Meio Ambiente

Novo estudo mostra que conhecimento indígena é essencial para proteger ecossistemas e combater mudanças climáticas

Por Sarah Carvalho
17/06/2026 às 12:01 • 4 min

Foto divulgação

O conhecimento tradicional dos povos indígenas desempenha um papel decisivo na proteção dos ecossistemas e no enfrentamento das mudanças climáticas. É o que aponta um estudo internacional publicado na revista científica Humanities and Social Sciences Communications, que analisou práticas de 43 comunidades indígenas distribuídas por seis continentes.

Intitulada “Indigenous Peoples’ Knowledge Systems and Practices for Climate Survival”, a pesquisa mostra que os sistemas de governança, as tradições e a relação histórica dos povos indígenas com seus territórios contribuem diretamente para a conservação da biodiversidade, da água e de grandes estoques de carbono, fundamentais para reduzir o aquecimento global.

Segundo os pesquisadores, os territórios indígenas e comunitários armazenam mais de um terço do chamado carbono irrecuperável, aquele que, caso seja liberado na atmosfera, não poderá ser recuperado a tempo de evitar impactos climáticos irreversíveis. Além disso, estudos anteriores já demonstraram que cerca de 60% dos mamíferos terrestres possuem mais de 10% de sua distribuição em áreas indígenas.

A principal autora do estudo, Sushma Shrestha, diretora de Ciência Indígena da Conservação Internacional, afirma que os resultados demonstram que a conservação desses territórios está diretamente ligada à permanência das comunidades indígenas.

“Os territórios indígenas protegem o clima e a vida silvestre em uma escala alcançada em poucos lugares. O alto armazenamento de carbono e a biodiversidade presentes nesses territórios existem graças à presença contínua dos povos indígenas”, destacou.

Mudanças climáticas já são percebidas pelas comunidades

As entrevistas revelaram que 100% dos indígenas consultados afirmaram perceber mudanças no clima e nas condições meteorológicas de seus territórios. Secas prolongadas e eventos climáticos extremos foram os impactos mais citados.

O levantamento também aponta que:

  • 96% das comunidades mantêm áreas sagradas ou culturais protegidas, que também funcionam como refúgios para a fauna e florestas preservadas;
  • 61% relataram impactos causados por mineração, exploração madeireira, agricultura em larga escala e obras de infraestrutura.

Brasil está entre os exemplos de conservação

O estudo reúne práticas adotadas por diferentes povos indígenas ao redor do mundo para proteger os ecossistemas.

No Brasil, o povo Mamoadate preserva árvores frutíferas nativas e palmeiras que servem de alimento para diversas espécies da fauna amazônica.

Outros exemplos incluem comunidades Kichwa, no Equador, que restringem a caça de fêmeas de espécies como anta e onça-pintada; povos Zapotecas, no México, que mantêm brigadas comunitárias contra incêndios florestais; além de iniciativas na Indonésia, Quênia, Papua-Nova Guiné e Rússia voltadas à proteção de rios, florestas e áreas de reprodução da fauna.

Estudo alerta para ameaças aos territórios indígenas

Apesar da importância desses territórios para a conservação ambiental, a pesquisa aponta que eles enfrentam pressões cada vez maiores.

Entre 2018 e 2024, os territórios indígenas perderam cerca de 2 bilhões de toneladas métricas de carbono irrecuperável, em consequência da mineração, expansão agrícola, incêndios e outras atividades. O volume equivale às emissões anuais de aproximadamente 1,7 bilhão de automóveis movidos a gasolina.

Além disso, embora povos indígenas e comunidades tradicionais administrem aproximadamente metade das áreas naturais do planeta, apenas 19% desses territórios possuem reconhecimento legal de seus direitos territoriais.

Para Johnson Cerda, líder do trabalho da Conservação Internacional com povos indígenas e coautor da pesquisa, incorporar esse conhecimento às políticas públicas é essencial diante das crises climática e ambiental.

“O conhecimento indígena sustenta alguns dos esforços de conservação mais eficazes do mundo. Esperamos que governos e formuladores de políticas invistam nesse conhecimento e incorporem essas práticas em suas decisões”, afirmou.

Pesquisa reuniu especialistas indígenas de quatro continentes

O estudo foi desenvolvido em parceria com especialistas e comunidades indígenas da África, Ásia, Américas e Pacífico. Cinco integrantes da equipe de pesquisa da Conservação Internacional também se identificam como indígenas.

O trabalho recebeu apoio do Ministério da Economia e Finanças da França e do Fundo Francês para o Meio Ambiente Mundial (FFEM), dentro do projeto Our Future Forests – Vital Reserves.

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