Eleições 2026

Da vassoura de Jânio ao barbeador gigante: quando o objeto vira mensagem política

Se hoje um barbeador gigante pode chamar atenção em uma carreata, há mais de seis décadas outro objeto doméstico já havia conquistado um lugar de destaque na política brasileira: a vassoura.

Por Mayra Peniche
04/09/2026 às 15:32 • 5 min

Foto: imagem gerada por IA

Na eleição presidencial de 1960, Jânio Quadros transformou a vassoura em um dos principais símbolos de sua campanha. A ideia era associar o objeto à promessa de “varrer” a corrupção e a chamada “bandalheira” da administração pública. O símbolo aparecia ao lado do candidato e era reforçado pelo famoso jingle “Varre, varre, vassourinha”, que ajudou a transformar a mensagem anticorrupção em uma imagem simples e facilmente reconhecível.

A estratégia funcionava porque a vassoura não era apenas um objeto. Ela carregava uma ideia. Quem via o símbolo entendia imediatamente a mensagem que a campanha queria transmitir: Jânio seria aquele que chegaria ao poder para “limpar” a política.

Mais de 60 anos depois, a lógica continua presente, mas ganhou uma característica própria da era das redes sociais. O episódio mais recente no Pará é um exemplo dessa lógica.

Provocações na campanha de 2026

Durante a Carreata do MDB, realizada no dia 30 de agosto, um barbeador de grandes proporções chamou atenção ao ser carregado por Helder Filho do ex-governador Helder Barbalho. O objeto trazia a frase “Raspar a oposição” e rapidamente passou a circular nas redes sociais.

A escolha não foi aleatória. No contexto da disputa pelo Governo do Pará, a imagem foi interpretada como uma provocação ao candidato da oposição, Dr. Daniel Santos (Podemos). A associação ocorre após a repercussão de um vídeo de conteúdo íntimo atribuído ao candidato, episódio que dominou as redes sociais durante o período que antecedeu a oficialização de sua candidatura.

Daniel e a esposa, a deputada federal Alessandra Haber, afirmaram na ocasião que questões relacionadas à vida privada deveriam permanecer no âmbito familiar e criticaram o uso do episódio na disputa política. A Justiça Eleitoral do Pará também determinou a retirada de publicações relacionadas ao vídeo de perfis do Instagram.

O barbeador, portanto, funciona como uma espécie de atalho visual. Sem citar diretamente o episódio ou mencionar o nome do adversário, a campanha utiliza um objeto cotidiano para criar uma associação que parte do público consegue compreender imediatamente. É justamente aí que está a força desse tipo de recurso.

O uso de objetos em manifestações políticas não é novidade

As panelas de pressão, por exemplo, já foram utilizadas em diferentes momentos da política brasileira como símbolo de insatisfação e protesto. O objeto doméstico deixou de representar apenas a cozinha e passou a carregar significados políticos dependendo do contexto em que era apresentado.

Essa transformação é justamente o ponto central da estratégia: o objeto não importa apenas pelo que ele é, mas pelo significado que a campanha consegue atribuir a ele.

Uma panela pode representar pressão. Uma vassoura pode simbolizar limpeza. Uma chave pode representar mudança. Uma ferramenta pode remeter a trabalho. E um barbeador pode ser utilizado para construir uma provocação específica dentro de uma disputa eleitoral.

O objeto como “atalho” político

A força desses símbolos está justamente na capacidade de transformar uma mensagem complexa em uma imagem.

A vassoura de Jânio representava a promessa de combate à corrupção. O barbeador, no contexto atual, representa uma provocação eleitoral. São mensagens diferentes, mas construídas a partir de uma mesma lógica: fazer com que o eleitor associe imediatamente um objeto a uma narrativa política.

É uma espécie de atalho de comunicação.

Em vez de explicar durante vários minutos uma posição ou um ataque ao adversário, a campanha cria uma imagem que pode ser compreendida em poucos segundos.

E quanto mais inusitado o objeto, maior pode ser seu potencial de circulação.

Uma pessoa segurando um panfleto é uma cena comum em uma campanha. Um candidato ou apoiador carregando um objeto gigante, porém, produz uma imagem diferente. É justamente essa estranheza que pode fazer com que a fotografia seja compartilhada, vire meme e ultrapasse o público que estava presente no evento.

Da propaganda ao meme

A grande mudança em relação à época de Jânio é que o objeto político deixou de depender exclusivamente dos meios tradicionais de comunicação.

Na década de 1960, o símbolo precisava conquistar espaço em jornais, revistas, rádio e nos próprios comícios. Hoje, ele pode ser transformado em vídeo curto, meme, postagem ou material para grupos de apoiadores poucos minutos depois de aparecer em um ato. Isso também muda a lógica das campanhas.

O objeto não precisa necessariamente apresentar uma proposta. Ele pode simplesmente produzir uma reação: provocar o adversário, divertir o eleitor, gerar comentários ou reforçar a identidade de um grupo político.

A vassoura de Jânio e o barbeador utilizado na campanha paraense pertencem, portanto, a momentos políticos completamente diferentes, mas ajudam a ilustrar uma mesma característica da comunicação eleitoral: às vezes, uma imagem é capaz de dizer mais do que um discurso inteiro.

De uma vassoura que prometia “varrer” a corrupção a um barbeador que promete “raspar” a oposição, os objetos continuam sendo usados para transformar a política em uma mensagem visual. A diferença é que, agora, basta uma câmera de celular para fazer o símbolo sair do palanque e ganhar as redes.

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