Eleições 2026

Vice invisível: Josué segue como prioridade, mas evangélicos sugerem Chicão para chapa de Hana

Indefinição mantém PT, igrejas e partidos aliados sob pressão; eventual saída de Chicão da corrida ao Senado pode projetar Celso Sabino, enquanto cenários da Quaest incluem nomes de quem não está na disputa ao senado e prejudica quem está

Por Estado do Pará Online
29/07/2026 às 17:54 • 12 min

O dilema do vice invisível continua carregando pressão e expectativa nos bastidores da campanha eleitoral no Pará. A composição da chapa de Hana Ghassan (MDB) permanece aparentemente estagnada, mas longe de estar politicamente parada. Cada peça movimentada tem potencial para desempatar negociações, provocar rupturas e até definir os rumos das disputas pelo Governo do Pará e pelas duas vagas ao Senado.

A demora já começa a ser interpretada por interlocutores políticos como parte da própria estratégia. Enquanto a decisão permanece aberta, PT, lideranças evangélicas, Avante, União Brasil, PDT e setores empresariais continuam interligados à mesa de negociação. O anúncio de um nome encerraria uma expectativa, mas abriria imediatamente vários outros conflitos.

O capítulo mais recente ocorreu nesta terça-feira (28), quando lideranças evangélicas se reuniram com o ex-governador Helder Barbalho (MDB), principal articulador da aliança governista.

Segundo informações obtidas pelo Estado do Pará Online junto a fontes ligadas às tratativas, o grupo reafirmou a indicação do deputado estadual dor Helder Barbalho (MDB), principal articulador da composição governista, e reforçaram a indicação do deputado estadual Josué Paiva (Avante) para a vice. As lideranças, entretanto, sinalizaram que poderiam aceitar uma pessoa que não fosse necessariamente evangélica, desde que a vaga não fosse entregue ao Partido dos Trabalhadores.

Nesse contexto, o presidente da Assembleia Legislativa do Pará, deputado Chicão (União Brasil), foi sugerido como alternativa. Helder teria informado que avaliaria a proposta. Não existe, até o momento, confirmação pública de Hana, do MDB ou dos partidos envolvidos sobre qualquer mudança na composição.

Josué continua como prioridade

A menção a Chicão não significa que Josué tenha sido retirado da disputa. O deputado permanece como o nome preferencial das lideranças que participaram da articulação.

O Avante já apresentou Josué Paiva como pré-candidato a vice-governador, com apoio da Convenção Interestadual de Ministros e Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus no Pará (Comieadepa) e de dirigentes de outras denominações, conforme publicado anteriormente pelo EPOL.

Pastor da Assembleia de Deus, empresário e bacharel em Teologia, Josué foi eleito deputado estadual em 2022 com 36.874 votos. Sua indicação procura transformar a força eleitoral e social das igrejas em participação direta na chapa majoritária.

A posição apresentada ao ex-governador mostra, porém, que a reivindicação não se limita à presença de um evangélico. O ponto central passou a ser a resistência à indicação de um petista.

Essa manifestação não pode ser automaticamente atribuída a todo o eleitorado evangélico paraense, que é plural e não vota de maneira uniforme. Ela expressa a posição de lideranças religiosas com capacidade de mobilização e influência sobre diferentes regiões do estado.

O vice invisível mantém todos presos à negociação

A indefinição beneficia momentaneamente o núcleo responsável pela montagem da chapa porque impede que qualquer grupo se considere excluído antes da conclusão do acordo.

O PT continua reivindicando a vaga de vice para Dirceu Ten Caten. O Avante sustenta Josué Paiva. As lideranças evangélicas rejeitam um nome petista. O União Brasil pretende manter Chicão no Senado. O PDT trabalha para consolidar Celso Sabino. Enquanto isso, Hana evita assumir publicamente um compromisso definitivo.

A manutenção desse cenário também permite que Helder meça o custo eleitoral de cada alternativa.

Escolher Dirceu fortaleceria a ligação da chapa estadual com o presidente Lula, mas poderia ampliar a resistência entre setores religiosos e conservadores. Escolher Josué aproximaria a campanha das igrejas, mas abriria uma crise com o PT. Levar Chicão para a vice apresentaria uma saída intermediária, porém desmontaria parte da estratégia já formalizada para o Senado.

É por isso que o vice, embora ainda invisível, tornou-se uma das figuras mais importantes da eleição.

PT afirma que Dirceu já foi definido

O PT anunciou publicamente Dirceu Ten Caten como seu candidato a vice e afirmou que a composição teria sido construída em entendimento com o MDB.

A estratégia divulgada pela direção petista prevê Lula para presidente, Hana para governadora, Dirceu para vice e Helder Barbalho e Chicão para o Senado. A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, deverá formalizar sua posição em convenção marcada para 1º de agosto. O desenho foi divulgado nacionalmente pela CNN Brasil.

Existe, contudo, uma diferença entre a indicação feita pelo PT e a aceitação do nome pelo MDB. Até que Hana, Helder ou a direção emedebista confirmem Dirceu, ele continuará sendo o candidato petista à vaga, mas não necessariamente o vice escolhido.

Uma eventual rejeição depois do anúncio público aumentaria o custo político da negociação. O PT poderia cobrar compensações, rever seu apoio a Chicão e até retomar a discussão sobre candidatura própria ao Governo do Pará, hipótese que já circula no metiê petista.

Chicão na vice provocaria efeito dominó

A sugestão de Chicão cria uma pergunta inevitável: quem ocuparia seu lugar na estratégia governista para o Senado?

O União Brasil confirmou a candidatura do presidente da Alepa na convenção realizada na segunda-feira (27). A federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, também oficializou apoio a Hana para o governo e a Helder para a outra vaga senatorial. A candidatura foi homologada um dia antes da reunião com os evangélicos.

Levar Chicão para a vice exigiria uma nova deliberação partidária, o entendimento com os demais integrantes da coligação e a recomposição da candidatura ao Senado.

O movimento ainda é possível, mas o calendário aperta. As convenções podem ser realizadas até 5 de agosto e os registros devem ser apresentados à Justiça Eleitoral até o dia 15, segundo o calendário oficial do TSE.

Não seria apenas uma troca de cargo. Seria uma revisão de acordos já anunciados pelo PT, União Brasil, PP e demais partidos da base governista.

Quaest apresenta cenário que levanta questionamentos

A pesquisa Genial/Quaest divulgada na segunda-feira (27) colocou Helder e Éder Mauro (PL) nas duas primeiras posições da disputa pelo Senado. O levantamento entrevistou 900 eleitores entre 21 e 25 de julho, possui margem de erro de três pontos percentuais e está registrado no TSE sob o número PA-04548/2026.

No primeiro cenário, Helder aparece com 21%, Éder Mauro com 14%, Zequinha Marinho com 7%, Celso Sabino e Paulo Rocha com 5% cada, Joaquim Passarinho com 4% e Chicão com 3%. Os indecisos somam 26%.

Os números, entretanto, precisam ser examinados juntamente com a composição dos cenários e a metodologia empregada.

A pesquisa incluiu Paulo Rocha, apesar de a direção estadual do PT já caminhar para apoiar Helder e Chicão. Também apresentou Joaquim Passarinho, que não integrava uma candidatura oficialmente anunciada pelo PL, enquanto Éder Mauro já ocupava o espaço de principal nome do partido para o Senado.

As entrevistas foram realizadas justamente durante o período de convenções. A candidatura de Celso foi confirmada pelo PDT no dia 23; a composição petista foi anunciada no fim da coleta; e Chicão somente seria oficializado pelo União Brasil no dia 27. Isso ajuda a explicar parte da lista, mas também demonstra como o retrato envelheceu rapidamente diante das mudanças partidárias.

Mário Couto, diferentemente do que ocorre nos cenários senatoriais, foi incluído pela Quaest na pesquisa para o Governo do Pará, na qual aparece com 11%.

O ex-senador já enfrentava dificuldades para viabilizar sua candidatura. Após sair do PL, tentou ingressar no Novo e atribuiu a Daniel Santos uma suposta interferência para impedir sua filiação. O Novo afirmou que a decisão decorreu de avaliações internas e nacionais. Posteriormente, o comando estadual do DC passou para um grupo aliado a Daniel, enfraquecendo o projeto eleitoral de Couto.

Pesquisa Quaest: percentuais não podem ser comparados sem considerar o método

Outro ponto fundamental é a maneira como a Quaest apresentou os resultados senatoriais.

O levantamento consolidou o primeiro e o segundo votos e depois reduziu o total para uma escala de 100%. Em uma eleição na qual cada pessoa poderá escolher dois candidatos, essa normalização produz percentuais naturalmente menores do que os apresentados por levantamentos que contabilizam as duas respostas sem reduzi-las à mesma escala.

Em termos práticos, a metodologia provoca uma diluição estatística dos percentuais quando comparada diretamente com outros formatos. Isso não prova que tenha existido intenção de favorecer ou prejudicar qualquer candidato. Significa apenas que os números não podem ser colocados lado a lado como se representassem exatamente a mesma medida.

A lista extensa de nomes também distribui as respostas entre candidaturas formalizadas, nomes ainda especulados e políticos que possivelmente não estarão nas urnas. Em uma pesquisa estimulada, a composição do cartão apresentado ao eleitor influencia a distribuição das preferências.

Portanto, a formulação mais precisa não é afirmar que a Quaest manipulou o resultado, mas registrar que seu cenário e sua forma de normalização produziram um quadro mais pulverizado e de comparação limitada com levantamentos anteriores.

Resultados contrastam com Simetria e Doxa

A diferença fica evidente na comparação com outros levantamentos.

Na pesquisa Simetria/EPOL divulgada em 30 de junho, Helder registrou 49%, Éder Mauro 28%, Celso Sabino 23%, Zequinha Marinho 21% e Chicão 12%. O estudo ouviu 1.200 eleitores e apresentou os votos combinados sem reduzi-los a uma escala final de 100%.

Já a pesquisa Doxa realizada entre 8 e 14 de junho apontou Helder com 27,2%, Éder Mauro com 15,5%, Zequinha com 14,9%, Celso com 14,8% e Chicão com 13,4%. Dentro da margem de erro de 3,1 pontos, os quatro últimos estavam tecnicamente empatados na disputa pela segunda cadeira. O levantamento foi registrado sob o número PA-06430/2026.

As diferenças não invalidam automaticamente nenhum dos levantamentos. Elas demonstram que lista de candidatos, forma da pergunta, tratamento dos dois votos, momento da coleta e tamanho da amostra podem produzir fotografias bastante distintas.

Celso pode herdar o segundo voto governista

Se Chicão migrar para a vice de Hana, Celso Sabino aparece como o candidato mais preparado para receber o segundo voto da base governista.

O PDT já confirmou sua candidatura e declarou apoio a Hana e Helder. Celso também mantém ligação com o governo Lula e recebe manifestações favoráveis de setores petistas, entre eles lideranças que não estão convencidas de que o segundo voto do partido deva ser destinado a Chicão.

Sua trajetória nas pesquisas sugere maior competitividade especialmente na escolha do segundo senador. Em fevereiro, o Real Time Big Data apontou Celso com 5% no primeiro voto e 13% no segundo, indicando potencial de crescimento entre eleitores que priorizam outro nome na primeira escolha. O levantamento ouviu 2 mil pessoas.

Em junho, ele apareceu com 23% na Simetria/EPOL e com 14,8% na Doxa. A queda para 5% ou 6% na Quaest pode estar relacionada, ao menos parcialmente, ao método de normalização e à quantidade de nomes apresentados, não necessariamente a um desaparecimento repentino de seu eleitorado.

A própria Quaest mostra que o quadro continua aberto: entre 22% e 26% permanecem indecisos nos cenários senatoriais, e 57% dos entrevistados disseram que ainda podem mudar de voto.

Esse eleitorado tende a observar as chapas completas, os apoios presidenciais, os candidatos ao governo e as dobradinhas oferecidas antes de decidir como utilizar seus dois votos para o Senado.

Transferência não seria automática

Apesar de Celso surgir como beneficiário imediato de uma eventual saída de Chicão, o apoio de Helder não seria transferido automaticamente.

O PT cobraria compensação pela perda da vice. O União Brasil teria de aceitar a mudança de seu candidato. Prefeitos e lideranças comprometidos com Chicão precisariam ser reorganizados. Além disso, o grupo governista teria de definir se apoiaria exclusivamente Celso ou se manteria mais de uma candidatura disputando o segundo voto.

Se houver unidade em torno de uma dobradinha Helder–Celso, o pedetista poderá crescer e disputar diretamente a segunda cadeira.

Se a base continuar fragmentada, o cenário favorece Éder Mauro, que aparece na segunda colocação da Quaest e se mantém competitivo nos demais levantamentos. Zequinha Marinho também poderá avançar, especialmente entre eleitores conservadores e ligados ao interior.

A escolha que pode definir todo o jogo

Josué Paiva continua sendo a prioridade das lideranças evangélicas que procuram espaço na chapa. Chicão passou a ser apresentado como solução alternativa para impedir que a vice fique com o PT. Dirceu Ten Caten permanece como o candidato oficialmente indicado pelos petistas.

No Senado, Helder lidera, mas o destino do segundo voto governista continua indefinido. Se Chicão permanecer candidato, o grupo tentará repetir a estratégia usada com Beto Faro em 2022. Se for deslocado para a vice, Celso Sabino surgirá como o nome mais provável para ocupar o espaço.

Nada disso está decidido.

O vice invisível permanece escondido porque sua revelação obrigará todos os demais atores a mostrarem suas verdadeiras posições. Quando esse nome finalmente aparecer, não estará sendo preenchida apenas uma vaga na chapa de Hana. Poderá estar sendo definido também quem receberá o segundo voto da base governista e quem chegará ao Senado pelo Pará.

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