Opinião

Imprensa independente: a democracia não pode ser refém de palanques

Em períodos eleitorais, ética, apuração, transparência e respeito ao contraditório tornam-se ainda mais necessários; na era digital, EPOL e TVC Pará mostram que credibilidade não depende apenas do tamanho da estrutura

Por Estado do Pará Online
05/08/2026 às 12:16 • 11 min
Capa sobre imprensa independente e democracia com as marcas do EPOL e da TVC Pará

POL e TVC Pará destacam a importância da ética, da credibilidade e do profissionalismo no jornalismo.

As eleições não colocam à prova apenas candidatos, partidos e instituições. Elas também testam a responsabilidade dos veículos de comunicação, a independência das redações e a capacidade dos jornalistas de separar informação, opinião, publicidade institucional e propaganda política.

Em períodos de intensa polarização, uma manchete pode influenciar percepções, uma informação omitida pode ser tão relevante quanto aquilo que foi publicado e uma cobertura desequilibrada pode interferir na formação da vontade popular. Por isso, a imprensa não deve funcionar como extensão de governos, grupos empresariais, partidos ou candidaturas. Sua primeira responsabilidade é com o cidadão.

O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros estabelece que o acesso à informação de interesse público é um direito fundamental e que o compromisso central do jornalista deve ser com a verdade dos fatos e a precisão do relato. Isso exige apuração, checagem, contextualização, diversidade de fontes, correção de erros e garantia do contraditório.

Ser imparcial, entretanto, não significa tratar fatos verdadeiros e informações falsas como se possuíssem o mesmo valor. Tampouco significa distribuir mecanicamente o mesmo número de linhas para todos os lados de uma controvérsia. Imparcialidade é método: aplicar critérios semelhantes a aliados e adversários, ouvir quem é acusado, separar fato de opinião e não esconder informações relevantes por conveniência política ou econômica.

A isenção absoluta pode ser um ideal difícil de alcançar, porque todo veículo faz escolhas editoriais. Já a independência, a honestidade intelectual e a transparência são deveres concretos. O público precisa saber quando está diante de uma reportagem, de um artigo opinativo, de um comunicado institucional ou de um conteúdo publicitário.

O histórico da imprensa e do poder no Pará

A relação entre imprensa, poder econômico e política faz parte da própria história da comunicação paraense. Durante décadas, os principais veículos do estado estiveram concentrados em grandes grupos empresariais de controle familiar, dotados de emissoras de televisão, jornais impressos, rádios – e recentemente – portais e estruturas de impulsionamento e distribuição de conteúdo.

Essa concentração permitiu importantes investimentos tecnológicos e profissionais, mas também criou questionamentos sobre a influência dos interesses de seus controladores na definição das agendas editoriais.

Pesquisas acadêmicas já analisaram a histórica disputa entre O Liberal e o Diário do Pará. Um estudo publicado pela Revista Século XXI examinou a relação dos dois jornais com a classe política paraense e apontou que os interesses das elites políticas e midiáticas podem interferir no conteúdo oferecido à população.

Outro trabalho, produzido por pesquisadoras da Universidade Federal do Pará, descreveu uma verdadeira “guerra discursiva” entre os principais jornais paraenses, envolvendo disputas simultaneamente empresariais, políticas e editoriais.

O Liberal surgiu, em 1946, vinculado a uma finalidade político-partidária. Décadas depois, o Diário do Pará apareceu, em 1982, no ambiente da redemocratização e da campanha que levou Jader Barbalho ao Governo do Estado. Ao longo dos anos, os dois grupos ocuparam posições frequentemente opostas nas disputas eleitorais paraenses, reproduzindo em suas páginas, programas e manchetes os conflitos entre forças políticas rivais.

Reconhecer esse histórico não significa desqualificar todo o trabalho realizado por esses veículos nem ignorar a contribuição de centenas de jornalistas competentes que passaram por suas redações. A origem familiar de uma empresa de comunicação também não constitui, por si só, uma falha ética. A questão fundamental é outra: até que ponto a redação possui autonomia para investigar, criticar e publicar informações que contrariem os interesses políticos, econômicos ou institucionais dos próprios controladores e anunciantes?

Publicidade pública é legítima quando distribuída com transparência, critérios técnicos e respeito ao interesse coletivo. O problema surge quando a comunicação institucional passa a ser utilizada como instrumento de recompensa, pressão ou alinhamento editorial. Nesse ambiente, o jornalismo corre o risco de deixar de fiscalizar o poder para participar dele.

A estrutura deixou de ser dona da audiência

A revolução digital rompeu parte dessa lógica. Durante muito tempo, somente famílias ricas ou grandes grupos econômicos podiam comprar rotativas, instalar torres, montar estúdios, manter emissoras e controlar redes de distribuição. Hoje, qualquer pessoa com um telefone celular pode criar um perfil, transmitir ao vivo e disputar a atenção do público com empresas que investiram milhões em estruturas físicas.

Essa democratização ampliou vozes, revelou acontecimentos ignorados pela mídia tradicional e permitiu que denúncias chegassem rapidamente à sociedade. Ao mesmo tempo, abriu espaço para desinformação, manipulações, conteúdos fora de contexto e perfis que confundem alcance com credibilidade.

Ter seguidores não transforma automaticamente alguém em jornalista. Um vídeo viral também não é, por si só, uma reportagem. O jornalismo profissional acrescenta ao fato bruto aquilo que as redes nem sempre oferecem: verificação, contexto, responsabilidade jurídica, consulta a documentos, proteção de fontes, direito de resposta e disposição para corrigir eventuais erros.

A tecnologia reduziu as barreiras de entrada, mas não eliminou a necessidade de profissionais. Ao contrário: quanto maior o volume de informação, mais importante se torna o trabalho de quem sabe selecionar, investigar e explicar.

Da mesma forma, uma sede imponente, equipamentos caros ou décadas de existência já não garantem liderança, qualidade ou confiança. O público aprendeu a comparar versões, questionar manchetes e abandonar veículos que não representam suas necessidades. No ambiente digital, credibilidade não se impõe por tradição. Ela precisa ser conquistada diariamente.

O crescimento do EPOL e a força do compartilhamento

O Estado do Pará Online, o EPOL, completa três anos de atividade em setembro de 2026. Em boa parte dessa trajetória, o portal ocupou, conforme os indicadores de audiência acompanhados pela empresa, a posição de terceiro portal de notícias mais acessado do Pará. Também se consolidou como um dos veículos paraenses de maior crescimento nas redes sociais.

Esse resultado não foi construído por meio de uma estrutura comparável à dos conglomerados tradicionais. Foi conquistado principalmente pela confiança, pela identificação e pelo compartilhamento espontâneo do público.

Cada vez que uma notícia é encaminhada a um grupo de WhatsApp, publicada em um story ou compartilhada por um leitor, existe uma demonstração de credibilidade. Não se compartilha apenas um link. Compartilha-se também a reputação de quem produziu aquela informação.

Por trás de cada publicação do EPOL existe uma equipe formada por jornalistas, publicitários, repórteres cinematográficos, editores, profissionais de redes sociais e estagiários. São pessoas que se dedicam diariamente à cobertura dos acontecimentos do Pará, à checagem dos fatos e à produção de conteúdos capazes de circular em diferentes plataformas.

Esse trabalho inclui ouvir os envolvidos, buscar documentos, contextualizar acusações, corrigir informações quando necessário e assegurar espaço para o contraditório. Também envolve preservar a separação entre a prestação de serviços comerciais e a cobertura editorial. Contratar publicidade ou produção técnica não pode significar comprar manchetes favoráveis, impedir perguntas ou garantir silêncio diante de fatos de interesse público.

A independência editorial não consiste em ser contra todos. Consiste em não pertencer a ninguém, apenas ao interesse público.

TVC Pará: qualidade além do tamanho da estrutura

O mesmo princípio orienta a TVC Pará, canal 9.1. Desde outubro de 2025, quando realizou sua primeira participação ao vivo como afiliada da TV A Crítica, a emissora vem conquistando espaço no cenário da televisão paraense.

Mesmo sendo a mais nova emissora local e não dispondo das mesmas verbas publicitárias ou da megaestrutura dos grupos tradicionais, a TVC Pará passou a se destacar pela qualidade de seu telejornalismo, pelo investimento em equipamentos e tecnologia e, principalmente, pelo empenho de seus profissionais.

TVC Pará e EPOL trabalham de maneira integrada e multiplataforma. Uma mesma pauta pode ser apresentada na televisão, aprofundada no portal, transformada em vídeos verticais, distribuída nas redes sociais e debatida diretamente com o público. A televisão não perdeu força: ganhou novas telas, novas linguagens e novas formas de interação.

Essa proximidade também exige disposição para ouvir. Por isso, os veículos mantêm como princípio não fechar comentários nas redes socias para evitar opiniões divergentes nem apagar críticas simplesmente porque são incômodas. A moderação continua necessária diante de ameaças, crimes, preconceito ou discurso de ódio, mas uma crítica legítima deve ser recebida como feedback, e não tratada como agressão.

Veículos que pedem transparência aos governos também precisam aceitar o escrutínio da própria audiência. Quem fiscaliza deve estar preparado para ser fiscalizado.

Eleições exigem responsabilidade ainda maior

Nas eleições de 2026, essa responsabilidade ganha também uma dimensão legal. A Resolução nº 23.610 do Tribunal Superior Eleitoral, atualizada para o processo eleitoral, proíbe que emissoras de rádio e televisão concedam tratamento privilegiado a candidaturas, partidos, federações ou coligações. Para o pleito deste ano, essas restrições à programação normal e ao noticiário passam a valer a partir de 6 de agosto.

A legislação não impede o jornalismo político, a realização de entrevistas, a análise crítica ou a investigação de candidatos. O que ela busca evitar é que concessões públicas de rádio e televisão sejam transformadas em instrumentos eleitorais de determinados grupos.

Comunicação política, comunicação institucional e jornalismo são atividades legítimas, mas possuem finalidades diferentes. A comunicação política procura construir apoio. A institucional divulga ações de governos, empresas e organizações. O jornalismo investiga, confronta versões, fiscaliza o poder e apresenta elementos para que o cidadão forme sua própria opinião.

Quando essas fronteiras desaparecem, a propaganda pode ser apresentada como notícia, a publicidade pode influenciar a pauta e a cobertura eleitoral pode virar palanque disfarçado.

A imprensa não deve escolher em quem o cidadão votará. Deve oferecer informações suficientes para que ele possa fazer essa escolha com liberdade e consciência.

A Unesco destaca que o jornalismo independente contribui para reduzir a corrupção, melhorar os serviços públicos e aumentar a capacidade da sociedade de enfrentar a desinformação. Por isso, uma imprensa plural, profissional e economicamente sustentável não é apenas um setor empresarial. É parte da infraestrutura democrática.

Credibilidade é patrimônio e compromisso

O diferencial do EPOL e da TVC Pará não deve ser apresentado como uma alegação de perfeição. Todo veículo pode errar, e toda redação precisa aperfeiçoar seus procedimentos. O verdadeiro compromisso ético aparece na disposição para corrigir, ouvir, explicar decisões e prestar contas ao público.

Também não se trata de atacar concorrentes. A pluralidade de veículos é saudável e necessária. Quanto maior a diversidade de fontes, mais difícil será para qualquer governo, família, partido ou grupo econômico controlar sozinho o debate público.

O que precisa ser superado é o modelo no qual o jornalismo se confunde com interesses particulares e a notícia muda de tratamento conforme o personagem envolvido. O mesmo rigor empregado contra um adversário político deve ser aplicado a um aliado. O mesmo direito de resposta concedido a uma autoridade deve alcançar o cidadão comum. A mesma independência reivindicada diante do Estado deve existir diante dos anunciantes.

No fim, o equipamento mais importante de uma redação não é a câmera, o estúdio ou o computador. É a confiança do público.

O EPOL e a TVC Pará representam uma comunicação paraense que nasceu conectada, multiplataforma e próxima das pessoas. Uma comunicação que entende a audiência não como massa passiva, mas como parte ativa do processo de informação.

Em uma democracia, a imprensa não existe para proteger os poderosos do julgamento da sociedade. Existe para oferecer à sociedade os fatos necessários para julgar o poder. Quando cumpre essa missão com ética, independência e responsabilidade, o jornalismo deixa de ser apenas uma atividade profissional e se transforma em instrumento de cidadania.

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