Eleições 2026

Número de urna provoca disputas internas por espaço dentro dos partidos

Disputas por combinações como 13-13 no PT e 50-50 no PSOL mostram o peso político dos números. Especialista em mobilização digital explica como eles influenciam a memória e a decisão do eleitor

Por Estado do Pará Online
18/08/2026 às 12:18 • 6 min

Foto: Roberto Jayme / Ascom TSE

A escolha do número de urna, que pode parecer apenas uma questão de identificação do candidato, também pode revelar disputas internas por protagonismo dentro dos partidos. Em legendas nas quais determinados números se tornam tradicionalmente associados a candidatos competitivos, a definição pode ganhar peso político e até provocar conflitos entre integrantes da mesma sigla.

Um dos exemplos mais recentes ocorreu no Rio de Janeiro, onde o número 1313, tradicionalmente associado ao PT, virou motivo de uma disputa interna. O embate envolveu o prefeito de Maricá e vice-presidente nacional do partido, Washington Quaquá, o deputado federal Lindbergh Farias e o ex-deputado Marcelo Freixo. Quaquá, que havia utilizado o 1313 na eleição de 2022, defendeu que o número fosse utilizado agora por seu filho, Diego Quaquá. A decisão provocou reação de outros nomes da legenda.

A disputa ajuda a explicar por que determinados números são considerados valiosos dentro das siglas. O Tribunal Superior Eleitoral estabelece que o número de legenda identifica o partido e seus candidatos. Nas eleições proporcionais, como para deputado federal e deputado estadual, o número do candidato é formado a partir da identificação numérica do partido acrescida de outros algarismos.

Na prática, porém, alguns números acabam adquirindo um significado político próprio. Além de serem mais fáceis de memorizar, podem ficar associados a candidatos que já possuem reconhecimento dentro da legenda ou que tiveram desempenho eleitoral expressivo em disputas anteriores. Por isso, a escolha do número pode funcionar também como uma espécie de sinalização sobre quem ocupa determinado espaço na estratégia eleitoral do partido.

No Pará, uma mudança envolvendo a deputada federal Vivi Reis, do PSOL, chama atenção justamente por esse aspecto. A parlamentar, que em disputas anteriores aparece associada a outros números da faixa 50, passa a trabalhar eleitoralmente com o 5050, combinação que reproduz o número da legenda do PSOL.

A mudança ganha peso porque o 50 é a identidade numérica do PSOL e a repetição dos algarismos torna o número mais simples de memorizar. Nas eleições proporcionais, candidatos da legenda utilizam a sequência iniciada pelo número partidário, seguida dos demais algarismos que identificam cada candidatura.

A escolha também pode ser lida dentro da lógica de distribuição de espaço político nas campanhas. Embora não exista uma regra eleitoral que determine que o número mais próximo ou mais parecido com a legenda deva ser destinado ao candidato mais votado, números considerados mais fáceis ou simbólicos podem se tornar objeto de disputa entre os concorrentes de uma mesma sigla.

É justamente essa dimensão simbólica que aproxima o caso de Vivi Reis da disputa pelo 1313 no PT do Rio. No caso petista, o número chegou a ser descrito como um dos mais cobiçados entre os candidatos da legenda no estado, justamente pela associação direta com o partido e pela facilidade de memorização.

O número de urna é a coisa mais importante para o eleitor?

Para Lucas Comunica, estrategista de mobilização digital com oito anos de experiência em campanhas eleitorais, a importância do número de urna está diretamente relacionada à identidade que ele carrega. Segundo o especialista, a sequência numérica pode deixar de ser apenas uma forma de localizar o candidato na urna e passar a funcionar como um símbolo reconhecido pela militância e pelo eleitorado.

“A importância do número na estratégia se dá principalmente por um motivo, que é a questão da identidade. Quando o candidato tem algum tipo de pauta que pode ser relacionada ao número, isso pode ser utilizado. Mas, especialmente quando a gente fala em identidade, estamos falando também da identidade dos partidos políticos”, explica.

Lucas cita como exemplos o 13 do PT, o 22 do PL e o 50 do PSOL. Para ele, em determinadas legendas, o número ultrapassa a identificação partidária e passa a carregar outros significados políticos.

“O 13 não representa apenas o Partido dos Trabalhadores. Representa a figura do Lula, a figura da esquerda no Brasil. O 22, com o Bolsonaro, e agora na candidatura do Flávio, entre outras coisas”, afirma.

Apesar da importância estratégica do número, Lucas faz uma ressalva: concentrar a campanha apenas na divulgação da sequência que aparecerá na urna pode fazer com que as campanhas percam de vista o que considera essencial neste momento da disputa, a construção de uma conexão com o eleitor.

“Muitas vezes, dão muita importância para o número, sendo que o mais importante, no fim das contas, não é o número, é a conexão com o eleitor”, afirma.

Para o especialista, o início da campanha deve ser utilizado principalmente para construir uma identidade e uma narrativa capazes de aproximar o candidato do público. “Nesse início, o objetivo das campanhas deve ser criar uma linha narrativa e se conectar com o eleitor”, explica.

O especialista também chama atenção para um fenômeno recorrente nas eleições proporcionais: a procura pelo número do candidato aumenta justamente na reta final da campanha. Segundo Lucas, ferramentas como o Google Trends permite observar esse comportamento, com pesquisas relacionadas aos nomes dos candidatos e seus respectivos números.

“As pessoas primeiro escolhem em quem vão votar e depois tentam descobrir o número do candidato”, resume.

A lógica ajuda a explicar por que a escolha e a divulgação do número podem se transformar em uma preocupação estratégica das campanhas. Se o eleitor já decidiu o voto, mas ainda precisa descobrir qual sequência deverá digitar na urna, fazer com que o número esteja associado ao nome do candidato pode ser fundamental para evitar que a intenção de voto se perca no momento da votação.

Assim, mais do que uma sequência de algarismos digitada na urna, o número pode funcionar como uma marca eleitoral. Em partidos com forte identificação numérica, ocupar uma combinação emblemática pode representar uma tentativa de concentrar a associação entre a legenda e um determinado nome, especialmente quando o candidato já possui trajetória e reconhecimento dentro do eleitorado.

No caso do PT, o número de urna tornou-se o centro de uma disputa pública. No PSOL paraense, a adoção do número do partido por Vivi Reis coloca a parlamentar em uma posição de destaque na comunicação numérica da legenda e reforça a importância que a escolha do número pode assumir na construção de uma candidatura.

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