Eleições 2026

Ana Castela faz “22” com Nikolas e recebe R$ 850 mil em show bancado por emenda do PL

Cantora fará apresentação em São Fidélis (RJ) após aparecer ao lado do deputado Nikolas Ferreira; levantamento mostra que artista já soma R$ 22,6 milhões em contratos com prefeituras somente em 2026

Por Mayra Peniche
25/08/2026 às 12:32 • 7 min

Foto: Instagram

A cantora Ana Castela voltou ao centro do debate político neste fim de semana após posar ao lado do deputado federal Nikolas Ferreira (PL), com os dois fazendo o número 2 com as mãos, em uma referência ao número eleitoral do Partido Liberal. A imagem ganhou ainda mais repercussão porque ocorre às vésperas de um show da artista que terá R$ 850 mil de seu cachê pagos com recursos de uma emenda parlamentar solicitada por uma deputada do próprio PL.

A apresentação está marcada para quinta-feira (27), durante a Expo São Fidélis, no município de São Fidélis, no Norte Fluminense. Ana Castela será a principal atração da festa do padroeiro da cidade. Segundo documentos encaminhados pela prefeitura ao Ministério do Turismo, o evento tem público médio estimado em cerca de 2 mil pessoas por dia, enquanto a expectativa para o show da cantora chega a 4 mil espectadores.

O cachê da artista será de R$ 850 mil, dentro de uma emenda federal de R$ 1 milhão destinada ao município pela Comissão de Turismo da Câmara dos Deputados após solicitação da deputada federal Dani Cunha (PL-RJ). A contratação, portanto, não é paga diretamente pelo partido, mas utiliza recursos públicos federais destinados ao município por meio de uma emenda parlamentar.

A situação chama atenção principalmente pela proximidade entre o gesto político de Ana Castela e a contratação financiada com recursos públicos. A cantora não declarou, na imagem, apoio formal a uma candidatura específica, mas a referência ao número 22, associado ao PL, foi suficiente para provocar repercussão nas redes sociais.

O dinheiro público por trás dos grandes shows

O caso da “Boiadeira” também precisa ser colocado dentro de um cenário mais amplo. Levantamentos recentes mostram que Ana Castela está entre os artistas que mais movimentam dinheiro público em apresentações contratadas por prefeituras e governos estaduais.

Segundo dados do Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP), a cantora já soma R$ 22,6 milhões em 26 contratos com prefeituras somente em 2026. O valor inclui apresentações com cachês que chegam a R$ 900 mil. O novo contrato de São Fidélis, de R$ 850 mil, ainda entra nessa discussão sobre a dimensão dos gastos públicos com grandes atrações.

Mas Ana Castela está longe de ser a artista que mais recebeu recursos públicos nos últimos anos.

Um levantamento do observatório De Olho nos Ruralistas, baseado em mais de 20 mil contratos firmados entre janeiro de 2024 e o primeiro trimestre de 2026, identificou cerca de R$ 3,08 bilhões destinados a apenas 40 artistas e bandas em apresentações financiadas por prefeituras e governos estaduais. Quando ampliado para os 100 artistas mais contratados, o montante supera R$ 5 bilhões.

Quem mais recebeu dinheiro público para shows?

O ranking mostra uma predominância de artistas ligados ao piseiro, forró, brega e arrocha. O sertanejo, apesar de movimentar valores bilionários no conjunto dos contratos, não domina as primeiras posições individuais.

Entre os artistas que mais receberam recursos públicos desde 2024 estão:

  1. Natanzinho LimaR$ 158 milhões
  2. Henry FreitasR$ 126 milhões
  3. Wesley SafadãoR$ 113 milhões
  4. PabloR$ 108 milhões
  5. Luan PereiraR$ 105 milhões
  6. João GomesR$ 104 milhões
  7. Maiara & MaraisaR$ 101,7 milhões
  8. Zé VaqueiroR$ 99 milhões
  9. Léo SantanaR$ 98 milhões
  10. Xand AviãoR$ 97 milhões

O levantamento aponta que Natanzinho Lima lidera com R$ 158 milhões em 336 apresentações, o equivalente a uma média de um show financiado pelo poder público a cada dois dias e meio no período analisado.

Ana Castela aparece na 19ª posição, com R$ 73,18 milhões em contratos públicos no período analisado pelo relatório, que vai de 2024 ao primeiro trimestre de 2026. Entre as mulheres, ela fica atrás de Maiara & Maraisa, Mari Fernandez e Simone Mendes.

O levantamento também revela uma forte concentração. Cinco produtoras nordestinas reuniram R$ 2,42 bilhões em contratos públicos envolvendo artistas que receberam mais de R$ 10 milhões no período. Apenas essas empresas estão ligadas a 21 dos 40 artistas mais contratados, e oito dos dez primeiros colocados têm ligação com esse grupo empresarial.

Cachês milionários viraram rotina

O tamanho dos valores ajuda a entender por que a contratação de artistas famosos com recursos públicos se tornou uma discussão recorrente no Brasil.

Em 2025, levantamento do UOL apontou que apenas cinco artistas — Gusttavo Lima, Wesley Safadão, Ana Castela, Nattan e Zé Neto & Cristiano — receberam juntos R$ 76,8 milhões em dinheiro público municipal em 106 apresentações no primeiro semestre daquele ano.

Em alguns casos, os cachês individuais ultrapassam R$ 1 milhão. Na Bahia, por exemplo, levantamento com dados de 137 prefeituras apontou Gusttavo Lima com cachê de R$ 1,1 milhão e Wesley Safadão com R$ 1 milhão. Ana Castela aparece na lista com valores de até R$ 700 mil naquele recorte.

O fenômeno também chegou aos grandes eventos de fim de ano. No Réveillon de 2026, Ana Castela recebeu R$ 1,35 milhão por uma apresentação em São Paulo, enquanto outros artistas também foram contratados por valores milionários.

E onde entra a política?

A contratação de artistas com dinheiro público não é, por si só, ilegal. Prefeituras e governos podem contratar atrações culturais, inclusive por inexigibilidade de licitação, desde que sejam observados os requisitos legais e a contratação tenha justificativa e publicidade.

O problema começa quando os valores e a finalidade do gasto passam a levantar questionamentos sobre prioridade, transparência e possível uso político de eventos bancados pelo Estado.

No caso de São Fidélis, a prefeitura afirma que o dinheiro utilizado no evento tem destinação específica dentro do programa “Turismo com Música” e não poderia ser empregado em outra finalidade. A administração municipal também sustenta que o show é financiado pela emenda destinada ao município.

A situação, porém, ganhou uma camada política com a publicação da foto de Ana Castela ao lado de Nikolas Ferreira fazendo o “22”. A coincidência não prova, por si só, qualquer irregularidade na contratação, mas cria um contraste difícil de ignorar: uma artista que acaba de fazer um gesto associado a um partido político será a principal atração de um evento cujo cachê será bancado por uma emenda solicitada por uma deputada do mesmo partido.

E é justamente aí que o debate deixa de ser apenas sobre música.

Passa a ser também sobre quanto o poder público está disposto a pagar por entretenimento, quem são os artistas beneficiados e até que ponto dinheiro público e política podem aparecer lado a lado no mesmo palco.

Dani Cunha e as emendas

A emenda que viabiliza a apresentação foi solicitada pela deputada Dani Cunha, do PL. Ela é filha do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha.

Em julho, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o bloqueio de R$ 6,1 milhões de Eduardo Cunha em investigação envolvendo suspeitas relacionadas ao desvio de emendas parlamentares. Na mesma decisão, também foi determinado o bloqueio de R$ 119 milhões de Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, em investigação sobre irregularidades envolvendo recursos de emendas.

As medidas judiciais, contudo, não significam que Dani Cunha tenha cometido irregularidade no caso da contratação de Ana Castela. São episódios distintos e devem ser tratados separadamente.

O que permanece é a dimensão do gasto: R$ 850 mil para uma única apresentação, valor que coloca o show da cantora novamente entre os exemplos de cachês milionários pagos pelo poder público a grandes nomes da música brasileira.

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