Política

Entre a ideologia e o pragmatismo: as contradições dos discursos de Helder Barbalho e Daniel Santos na disputa pelo eleitor paraense

Por Estado do Pará Online
30/06/2026 às 01:28 • 7 min
Fotos de Helder Barbalho versus Daniel Santos com o título da matéria em letras garrafais

Helder x Daniel: quem é direita e quem é esquerda no Pará?

A política paraense de 2026 talvez esteja menos dividida entre direita e esquerda do que entre duas grandes narrativas construídas por seus principais protagonistas. De um lado, Helder Barbalho, herdeiro de uma das famílias mais influentes da política estadual, empresário do setor de comunicação e produtor rural, que consolidou uma ampla coalizão de governo durante seus dois mandatos à frente do Estado. De outro, Daniel Santos, médico, ex-prefeito de Ananindeua e empresário, que ascendeu como uma liderança de oposição estadual ao mesmo tempo em que ampliava de forma surpreendente seu patrimônio e lastro eleitoral, enquanto construía uma imagem de gestor moderno e executor.

Embora ambos procurem ocupar espaços distintos na disputa eleitoral, compartilham uma característica essencial da política contemporânea: a flexibilização da identidade ideológica em favor da ampliação do mercado eleitoral.

A ideologia deixou de ser o centro da disputa

Uma das maiores transformações da comunicação política nas últimas décadas foi a substituição da identidade partidária pelas estratégias de posicionamento.

Em vez de convencer o eleitor sobre um projeto ideológico consistente, campanhas modernas procuram reduzir rejeições e ampliar mercados eleitorais. Tanto Daniel, quanto Helder são orientados por pesquisas de opinião e profissionais do marketing político que não lhes deixam passar batido no que os estudados da área indicam. Logo, antes de qualquer conclusão é preciso duvidar se o que dizem é realmente o que pensam, ou o que é melhor para dizerem a quem lhe ouvem ou querem ouvir.

Nesse contexto, direita e esquerda deixam de ser categorias rígidas e passam a funcionar como linguagens que podem ser acionadas conforme o público e suas conveniências.

É justamente esse fenômeno que ajuda a explicar parte das aparentes contradições presentes nas campanhas de Helder Barbalho e Daniel Santos.

Helder: um líder de centro que governa com a esquerda e dialoga com o mercado

Helder Barbalho construiu sua trajetória dentro do MDB, partido historicamente caracterizado pelo pragmatismo político.

Durante seus sete anos como governador, consolidou uma forte relação institucional com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente em temas ligados à Amazônia, infraestrutura e à preparação da COP30. Ao mesmo tempo, sempre buscou manter diálogo com setores empresariais, produtores rurais e lideranças conservadoras do interior.

Em diversas entrevistas, Helder procura se apresentar como alguém que não governa “nem para a direita nem para a esquerda”, defendendo uma agenda baseada em resultados administrativos. Também tem afirmado que desafios como as mudanças climáticas não possuem orientação ideológica.

Essa estratégia procura deslocar o debate da identidade partidária para a competência administrativa.

No entanto, seus adversários observam que sua proximidade política com Lula e com partidos da base governista faz com que parte do eleitorado conservador o identifique como integrante do campo da centro-esquerda, independentemente de sua autodefinição.

Daniel Santos: da centro-esquerda institucional ao diálogo com a direita

O caso de Daniel Santos talvez represente uma transição ainda mais evidente.

Durante algum tepo e até recentemente, Daniel esteve filiado ao PSB, legenda tradicionalmente posicionada no campo da centro-esquerda e integrante da base dos governos Lula, tendo atualmente o vice-presidente Geraldo Alckmin como uma de suas principais lideranças nacionais.

Ao mesmo tempo, sua atuação política recente passou a incorporar alianças e discursos voltados ao eleitorado conservador do Pará, aproximando-se de lideranças identificadas com a direita em diversas regiões do estado. Reportagens sobre a articulação política local destacam esse movimento pragmático de ampliação de alianças para além do campo tradicional do PSB e do MDB, onde também passou bom tempo filiado, sobretudo como deputado estadual, presidente da ALEPA e best friend de Helder.

Esse reposicionamento cria uma situação singular.

Caso venha a receber apoio de aliados do presidente Lula, isso não necessariamente significará uma mudança de identidade perante o eleitor conservador que hoje compõe parte importante de sua base regional. Até hoje, Daniel não tem prefeitos, deputados e lideranças políticas expoentes. O que reúne bem são donos de páginas no Instagram e alguns portais de notícias que cobram por matérias encomendadas, sobretudo em períodos eleitorais.

Da mesma forma, a presença de antigos militantes da esquerda em seu grupo político tampouco o transforma automaticamente em representante desse campo ideológico.

O patrimônio como elemento da narrativa

Outro aspecto interessante da disputa é a tentativa de ambos os grupos de utilizar o patrimônio pessoal como elemento simbólico da narrativa eleitoral.

Helder é frequentemente associado à condição de empresário do setor de comunicação e produtor rural.

Daniel, por sua vez, passou a ser alvo de debates públicos envolvendo sua condição patrimonial, com referências a propriedades rurais, aeronaves, imóveis, relógios de luxo e participação em atividades empresariais.

Do ponto de vista da comunicação política, esse debate raramente busca apenas discutir patrimônio.

Na prática, ele procura construir enquadramentos psicológicos.

Para alguns eleitores, empresários bem-sucedidos representam competência administrativa.

Para outros, grandes patrimônios despertam questionamentos sobre concentração de poder econômico ou distância da realidade social.

A interpretação depende muito mais da predisposição do eleitor do que do patrimônio em si.

O eleitor do sul e sudeste do Pará desafia as classificações tradicionais

Talvez a maior contradição esteja justamente no comportamento do eleitor paraense.

As regiões Sul, Sudeste e parte do Oeste costumam apresentar eleitorados mais identificados com pautas conservadoras, especialmente relacionadas ao agronegócio, segurança pública, propriedade privada e costumes.

Mesmo assim, nas últimas eleições estaduais e presidenciais, esses votos não foram suficientes para eleger candidatos alinhados exclusivamente ao campo da direita para o governo estadual nem para alterar o resultado nacional.

Esse fenômeno revela que identidade ideológica não explica sozinha o comportamento eleitoral.

Fatores como liderança regional, estrutura partidária, alianças municipais, avaliação de governo, redes de apoio e percepção de capacidade administrativa costumam exercer peso semelhante, ou até superior.

Persuasão acima da coerência

Sob a ótica da psicologia política, tanto Helder quanto Daniel utilizam elementos clássicos da persuasão contemporânea.

Entre eles destacam-se:

  • adaptação da linguagem conforme o público;
  • construção de identidade baseada em resultados administrativos;
  • ampliação de alianças para reduzir rejeição;
  • uso de símbolos associados tanto à eficiência econômica quanto à sensibilidade social;
  • redução da centralidade da ideologia em favor da figura do líder.

Essa lógica não é exclusiva do Pará.

Ela acompanha uma tendência internacional em que campanhas deixam de vender programas ideológicos completos para vender atributos pessoais, capacidade de gestão, identidade cultural e pertencimento emocional.

A falsa pergunta

Talvez a pergunta “Helder é de direita ou de esquerda?” ou “Daniel é de direita ou de esquerda?” seja menos relevante do que parece.

A questão politicamente mais importante talvez seja outra:

Quais agendas cada um escolhe enfatizar diante de diferentes públicos, quais alianças efetivamente constrói e como essas escolhas se refletem em suas decisões de governo e em seus posicionamentos públicos?

Na política contemporânea, coerência ideológica absoluta tornou-se cada vez mais rara.

O que cresce é a política das coalizões amplas, das identidades flexíveis e das narrativas adaptáveis.

No Pará de 2026, Helder Barbalho e Daniel Santos parecem representar, cada um à sua maneira, esse novo modelo de liderança: menos definidos por rótulos ideológicos permanentes e mais pela capacidade de dialogar simultaneamente com segmentos diversos do eleitorado. Para o eleitor, o desafio passa a ser distinguir entre discurso, estratégia eleitoral e prática política, avaliando não apenas a retórica das campanhas, mas também as alianças construídas, as decisões tomadas ao longo da trajetória pública e os resultados concretos apresentados.

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