Eleições 2026

Quem viralizou um jingle de dez anos atrás? Foi o próprio Osmarzinho

Ex-prefeito de Cocal dos Alves conseguiu na Justiça a retirada de publicações com a música, que voltou às redes sociais e chegou a ser apontada como um dos conteúdos mais virais do Brasil

Por Mayra Peniche
26/08/2026 às 13:26 • 8 min

Foto: Imagem gerada por IA

Osmar Vieira, ex-prefeito de Cocal dos Alves, no Piauí, se tornou o centro das redes sociais por causa de uma música criada durante sua campanha eleitoral de 2016. Em ritmo de forró frenético e com uma estrutura de perguntas e respostas, o jingle fazia uma série de acusações contra Osmarzinho e integrantes de sua família.

O detalhe é que Osmarzinho não é candidato nas eleições de 2026. Mesmo assim, o áudio ressurgiu nos últimos dias e ganhou uma proporção que provavelmente seus autores não imaginavam quando a música era reproduzida em carros de som pelas ruas de Cocal dos Alves. O jingle chegou a ser apontado como um dos conteúdos mais virais do Brasil.

O jingle que nasceu em uma disputa apertada

A música foi criada durante a campanha eleitoral de 2016, quando Osmarzinho disputava a Prefeitura de Cocal dos Alves contra Ivan, do PDT.

Naquele ano, a disputa terminou de forma apertada. Osmarzinho venceu a eleição por apenas 151 votos de diferença e assumiu a Prefeitura em 2017. Ele permaneceu no cargo até 2024, pelo PT.

Na época, a música era reproduzida nos chamados “paredões”, os carros de som utilizados durante a campanha. O objetivo era atingir diretamente o adversário por meio de uma composição que transformava acusações políticas em versos fáceis de memorizar.

O que ninguém poderia prever era que, dez anos depois, o mesmo jingle encontraria um ambiente muito mais poderoso para se espalhar: as redes sociais.

Afinal, o que o jingle diz?

Em ritmo de forró, a música utiliza perguntas e respostas para atribuir diferentes acusações a Osmarzinho e familiares.

Entre os principais trechos estão referências a um suposto desvio de R$ 19 milhões da Educação, a um atropelamento com morte e até a um suposto empréstimo não pago a um tio.

É importante destacar, porém, que as afirmações presentes na música são acusações feitas em uma peça de campanha política e não devem ser tratadas automaticamente como fatos comprovados.

No caso dos R$19 milhões, há um registro concreto envolvendo a família de Osmarzinho. A Segunda Câmara do Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI) julgou parcialmente procedente, em 27 de março de 2019, uma denúncia contra Rubens Vieira e constatou desvio de finalidade na aplicação de recursos do Fundeb durante sua gestão à frente da Prefeitura de Cocal. A decisão do tribunal deu respaldo à existência de irregularidades na utilização dos recursos da Educação mencionados no jingle, embora seja importante diferenciar o que foi efetivamente constatado pelo TCE da acusação apresentada na música.

E os oito processos?

Outro trecho que voltou a chamar atenção afirma que Osmarzinho responderia a oito processos, inclusive com uma referência a um caso envolvendo morte.

A quantidade aparece na própria letra, mas precisa ser contextualizada. Processos judiciais podem tratar de assuntos diferentes e estar em fases distintas, e responder a uma ação não significa necessariamente ter sido condenado.

A mais grave das acusações é um trecho da música acusa Osmarzinho de ter atropelado e matado uma menina no povoado Pitombeiras e de ter deixado o local sem prestar socorro. A acusação, porém, não pôde ser confirmada pela reportagem por meio de um processo judicial ou decisão pública que responsabilize o ex-prefeito pelo episódio. O caso aparece, até o momento, como uma acusação apresentada na letra do jingle.

A música que voltou aos tribunais

A história do jingle tem uma coincidência curiosa: Osmarzinho já havia recorrido à Justiça para tentar retirar a música de circulação durante a eleição de 2016. Dez anos depois, precisou fazer praticamente o mesmo movimento novamente.

Com a nova onda de viralização, o ex-prefeito entrou novamente na Justiça para impedir a circulação das publicações que reproduzem o áudio. Desta vez, a decisão foi concedida pela juíza Elvanice Pereira de Sousa Frota Gomes, da 4ª Vara Cível da Comarca de Teresina.

A determinação obriga a Meta, responsável pelo Instagram e pelo Facebook, e a Bytedance Brasil, dona do TikTok, a tornar indisponíveis, em até 24 horas após a intimação, os conteúdos que reproduzem o jingle. A decisão também proíbe a reutilização do áudio em novas publicações.

Em caso de descumprimento, as plataformas estão sujeitas a uma multa diária de R$ 5 mil.

Procurada, a Meta informou que não iria se manifestar sobre o caso. O TikTok também foi procurado, mas não havia respondido. A reportagem não conseguiu contato com Ivan, adversário de Osmarzinho na eleição de 2016.

Ou seja: a mesma música que foi parar na Justiça durante a campanha que a originou voltou a ser alvo de uma disputa judicial uma década depois. A diferença é que, desta vez, ela já havia percorrido um caminho muito maior pelas redes sociais.

Osmarzinho não disputa eleição, mas a família continua na política

A viralização ganha uma camada ainda mais curiosa porque o próprio Osmarzinho está fora da disputa eleitoral de 2026. Atualmente, com 57 anos o Ex-prefeito é comerciante. A família, entretanto, continua presente na política local.

O sobrinho, Wodson Vieira, também do PT, foi eleito prefeito em 2024 e atualmente administra o município. Já o irmão de Osmarzinho, Rubens Vieira, disputa a reeleição para deputado estadual no Piauí pelo mesmo partido.

Assim, embora Osmarzinho não esteja pedindo votos neste ano, o sobrenome Vieira continua diretamente ligado à política do município.

O formato que deu certo ganhou novas versões

O sucesso do jingle também parece ter mostrado que existe uma fórmula que funciona nas redes sociais: uma música curta, frases de impacto, uma sequência de acusações ou provocações políticas e uma melodia fácil de repetir.

E o formato já ganhou novas versões em 2026. Um exemplo que circula nas redes envolve Flávio Bolsonaro, em um conteúdo produzido com inteligência artificial por adversários políticos. A estrutura segue uma lógica parecida: uma música apresenta uma sequência de acusações e críticas políticas, transformando uma lista de ataques em um conteúdo musical pensado para ser compartilhado.

Paulo Barreto, do PT, que disputa uma vaga no Rio Grande do Norte, também ganhou uma versão de jingle seguindo o formato que viralizou com Osmarzinho. O conteúdo utiliza a mesma lógica de transformar a mensagem política em música, com frases curtas e de fácil memorização, mostrando como a fórmula passou a ser reaproveitada nas redes sociais. Edmar Vaqueiro é prefeito de Coroatá, no Maranhão, também ganhou uma versão do formato que vem circulando nas redes. 

A tecnologia muda, mas a lógica permanece. O jingle de Osmarzinho foi criado para os “paredões” de uma campanha municipal em 2016. Os novos conteúdos podem ser criados com inteligência artificial e chegar diretamente às redes sociais, onde podem ser recortados, remixados e reutilizados em vídeos curtos.

É como se o velho carro de som tivesse ganhado uma versão digital: agora, em vez de percorrer as ruas de uma cidade, o jingle percorre o algoritmo.

O algoritmo fez o que o carro de som não conseguiu

Em 2016, quando o jingle foi criado, as redes sociais ainda não tinham o mesmo poder de alcance e viralização que possuem hoje.

Não havia a mesma força dos vídeos curtos, dos áudios reutilizados, dos memes instantâneos e dos algoritmos capazes de transformar uma gravação feita para uma campanha municipal em um fenômeno nacional.

Naquela época, para ouvir a música, era preciso estar perto de um dos carros de som que circulavam pelas ruas de Cocal dos Alves. Em 2026, basta um celular.

E é justamente aí que está a parte mais curiosa da história. Mesmo com a decisão judicial determinando a retirada das publicações e proibindo a reutilização do áudio, o processo de viralização já fez com que o jingle fosse copiado, repostado e transformado em diferentes conteúdos.

Uma música criada para atacar um candidato em uma eleição municipal acabou ganhando uma segunda vida dez anos depois.

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