Política

Saúde vira campo de batalha: Toni Cunha e Chamonzinho trocam acusações de corrupção e aparelhamento em Marabá

Prefeito acusa deputado de controlar indicações no Hospital Regional e usar veículos de comunicação ligados à família para desgastar o município; parlamentar reage apontando atas supostamente superfaturadas que somariam quase R$ 300 milhões

Por Estado do Pará Online
27/07/2026 às 08:40 • 9 min
Chamonzinho e Toni Cunha, lado a lado

Chamonzinho e Toni Cunha trocam novas acusações em Marabá. Imagem: Reprodução/Redes sociais”.

A espera de um paciente por um leito de alta complexidade transformou-se no mais recente capítulo da guerra política entre o prefeito de Marabá, Toni Cunha (PL), e o deputado estadual Chamonzinho (MDB). Em dois vídeos carregados de ataques pessoais, os antigos adversários eleitorais trocaram acusações de corrupção, aparelhamento da saúde pública, uso político de veículos de comunicação e abandono de promessas de campanha.

O embate começou quando Toni Cunha abordou a situação do jovem Marcos Eduardo da Costa Souza, de 18 anos, internado em uma Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Municipal de Marabá desde o domingo, 19, e segundo o prefeito, à espera de transferência para o Hospital Regional do Sudeste do Pará.

Toni acusou um veículo de comunicação ligado à família de Chamonzinho de explorar o sofrimento do paciente para responsabilizar exclusivamente a rede municipal. Em resposta, o deputado elevou ainda mais o tom e afirmou, sem apresentar documentos no vídeo, que a Prefeitura de Marabá estaria envolvida em adesões a atas supostamente superfaturadas que já somariam quase R$ 300 milhões.

Cabe ressaltar que nenhum dos dois apresentou provas documentais suficientes para transformar as acusações em fatos comprovados, mas cabe aos órgãos de fiscalização e controle investigarem as denúncias feitas na troca de farpas.

Toni aponta influência política no Hospital Regional

No primeiro vídeo, Toni Cunha sustenta que Chamonzinho teria influência direta sobre as nomeações no Hospital Regional e em estruturas da Secretaria de Estado de Saúde Pública. O prefeito afirma que o deputado “manda” na unidade, indica dirigentes e servidores e, ao mesmo tempo, utilizaria a crise de leitos para desgastar a administração municipal.

“Coloque os seus nomeados no Hospital Regional e na Sespa para trabalhar”, declarou Toni, que também chamou o parlamentar de “político bandido”, “preguiçoso” e “estrume político”.

O prefeito afirmou ainda que o Hospital Municipal é obrigado a absorver pacientes de dezenas de municípios, inclusive casos que deveriam ser encaminhados para a rede estadual. Como exemplo, mencionou o jovem Marcos e a mãe de seu motorista, que teria sofrido um infarto e também aguardava vaga no Regional.

Dados oficiais mostram que o Hospital Regional possui 135 leitos, dos quais 38 são de terapia intensiva, e atende pacientes de 22 municípios mediante regulação estadual. A unidade é administrada pelo Instituto de Saúde Social e Ambiental da Amazônia em contrato com a Sespa. Os números constam em balanço divulgado pelo Governo do Pará.

A própria Prefeitura informa que o Hospital Municipal recebe pacientes de Marabá e de outros 22 municípios. A pressão regional sobre a estrutura municipal, portanto, é real, embora os números oficiais sejam diferentes dos “mais de 30 municípios” mencionados pelo prefeito.

Não foram apresentados documentos que comprovem que Chamonzinho controle todas as nomeações, regulações de leitos ou decisões administrativas do Hospital Regional. Trata-se de uma acusação política de Toni Cunha que precisa ser respondida pela Sespa, pela entidade gestora e pelo gabinete do deputado.

Jornal ligado à família entra no centro da disputa

Toni também acusa Chamonzinho de usar um jornal registrado em nome da mãe para atacar o governo municipal. Um levantamento da Agência Pública, publicado em 2016, identificou concessões de retransmissão de televisão em nome da mãe e da esposa do parlamentar, além da presença da família Chamon em rádios e jornais da região.

A disputa em torno da mídia já havia chegado a Brasília. Em julho de 2025, o deputado federal Delegado Caveira utilizou a tribuna da Câmara para acusar a Rede Correio e um jornalista de promoverem ataques contra Toni Cunha a mando de Chamonzinho. Um áudio mencionado pelo parlamentar não foi reproduzido durante a sessão, e sua autenticidade não foi submetida a verificação independente. O episódio consta nos registros oficiais da Câmara dos Deputados.

Chamonzinho responde com acusação de quase R$ 300 milhões

Na resposta, Chamonzinho chama Toni de “bandido desequilibrado” e “vagabundo da internet”. Em seguida, afirma que a Prefeitura estaria envolvida em “um dos maiores esquemas de corrupção do estado do Pará”, baseado em adesões a atas de registro de preços supostamente superfaturadas.

Segundo o deputado, essas contratações somariam quase R$ 300 milhões e estariam levando recursos e oportunidades para empresas de outras cidades. No vídeo, entretanto, Chamonzinho não relaciona os contratos, não apresenta planilha com a composição da cifra e não aponta decisão de tribunal ou investigação concluída que confirme a existência do suposto esquema.

O tema das atas já provocou controvérsia na Câmara Municipal. Em 2025, uma representação contra Toni questionou, entre outros procedimentos, uma adesão para serviços de iluminação pública.

Uma análise técnica da 7ª Controladoria do Tribunal de Contas dos Municípios examinou especificamente o processo nº 90002.2025. A Manifestação nº 124/2025 do TCM-PA informou que, naquele procedimento, não foram encontrados indícios de superfaturamento, manipulação das cotações ou irregularidade manifesta na composição de preços.

O próprio documento ressalva que a conclusão era preliminar, não vinculativa e poderia ser revista diante de novos fatos. Assim, a manifestação não equivale a uma aprovação definitiva de todas as contratações da gestão, mas também impede que o processo analisado seja apresentado, sem ressalvas, como prova de corrupção.

As denúncias político-administrativas que tramitaram na Câmara acabaram arquivadas em agosto de 2025. A nova cifra de quase R$ 300 milhões anunciada por Chamonzinho continua, no material analisado, sem demonstração documental, mas mesmo assim a denúncia precisa ser apurada pelos órgãos competentes.

Deputado enumera obras estaduais

Para responder à acusação de que nada teria feito por Marabá, Chamonzinho atribuiu à sua articulação a chegada da Usina da Paz, da oncologia do Hospital Regional, da Policlínica Carajás e do Hospital Regional Materno-Infantil.

A existência das entregas é confirmada por registros do Governo do Estado. A Usina da Paz foi inaugurada em fevereiro de 2025; a oncologia funciona desde 2024; a Policlínica Carajás foi entregue em abril de 2025; e a primeira etapa do Hospital Materno-Infantil foi inaugurada em março de 2026.

Os registros oficiais classificam esses equipamentos como investimentos do Governo do Pará, alguns em parceria com outras instituições. Eles confirmam as entregas, mas não permitem atribuir exclusivamente a Chamonzinho a responsabilidade por cada obra.

O parlamentar também afirmou que o Instituto Miguel Chamon atendeu mais de 25 mil pessoas no último ano e distribuiu mais de 10 mil óculos. Os números foram apresentados por ele sem documentação na gravação e precisam ser confirmados pela entidade.

A controvérsia das emendas

Toni desafiou Chamonzinho a mostrar onde aplicou suas emendas durante quase oito anos de mandato e afirmou que “nem um centavo” teria sido destinado a Marabá. Existem registros jornalísticos atribuindo ao deputado, por exemplo, uma emenda de R$ 300 mil para aquisição de uma motoniveladora destinada à região do Rio Preto, em 2019, além de participação em emendas coletivas para projetos do Águia de Marabá.

Como parte dessas informações foi publicada por um veículo associado à família do parlamentar, a comprovação definitiva exige consulta aos empenhos, convênios, pagamentos e prestações de contas do Governo do Estado. O gabinete de Chamonzinho deve apresentar uma relação consolidada das emendas destinadas e efetivamente executadas em Marabá.

Adversários desde a Alepa

A guerra entre Toni e Chamonzinho não começou agora. Em 2019, quando os dois eram deputados estaduais, eles já haviam protagonizado uma discussão no plenário da Assembleia Legislativa sobre indicações políticas no governo estadual. Na ocasião, Chamonzinho reconheceu que fazia indicações, mas declarou que não tinha poder para nomear servidores.

O confronto ganhou dimensão eleitoral em 2024. Toni Cunha venceu a disputa pela Prefeitura de Marabá com 69.666 votos, equivalentes a 51,08% dos votos válidos. Chamonzinho, então apoiado pelo governador Helder Barbalho, ficou em segundo lugar, com 46.412 votos, ou 34,03%, conforme o resultado eleitoral.

A derrota não encerrou a disputa. De um lado está Toni, com o controle da máquina municipal e forte presença nas redes sociais. Do outro, Chamonzinho mantém mandato na Alepa, relações com o MDB e proximidade com o grupo político estadual liderado por Helder Barbalho. Desde 2 de abril de 2026, o Pará é governado por Hana Ghassan, que assumiu depois da saída de Helder do cargo, conforme noticiado pela CNN Brasil.

Disputa pelo poder supera debate sobre o paciente

A troca de farpas nas redes sociais revela que a situação do jovem Marcos, que deveria provocar uma discussão objetiva sobre regulação, disponibilidade de leitos e integração entre Município e Estado, foi transformada em munição de uma guerra política que é potencializada em ano eleitoral.

Toni ainda não respondeu à cifra de quase R$ 300 milhões lançada pelo adversário. Chamonzinho, por sua vez, não esclareceu quantos cargos indicou no Hospital Regional ou na Sespa, nem apresentou a relação consolidada de emendas destinadas a Marabá.

Enquanto essas respostas não aparecem, permanecem duas acusações políticas graves, acompanhadas de ofensas pessoais, mas ainda carentes de demonstração documental. O episódio mostra que a eleição de 2024 terminou nas urnas, mas a contenda pelo controle político de Marabá e pela influência no sudeste paraense está longe de acabar.

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