Cidades

Alepa aprova projeto que reconhece abridores de letras como patrimônio cultural do Pará

Por Estado do Pará Online
02/07/2026 às 16:29 • 3 min
Lei publicada nesta quinta-feira (2) no Diário Oficial do Estado oficializa o reconhecimento do ofício dos abridores e das letras de barco da Amazônia para a cultura e identidade da região.

Divulgação

A Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) aprovou o projeto de lei que reconhece o ofício dos abridores e abridoras de letras, assim como as tradicionais letras de barcos, como patrimônio cultural imaterial do estado. A proposta, de autoria do deputado estadual Carlos Bordalo (PT), segue agora para sanção da governadora Hana Ghassan (MDB).

A medida representa um importante passo para a preservação de uma das manifestações artísticas mais emblemáticas da cultura ribeirinha paraense. Surgida por volta de 1925, após a obrigatoriedade da identificação das embarcações determinada pela Capitania dos Portos, a prática evoluiu ao longo das décadas e deu origem a um estilo gráfico único, caracterizado por letras ornamentadas, cores vibrantes e traços desenvolvidos por mestres autodidatas.

Na justificativa do projeto, Carlos Bordalo destaca que as embarcações amazônicas vão além da função de transporte e representam um símbolo da identidade das populações ribeirinhas. Segundo o parlamentar, o reconhecimento busca preservar os saberes tradicionais e incentivar a continuidade desse patrimônio cultural entre as novas gerações.

Trabalho de preservação começou há mais de 20 anos

A valorização das letras de barcos é resultado de um trabalho desenvolvido há mais de duas décadas pelo Instituto Letras que Flutuam, primeira organização do país dedicada exclusivamente à cultura gráfica ribeirinha. Embora tenha sido formalizado em 2024, o instituto iniciou suas atividades em 2004, promovendo pesquisas, documentação e ações de fortalecimento da tradição.

Desde então, a instituição já identificou mais de 130 abridores de letras em municípios paraenses e desenvolve iniciativas voltadas à formação de novos artistas, geração de renda, proteção dos direitos autorais e preservação desse conhecimento tradicional.

Ao longo dos anos, a estética criada pelos abridores de letras ultrapassou os rios amazônicos e passou a ocupar escolas, centros culturais, murais urbanos e eventos nacionais de design. Atualmente, as letras de barcos são reconhecidas como uma das principais expressões da identidade visual do Pará, inspirando campanhas publicitárias, produtos, exposições e projetos culturais.

Reconhecimento fortalece políticas de preservação

Apesar da crescente valorização artística, os profissionais responsáveis por manter viva essa tradição ainda enfrentam desafios relacionados ao reconhecimento profissional e à criação de políticas públicas permanentes de incentivo.

Para Fernanda Martins, pesquisadora, fundadora e presidente do Instituto Letras que Flutuam, a aprovação do projeto representa um marco histórico.

Segundo ela, o reconhecimento valoriza um saber tradicional que durante muitos anos permaneceu invisibilizado e pode abrir caminho para políticas públicas voltadas à proteção dos mestres, ao combate ao plágio e à continuidade desse ofício que faz parte da identidade cultural do povo paraense.

Nos últimos anos, o instituto realizou o mapeamento de artistas em diversas regiões do estado, promoveu encontros estaduais dos abridores de letras, publicou duas edições do livro Letras que Flutuam, produziu documentários e levou oficinas ministradas pelos próprios mestres para escolas e instituições culturais em oito capitais brasileiras, ampliando a visibilidade dessa expressão artística para além da Amazônia.

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