O fio da tradição: como mulheres do Marajó transformam um saber ancestral em renda e independência - Estado do Pará Online

O fio da tradição: como mulheres do Marajó transformam um saber ancestral em renda e independência

Capacitação liderada pela costureira mais antiga de Soure ajuda a preservar a tradicional camisa marajoara e abre caminhos para que mulheres transformem cultura em negócio no arquipélago

Aos 78 anos, Maria da Cruz Silva Gurjão observa atentamente dezenas de mulheres reproduzindo movimentos que ela aprendeu há décadas. Em uma sala de capacitação em Soure, no arquipélago do Marajó, cada corte, molde e acabamento representa algo maior do que uma técnica de costura: a continuidade de um saber que quase ficou restrito a poucas mãos.

Conhecida como Dona Cruz, ela é considerada a costureira mais antiga em atividade na cidade e uma das principais guardiãs da tradicional camisa marajoara. O conhecimento foi aprendido com o mestre Baiano, referência na região e já falecido. Na época, ela jamais imaginou que um dia se tornaria responsável por transmitir esse saber às próximas gerações. Atualmente, 41 participantes divididas em quatro turmas passam pela capacitação que ensina a técnica da tradicional camisa marajoara.

“Nem pensava que um dia eu fosse referência desse conhecimento no Marajó”, conta.

Mais do que uma peça de vestuário, a camisa marajoara carrega símbolos que atravessam gerações. Inspirada na cultura e nos grafismos da região, ela representa uma identidade construída ao longo dos séculos.

“Essa camisa representa a ancestralidade do Marajó, juntamente com sua identidade”, resume Dona Cruz.

Confecção de camisas marajoaras

Quando a tradição vira negócio

Por muitos anos, no entanto, a produção da peça esteve concentrada em um número reduzido de artesãos e costureiras. A preocupação com a continuidade da técnica ganhou força após a repercussão nacional de uma camisa confeccionada por Dona Cruz e utilizada pelo governador Helder Barbalho durante a Cúpula da Amazônia. O interesse pela peça aumentou, mas a quantidade de pessoas aptas a produzi-la revelou um desafio: havia demanda, mas faltava mão de obra qualificada.

Foi a partir dessa constatação que nasceu o Polo de Moda do Marajó.

Articulado pelo Sebrae em parceria com o Senai, Senar e Governo do Estado, o projeto iniciou um trabalho de mapeamento dos produtores locais e passou a investir na formação de novas costureiras e empreendedoras em Soure e Cachoeira do Arari. Ao longo dos últimos meses, as participantes receberam capacitações em costura industrial, modelagem, design, empreendedorismo e gestão de negócios. A etapa atual, considerada uma das mais importantes do projeto, é justamente a transmissão da técnica da camisa marajoara diretamente por Dona Cruz.

Dona Cruz ensinando as alunas do Polo de moda

Linhas que transformam vidas

Segundo Jamily Rodrigues, coordenadora da unidade do Sebrae em Soure, o Polo de Moda do Marajó surgiu a partir da necessidade de preservar um conhecimento tradicional que corria o risco de desaparecer por falta de pessoas capacitadas para reproduzi-lo.

“Quando percebemos que havia demanda pela camisa marajoara, mas poucas pessoas dominavam a técnica, ficou claro que era necessário investir na formação de novas costureiras e empreendedoras para que esse conhecimento continuasse vivo”, afirma.

Para a coordenadora, a iniciativa vai além da qualificação profissional.

“O projeto foi concebido para preservar a tradição da camisa marajoara, mas também para criar oportunidades de geração de renda, fortalecer o empreendedorismo feminino e contribuir para o desenvolvimento econômico do Marajó”, destaca.

Mais do que preservar um patrimônio cultural, a iniciativa busca transformar conhecimento tradicional em oportunidade econômica.

Entre as mulheres que enxergaram nessa oportunidade a chance de recomeçar está Glauciane Lima. Professora de formação, ela estava afastada do mercado de trabalho havia anos. Após o nascimento do filho, encontrou dificuldades para retornar à profissão. Vieram a pandemia, o isolamento e uma sequência de frustrações em concursos públicos.

“Eu não acreditava em mim. Me achava a pessoa mais burra do mundo”, relembra.

Quando decidiu participar do projeto, sua intenção era simples: voltar a conviver com outras pessoas e amenizar crises de ansiedade que enfrentava naquele período. Empreender não fazia parte dos planos.

A descoberta aconteceu durante as capacitações. Sem qualquer experiência anterior, ela ingressou em um curso de costura industrial e rapidamente chamou atenção pelo desempenho. O contato com as mentorias e orientações promovidas pelo Sebrae ampliou sua visão sobre o potencial da atividade e despertou uma habilidade que ela própria desconhecia.

“Talvez eu tenha nascido para isso e não sabia.”

Foi assim que nasceu a Mangue, marca criada por ela para desenvolver estampas inspiradas na cultura marajoara. Com um investimento inicial de R$ 400 e duas máquinas de costura presenteadas pelo marido, produziu suas primeiras peças. Hoje, turistas brasileiros e estrangeiros visitam a loja instalada em frente à sua casa, na periferia de Soure.

Em menos de dois anos, a mulher que ingressou no projeto buscando amenizar crises de ansiedade transformou uma ideia em um negócio consolidado e uma importante fonte de renda para a família.

Atualmente, a empreendedora comercializa, em média, 140 produtos por mês. Durante a alta temporada, cerca de 300 visitantes passam pela loja em busca de peças autorais inspiradas na cultura marajoara.

Glauciane na sua loja / Foto: Arquivo pessoal

O crescimento também aparece no faturamento. Em julho de 2025, considerado o melhor mês da história da marca, a empresa registrou R$ 29 mil em vendas. Para este ano, a expectativa é superar o resultado impulsionada pelo aumento do fluxo turístico e pela ampliação da produção. A renda gerada pelo negócio trouxe algo que ela havia perdido ao longo dos anos: independência financeira.

“Hoje eu consigo me manter sozinha, guardar dinheiro e ajudar nas despesas de casa.”

Da costura aprendida na infância ao sonho do próprio ateliê

A transformação não aconteceu apenas na vida de Glauciane. Aos 60 anos, Márcia Gonçalves também encontrou no Polo de Moda uma oportunidade de ampliar horizontes. A relação com a costura começou ainda na infância, observando uma tia trabalhar em uma antiga máquina de costura. Ao longo da vida, precisou deixar o Marajó para buscar emprego em Belém, onde trabalhou na construção civil e em casas de família para ajudar no sustento da mãe e dos filhos.

Apesar da experiência prática, sentia que faltava algo.

“Eu sabia costurar, mas não tinha técnica.”

Quando soube da capacitação promovida pelo projeto, decidiu se inscrever imediatamente. O aprendizado adquirido nos cursos abriu novas possibilidades. Hoje, a costura é sua principal fonte de renda. Com o dinheiro obtido pelo trabalho, ajuda a concluir a construção da própria casa e investe na criação de um novo ateliê.

Além das peças inspiradas na cultura marajoara, produz vestidos de festa, roupas juninas e trajes sob medida. O próximo passo já está definido: criar uma linha de moda marajoara plus size, segmento ainda pouco explorado na região.

“Eu gostaria de ganhar o suficiente para me manter financeiramente e também proporcionar renda para outra pessoa.”

Histórias como a de Márcia ajudam a dimensionar os resultados que começam a surgir a partir da iniciativa. O conhecimento transmitido nas capacitações já ultrapassa os limites da preservação cultural e passa a integrar projetos de vida, geração de renda e novos negócios no arquipélago.

Em julho, durante a alta temporada turística de Soure, muitas dessas empreendedoras terão a oportunidade de comercializar seus produtos para visitantes de diversas partes do Brasil e do exterior. Algumas já possuem marcas próprias. Outras ainda estão dando os primeiros passos. Todas, porém, carregam algo em comum: a possibilidade de construir novas trajetórias a partir de um conhecimento que quase permaneceu restrito a poucas pessoas.

Enquanto acompanha as alunas reproduzindo os mesmos movimentos que aprendeu décadas atrás com o mestre Baiano, Dona Cruz vê se concretizar um desejo antigo.

“Me sentia com a necessidade de repassar esse conhecimento. Sempre tive certeza que uma hora eu iria repassá-lo.”

Hoje, esse saber já não depende apenas dela. Está presente nas mãos de dezenas de mulheres que transformam linhas, tecidos e símbolos ancestrais em peças capazes de preservar a identidade marajoara, gerar renda e construir novos futuros.

Para Dona Cruz, que durante décadas carregou praticamente sozinha a responsabilidade de manter viva a técnica da camisa marajoara, a cena das salas cheias de aprendizes representa a realização de um sonho antigo.

O que começou como um esforço para evitar que uma tradição desaparecesse tornou-se também uma ferramenta de transformação social e econômica. No Marajó, cada camisa produzida carrega mais do que grafismos e tecidos. Em cada costura está a permanência de um saber ancestral e a história de mulheres que encontraram na própria cultura uma oportunidade de renda, autonomia e futuro.

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