Política

Pesquisa Veritá: como mentir com gráficos e um nome bonito

Por Estado do Pará Online
10/06/2026 às 01:58 • 5 min
Charge criada por IA com um cartunista desenhando um pesquisador fictício diante de uma pilha de formulários. Em vez de entrevistar eleitores, ele carimba apenas o nome do candidato Daniel Santos em todas as fichas enquanto um gráfico sobe de forma absurda como um foguete. Ao fundo, eleitores observam

Pesquisa manipulada? Imagem criada por IA.

Por Dornélio Silva*

A divulgação de pesquisas eleitorais deveria vir acompanhada de dois ingredientes básicos: transparência metodológica e respeito à inteligência do leitor. O Instituto Veritá, pelo visto, ficou só no primeiro gole do café e decidiu que “transparência” é para amadores. Porque os números que essa veritá aí tem jogado na praça sobre a corrida ao governo do Pará são dignos de um episódio de Black Mirror – só que sem a parte inteligente.

Os números que desafiam não só a lógica, mas também a gravidade

Vamos aos fatos, ou ao que tentam fazer passar por fatos.

Apreciem, caros leitores, o fenômeno: o ex-prefeito de Ananindeua, Daniel Santos, estava lá, pacato, com seus 29,1% em abril. De repente, pluft – 52,5% em maio. Um salto de 23,4 pontos percentuais em menos de 30 dias. Isso é mais de 80% de crescimento. Em política, isso não se chama “voto”; chama-se multiplicação dos pães. E olha que nem estamos em época de milagre.

O que aconteceu no Pará entre abril e maio? Daniel Santos descobriu a cura da calvície? Anunciou que vai transformar Belém num país independente? Surgiu um vídeo dele salvando um filhote de peixe-boi? Não. Nada. Aliás, nada mesmo. Nenhum debate, nenhum fato novo, nenhuma aliança bombástica, nenhum escândalo que afundasse a adversária. O silêncio eleitoral foi tão ensurdecedor que só se ouvia o barulho da máquina do Veritá fabricando números.

E a atual governadora, Hana Ghassan, que também cresceu – mas cresceu só 5,4 pontos. Coitada. Enquanto o Dr. Daniel fazia decolagem de foguete, ela andava a pé. Estranho, não? Para um instituto que se chama Veritá, a verdade parece ter perna curta.

Indecisos sumiram? Ou foram sequestrados?

O dado mais cômico – ou trágico, depende do humor – é a coluna de quem não sabe ou não respondeu. Em março: 19,7%. Em abril: 11,8%. Em maio: 6,2%. Isso mesmo: 6,2% de indecisos, faltando três meses para a eleição.

Vamos combinar: nem no dia da votação, saindo da cabine, o eleitor brasileiro é tão decidido assim. Três meses antes, o normal é ter um terço do eleitorado flutuando, especialmente num estado gigante e plural como o Pará. Mas não, segundo o Veritá, o paraense já sabe em quem vai votar com a mesma certeza de quem sabe o próprio nome.

Uma taxa de indecisão de 6,2% em junho não é pesquisa – é profecia. E olhe lá.

Metodologia telefônica: o ponto fraco que virou ponto cômico

O Veritá faz suas coletas por telefone. Método legítimo, sim, barato, rápido. Mas também é o método que exclui automaticamente quem não tem celular (no Pará, isso ainda é uma multidão), quem não atende número desconhecido (eu, você, sua avó) e quem desliga na hora que ouve “boa noite, sou do instituto…”.

Mas o problema não é o telefone em si. O problema é que o Veritá não apresenta o desenho da amostra. Margem de erro? Não sabe. Intervalo de confiança? Segredo. Taxa de recusa? Nem pensar. Ponderação por idade, renda, região? Ficou no rascunho. É como um médico que receita remédio sem olhar o paciente – “confia”.

Pesquisa por telefone pode funcionar. Mas exige rigor. O Veritá, pelo visto, confundiu “telefone” com “telefone sem fio” – no sentido de sem nenhum fio condutor de método científico.

O paradoxo do nome

Vamos falar do elefante na sala: Veritá. Em italiano, “verdade”. Que nome lindo, sonoro, inspirador. Parece até que o fundador do instituto leu Maquiavel e entendeu tudo ao contrário – porque Maquiavel disse “o príncipe deve parecer bondoso”, não “o instituto deve parecer verdadeiro enquanto entrega ficção”.

Se a intenção era ironia, parabéns. Se era verdade, sugiro trocar o nome para Falsitá – em italiano já fica pronto. Ou, para não perder a viagem, Instituto Mentirá. Já que a única coisa consistente nas três pesquisas é a inconsistência.

Conclusão

Como cientista político, eu poderia pedir que o Veritá divulgasse sua metodologia completa, suas taxas de resposta, seu questionário, seu plano amostral. Poderia recomendar cautela à imprensa e aos eleitores. E vou fazer isso sim, por dever de ofício.

Mas, como cidadão, sugiro algo mais prático: ignore. Ignore essas pesquisas como quem ignora um horóscopo que diz que você vai ganhar na loteria amanhã. Pode até acontecer, mas a probabilidade é a mesma do Dr. Daniel ter crescido em 30 dias mais de 80% – quase zero.

A verdade, ao contrário do que o nome sugere, não está nos números do Veritá. A verdade é que o Pará merece pesquisas sérias. Enquanto isso, fiquemos com o que restou: um bom motivo para rir (e desconfiar).

“Veritá” – porque mentir com classe é mais caro, mas eles fazem questão.

De quebra, deixo aqui o vídeo da excelente entrevista com o cientista político Marcos Coimbra, presidente do Instituto de Pesquisas Vox Populi.

*Dornélio Silva é mestre em Ciência Política e diretor do Instituto Doxa Pesquisas.

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