Eleições 2026

Do Re-Pa para as urnas: “Seu Boneco” usa nome de Pampam em campanha para deputado federal

Ex-jogador e ídolo do Remo, Agnaldo aposta na popularidade construída no futebol e coloca “Agnaldo e a Turma do Pampam” como nome de urna

Por Estado do Pará Online
14/08/2026 às 10:01 • 8 min

Erick, Pampam e Seu Boneco (Arquivo pessoal | Erick Henrique)

A rivalidade entre Remo e Paysandu ganhou um capítulo inusitado nas eleições de 2026. O ex-jogador e ídolo azulino José Agnaldo de Jesus, conhecido como “Seu Boneco”, decidiu levar para a campanha eleitoral uma das figuras mais populares da torcida bicolor: Pampam, torcedor símbolo do Paysandu que conquistou milhares de seguidores nas redes sociais.

Candidato a deputado federal pelo PDT, Agnaldo adotou como nome eleitoral “Agnaldo e a Turma do Pampam”. A estratégia chama atenção justamente porque o candidato construiu sua trajetória esportiva do outro lado da maior rivalidade do futebol paraense. 

A campanha, portanto, mistura duas identidades que normalmente aparecem em lados opostos da Avenida Almirante Barroso: o ex-jogador que marcou época com a camisa do Remo e o torcedor que se transformou em um dos principais símbolos recentes do Paysandu.

Quem é o “Seu Boneco”?

Nascido em Macambira, Sergipe, Agnaldo construiu sua carreira no futebol paraense e se tornou uma das figuras mais conhecidas da história recente do Clube do Remo. Como jogador, foi campeão paraense pelo time azulino em seis oportunidades na década de 1990 e também teve passagem pelo Paysandu, onde conquistou o estadual de 1998.

Agnaldo ganhou o apelido de “Seu Boneco” pela semelhança física com o personagem interpretado por Lug de Paula na antiga Escolinha do Professor Raimundo. No Remo, ficou conhecido pela liderança e pela identificação com a torcida. Em 2020, uma votação promovida pelo próprio clube colocou Agnaldo como o melhor volante da história azulina na opinião dos torcedores.

Em 2016, disputou uma vaga de vereador em Belém pelo PROS e recebeu 3.188 votos. Em 2020, voltou à disputa e teve 1.806 votos. Já em 2024, pelo PT, alcançou 4.794 votos e ficou na condição de suplente. Agora, em 2026, tenta pela primeira vez chegar à Câmara dos Deputados.

Do ídolo do Remo ao “amigo do Pampam”

É justamente a amizade com Pampam que acrescenta um ingrediente diferente à atual campanha.

Daniel “Pampam” se tornou um dos torcedores mais conhecidos do Paysandu. Jovem com paralisia cerebral, ele ganhou notoriedade pelo carisma, pelos vídeos nas redes sociais e pela presença constante em ações relacionadas ao clube. Durante a campanha do título paraense de 2026, passou a aparecer ainda mais próximo dos jogadores e acabou se tornando uma espécie de personagem da conquista bicolor.

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A relação de Pampam com o futebol ganhou um dos momentos mais marcantes do ano quando o meia Marcinho, do Paysandu, reproduziu em campo o famoso jeito de andar do torcedor após marcar um gol contra o Remo. Depois da conquista do Campeonato Paraense, Pampam também foi chamado para participar da comemoração com os jogadores e ajudou a levantar a taça.

A popularidade do torcedor aumentou ainda mais após ele ser atropelado em junho, enquanto participava da pintura de uma rua em Belém para a Copa do Mundo. O caso mobilizou jogadores, dirigentes e torcedores do Paysandu.

É nesse contexto que Agnaldo decidiu incorporar o nome do amigo à própria identidade eleitoral. Segundo informações publicadas sobre a candidatura, a estratégia busca aproveitar também a visibilidade conquistada pela amizade entre os dois.

Segundo Erick Henrique, tio de Pampam, a relação com Agnaldo começou há cerca de 20 anos, por meio de um projeto social de inclusão. Desde então, segundo ele, o ex-jogador passou a ajudar a família em exames, consultas e cirurgias.

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Pampam e Seu Boneco (foto: Arquivo pessoal | Erick Henrique)

“Hoje eu posso lhe dizer que o Agnaldo não é um amigo nosso, ele faz parte da nossa família”, afirmou Erick.

O tio também contou que a própria família incentivou Agnaldo a disputar a eleição. Segundo ele, o ex-jogador já desenvolve ações voltadas a pessoas com deficiência e, se eleito, poderá ampliar esse trabalho. 

Erick citou ainda uma visita de Agnaldo ao Hospital Sarah Kubitschek, em busca de referências para possíveis projetos no Pará. “As pessoas com necessidades especiais, os PCDs, precisam ser tratados com mais amor, com carinho e igualdade”, declarou.

A fala reforça uma das principais questões que envolvem a candidatura: se a associação com Pampam ficará restrita à identidade eleitoral ou se será acompanhada de uma agenda política específica para pessoas com deficiência.

Segundo Erick, a expectativa da família é que a eventual eleição amplie uma atuação que, na visão deles, já existe há anos, antes mesmo de Agnaldo entrar oficialmente na disputa eleitoral.

A escolha chama atenção porque Pampam é uma figura fortemente associada ao Paysandu, enquanto Agnaldo construiu praticamente toda a sua imagem esportiva no Remo.

Nas redes sociais, os dois já apareceram juntos em momentos que quebram a tradicional rivalidade do Re-Pa. A relação entre eles passou a ser apresentada como um exemplo de que a amizade pode ultrapassar a disputa entre as duas maiores torcidas do Estado.

O registro da candidatura de Agnaldo pelo PDT, até a última atualização consultada, aparecia como “aguardando julgamento” pela Justiça Eleitoral. 

Futebol e política: uma mistura que não é novidade no Pará

A entrada de Agnaldo na disputa federal é apenas mais um capítulo de uma relação antiga entre os gramados e as urnas no futebol paraense.

Mesquita: do Re-Pa para a Câmara Municipal

Um dos casos mais emblemáticos é o de Mesquita, que teve uma trajetória rara ao defender Tuna Luso, Remo e Paysandu. Pelo Leão, conquistou seis títulos paraenses; pelo Papão, foi campeão estadual em 1982.

Depois da carreira nos gramados, Mesquita entrou para a política e foi eleito vereador de Belém em 1982, permanecendo no cargo até 1988 após a prorrogação do mandato.

Neves: ídolo azulino também virou vereador

Outro nome histórico foi Fernando Jucá Neves, o “Nevasca”, um dos grandes ídolos do Remo. O jogador, que também teve passagem pelas categorias de formação do Paysandu, encerrou a carreira profissional em 1974.

Dois anos depois, entrou na política e foi eleito vereador de Belém. Seu mandato, considerado atípico, teve duração de seis anos.

Vinícius: do gol do Remo para a Câmara

Goleiro Vinícius (foto: Reprodução site Republicanos)

Mais recentemente, o ex-goleiro Vinícius, ídolo do Remo, conseguiu transformar a popularidade conquistada no futebol em votos.

Em 2020, foi eleito vereador de Belém com 7.079 votos, chegando a conciliar, durante parte do período, o mandato parlamentar com a carreira profissional de jogador. Em 2024, tentou a reeleição, mas não conseguiu votos suficientes. 

Zé Augusto: o xodó do Paysandu

Do lado bicolor, um dos exemplos mais conhecidos é Zé Augusto. Ídolo do Paysandu e campeão da Série B de 2001, o atacante marcou 116 gols pelo clube ao longo da carreira.

Zé Augusto também tentou transformar a popularidade conquistada na Curuzu em carreira política. Em 2024, disputou uma vaga de vereador em Belém pelo PSD e recebeu 2.729 votos, ficando fora da Câmara Municipal.

Lecheva e outros nomes

A lista ainda inclui outros personagens conhecidos do futebol paraense. Lecheva, ídolo do Paysandu, tentou uma vaga no Legislativo municipal em 2016 pelo PSOL e recebeu 1.825 votos.

Também aparecem nomes como Vélber Risadinha, ex-Paysandu, que disputou uma vaga de vereador em Benevides e recebeu 119 votos em 2020, e o ex-volante Vanderson, campeão da Copa dos Campeões pelo Papão, que concorreu a vereador em Castanhal em 2024 e terminou como suplente.

O histórico mostra que a camisa de Remo ou Paysandu pode abrir portas para uma candidatura, mas não garante, sozinha, uma cadeira no Legislativo. Popularidade, estrutura partidária, articulação política e capacidade de transformar a fama esportiva em identificação com propostas e eleitores continuam sendo fatores decisivos.

Em 2026, Agnaldo tenta um caminho diferente. Em vez de deixar o passado no futebol apenas como parte da biografia, levou a própria identidade esportiva para a urna e acrescentou a ela o nome de um dos personagens mais populares da torcida rival.

No Pará, o Re-Pa já foi parar na política outras vezes. Desta vez, porém, a disputa chega às urnas com uma dupla improvável: um ídolo do Remo e um torcedor símbolo do Paysandu dividindo o mesmo nome de campanha.

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