Zequinha Marinho, com 14,9%, e Celso Sabino, com 14,8%, apareceram tecnicamente empatados. Chicão, com 13,4%, estava logo atrás e dentro de uma faixa competitiva.

Os levantamentos possuem metodologias próprias e não devem ser comparados mecanicamente. Ambos, porém, apontam a mesma fotografia política: Helder ocupa a primeira posição, enquanto Éder Mauro, Celso Sabino, Zequinha Marinho e Chicão disputam a segunda vaga.

A convenção que mexeu no tabuleiro

A convenção do PDT que oficializou a candidatura de Celso Sabino ao Senado provocou mais efeitos fora do partido do que dentro dele. A presença de lideranças petistas, entre elas Ana Júlia Carepa e Paulo Rocha, deu ao evento uma dimensão que ultrapassou a homologação de uma candidatura.

Celso demonstrou que pretende ocupar o espaço de candidato ao Senado mais diretamente identificado com Lula no Pará. Ana Júlia, Paulo Rocha e outras tendências internas do PT reforçaram essa leitura ao participarem da mobilização pedetista.

A movimentação provocou reação na base governista, cuja estratégia está voltada à eleição de Helder e Chicão ao senado. A candidatura de Celso deixou de ser vista apenas como uma iniciativa paralela de um aliado. Passou a representar uma ameaça real à tentativa de concentrar os dois votos do eleitor governista nos candidatos escolhidos pelo núcleo político de Helder e Hana.

Na prática, Celso declarou apoio a Hana para o Governo do Estado e a Helder para a primeira vaga ao Senado. O que ele reivindica é o segundo voto. Essa posição permite que dispute o mesmo eleitorado governista de Chicão sem romper formalmente com Hana ou com Helder.

A divergência favorece Celso porque aumenta sua exposição e o coloca no centro do debate. Ao mesmo tempo, transforma-o em adversário prioritário da estratégia governista. Quanto mais ele avança entre petistas e lulistas, maior será o esforço para impedir que o segundo voto destinado a Chicão migre para sua candidatura.

Convenção de Celso Sabino expõe divisão no PT, aumenta a pressão sobre Hana Ghassan e transforma a segunda vaga ao Senado no centro da disputa eleitoral paraense. Foto: divulgação.

PT repete indicação, mas MDB ainda não confirmou

Depois da convenção do PDT, a direção do PT-PA voltou a reunir-se e reafirmou que o deputado estadual Dirceu Ten Caten é o nome do partido para ocupar a vaga de vice de Hana. Em comunicado publicado em 24 de julho, a Executiva Estadual ratificou a aliança com o MDB e apresentou Dirceu como pré-candidato a vice-governador.

O problema é que essa indicação não é nova.

Dirceu foi escolhido pelo PT em dezembro de 2025. Desde então, seu nome foi defendido publicamente em reuniões, encontros partidários, entrevistas e manifestações de dirigentes. Apesar da insistência, o MDB ainda não confirmou que aceitará entregar a vaga ao PT.

Existe uma diferença fundamental entre ser indicado pelo próprio partido e ser aceito como integrante da chapa. Até que Hana, Helder ou a direção do MDB façam essa confirmação, Dirceu continuará sendo o candidato do PT à vaga e não necessariamente o vice de Hana.

O MDB mantém conversas com outros setores, especialmente lideranças evangélicas e representantes do agronegócio e do setor produtivo. Nesses grupos existe forte resistência à presença do PT na vice, motivada por divergências ideológicas, programáticas e pela disputa em torno do posicionamento da chapa na eleição presidencial.

A escolha de um vice petista aproximaria Hana de Lula e facilitaria a cobrança para que o PT apoiasse integralmente Helder e Chicão. Por outro lado, poderia afastar setores conservadores e religiosos que também integram a ampla base governista.

É por isso que, apesar da pressão dos interessados, Hana permanece sem vice confirmado.

O preço do apoio a Chicão

A posição da direção do PT-PA favorável a Chicão parece vinculada a uma expectativa de reciprocidade. O partido apoiaria Hana, Helder e Chicão, mas esperaria receber a vaga de vice para Dirceu Ten Caten.

Se o MDB aceitar Dirceu como vice de Hana, Beto Faro terá argumentos para exigir unidade partidária em torno de Chicão. Se o PT for excluído da chapa majoritária, porém, crescerá a pressão das tendências que defendem Celso Sabino e questionam por que o partido deveria apoiar um candidato do União Brasil em vez de um ex-ministro de Lula, que mantém forte relação com o governo federal.

Ana Júlia, Paulo Rocha e os demais grupos petistas próximos de Celso possuem importância histórica e capacidade de mobilização, mas hoje não controlam a maioria do diretório estadual. Conforme análise publicada anteriormente pelo EPOL, o grupo de Beto Faro, somado ao de Dirceu, reúne força suficiente para conduzir as decisões estaduais.

Por isso, o apoio demonstrado a Celso é politicamente relevante, mas ainda não equivale e nem tem a força para fazer vingar uma coligação oficial entre PT e PDT.

Lula poderá entrar diretamente na disputa?

Nos bastidores, circula a informação de que Lula poderá gravar um vídeo apoiando Celso Sabino para o Senado. Até o momento, não existe anúncio público que confirme essa gravação. Caso ocorra, porém, o efeito político será imediato.

Um apoio explícito de Lula fortaleceria Celso entre os eleitores petistas, contrariaria a estratégia de “porteira fechada” e colocaria a direção estadual do PT em uma situação desconfortável. O partido ficaria dividido entre a aliança estadual conduzida por Beto Faro e um candidato ao Senado respaldado pelo seu principal líder nacional.

Também se comenta sobre a possibilidade de a direção nacional tentar interferir na decisão do PT-PA. Esse movimento abriria uma crise de grandes proporções, especialmente porque Beto Faro dificilmente aceitaria perder o controle de uma estratégia construída em sintonia com Helder.

O precedente de 2006 é frequentemente lembrado pelo CEO do EPOL e da TVC Pará, o jornalista Diógenes Brandão. “Naquele ano, Mário Cardoso era o nome mais cotado do PT para o Governo do Pará. Após uma reunião em Brasília com Lula e dirigentes nacionais, Ana Júlia Carepa foi escolhida candidata ao governo, enquanto Mário disputou o Senado, mas saiu derrotado. Ana Júlia acabou eleita como a primeira mulher a governar o Pará”.

Ainda segundo Diógenes, “a memória política local costuma definir aquele movimento como uma intervenção nacional. Os registros da época, contudo, documentam uma mudança negociada após reunião em Brasília. A participação atribuída a Jader Barbalho nessa articulação permanece como uma versão política dos bastidores, e não como um fato institucional formalmente comprovado. Jader foi responsabilizado como o autor do pedido para que Lula trocasse o candidato do PT paraense, Mário Cardoso, por Ana Júlia.

Duas décadas depois, os mesmos personagens voltam a ocupar posições importantes. Ana Júlia trabalha para ser suplente de Celso. Se a chapa for eleita e Celso futuramente assumir um ministério ou outro cargo incompatível com o mandato, a suplente poderá ocupar uma cadeira no Senado.

A roda da história girou, mas o PT-PA de hoje possui outra correlação de forças. Beto Faro controla a estrutura estadual e não demonstra disposição para repetir o comportamento mais conciliador adotado por Paulo Rocha diante da mudança de 2006, o qual permitiu a “intervenção de Lula no Pará”.

Chicão pode repetir o fenômeno Beto Faro?

A decisão de Helder e Hana de apoiar Chicão é apresentada à base governista como a alternativa com maior possibilidade de êxito. O argumento central não está apenas nas pesquisas, mas na capacidade de mobilização da máquina política reunida em torno do grupo.

Em 2022, Beto Faro começou a disputa longe da liderança. Levantamento da Doxa realizado entre o fim de julho e o início de agosto daquele ano mostrava Manoel Pioneiro na frente, enquanto Beto aparecia com apenas 8,2%. Ao final da campanha, o petista foi eleito com 1.781.582 votos, equivalentes a 42,55% dos votos válidos.

Beto não venceu porque liderava uma campanha personalista desde o início. Venceu impulsionado por uma estrutura que reuniu o governo estadual, prefeitos, vice-prefeitos, deputados, vereadores e lideranças municipais. A força eleitoral de Helder funcionou como um grande vetor de transferência de votos.

O mesmo pode acontecer com Chicão? Pode.

Há, contudo, diferenças importantes. Em 2026, o eleitor poderá votar em dois candidatos ao Senado. Isso favorece a estratégia de Helder e Chicão, pois permite apresentar uma dobradinha completa. Mas também facilita o voto cruzado: Helder pode receber o primeiro voto, enquanto o segundo é destinado a Celso, Éder Mauro ou Zequinha Marinho.

Além disso, os adversários de Chicão são competitivos e possuem bases eleitorais próprias. Éder Mauro concentra o voto bolsonarista, Zequinha mantém forte presença entre evangélicos e no interior, e Celso tenta reunir lulistas, setores governistas e eleitores que desejam acompanhar Hana e Helder sem aderir à “porteira fechada”.

A estrutura governista pode fazer Chicão crescer, como fez Beto Faro crescer em 2022. Mas transferência de voto não é automática, especialmente quando a própria base está dividida e quando um candidato como Celso reivindica simultaneamente o apoio de Lula, Hana e Helder.

O verdadeiro teste será fazer com que prefeitos, deputados, vereadores e lideranças locais pedirem os dois votos – para Helder e Chicão e se o eleitor aceitará fechar a porteira. Um exemplo recente foi a declaração do prefeito de Igarapé-Miri, Roberto Pina (PT), declarando apoio público ao ministro do Turismo, Celso Sabino, em uma eventual disputa ao Senado Federal, além de manifestar apoio ao governador Helder Barbalho (MDB).

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Até as convenções do MDB e do PT, nenhum dos principais atores terá certeza sobre o resultado desse confronto. A definição do vice de Hana, o posicionamento de Lula e a decisão final dos petistas poderão transformar a atual divergência em acomodação política ou em uma crise capaz de redesenhar toda a eleição paraense.

Por enquanto, Hana segue sem vice, Helder lidera, Chicão aposta na máquina e Celso cresce no espaço aberto pela divisão dos aliados. É exatamente por isso que a segunda vaga ao Senado se tornou o centro de gravidade da eleição de 2026 no Pará.

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