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Política

Hana monta núcleo próprio e sinaliza que não pretende governar à sombra de Helder

Estrutura jurídica e financeira autônoma, participação da família e disputa pela vaga de vice indicam que as mudanças realizadas até agora podem ser pequenas diante da reforma projetada para um eventual novo mandato

Por Estado do Pará Online
19/07/2026 às 12:49 • 8 min
Helder Barbalho e Hana Ghassan lado a lado em montagem

Hana Ghassan começa a estruturar um núcleo próprio enquanto redefine sua relação política com Helder Barbalho. Crédito: Montagem/Estado do Pará Online.

A movimentação da governadora Hana Ghassan (MDB) para estruturar sua campanha ao Governo do Pará começa a revelar uma estratégia que vai além da disputa eleitoral. Informações que circulam nos bastidores apontam para a formação de um núcleo jurídico e financeiro próprio, separado da estrutura política diretamente ligada ao ex-governador Helder Barbalho.

A organização desse grupo envolveria pessoas da confiança pessoal de Hana, entre elas o marido e um filho. Embora a composição ainda não tenha sido anunciada oficialmente, o movimento é interpretado como uma tentativa de garantir maior autonomia na tomada de decisões estratégicas, administrativas e financeiras.

É natural que uma candidatura possua coordenação jurídica, contábil e financeira própria, especialmente diante das exigências da legislação eleitoral. O que chama atenção, entretanto, é a escolha de construir esse núcleo fora do círculo tradicionalmente associado a Helder.

Na prática, Hana começa a separar as canetas.

Mudanças podem estar apenas começando

Os primeiros 100 dias de Hana à frente do Governo do Pará foram marcados por alterações no primeiro escalão, mas grande parte delas ocorreu em razão da saída de secretários e dirigentes que pretendem disputar as eleições de 2026.

Cerca de 20 integrantes do governo deixaram suas funções no início de abril, enquanto 11 secretarias passaram a contar com novos titulares ou gestores interinos. Apesar disso, áreas estratégicas permaneceram sob o comando de nomes herdados da gestão anterior, indicando continuidade administrativa e política. Levantamento publicado pelo EPOL mostrou que, até agora, não houve uma reforma ampla no núcleo central do governo.

Nos bastidores, porém, cresce a avaliação de que essas mudanças foram apenas ajustes iniciais. Caso seja eleita para um mandato próprio, Hana poderá promover uma reorganização muito mais profunda, incluindo secretarias, autarquias, empresas públicas e setores responsáveis pela elaboração e execução do orçamento estadual, inclusive e sobretudo na área da comunicação e marketing, que segundo fontes confidenciam, há tempos não agradam o perfil exigente de Hana, que chegou a dispensar a SECOM (Secretaria de Comunicação) e contratou equipe própria para administrar suas redes sociais.

Essa possibilidade já começa a provocar preocupação entre empreiteiros, fornecedores e prestadores de serviços que conquistaram espaço e interlocução durante os dois mandatos de Helder Barbalho.

A apreensão não está necessariamente relacionada à interrupção de contratos vigentes, que devem obedecer às regras legais e administrativas. O receio envolve a mudança dos interlocutores, dos critérios de prioridade e, principalmente, das mãos que passarão a segurar as canetas do Palácio dos Despachos.

Em governos fortemente centralizados, a troca de comando costuma alterar muito mais do que os nomes nas portas dos gabinetes. Muda quem é ouvido, quem participa das decisões e quem deixa de ter acesso privilegiado ao centro do poder.

A disputa pela vice virou teste de autonomia

A escolha do candidato a vice-governador será uma das decisões mais importantes de Hana antes do início oficial da campanha. Será também um dos primeiros testes públicos de sua autonomia.

O setor empresarial, envolvendo representantes do agronegócio, da indústria e de outras atividades econômicas, já teria manifestado o interesse de ocupar o espaço. Até agora, nenhum nome foi apresentado oficialmente, embora algumas possibilidades comecem a circular em blogs e conversas políticas.

A reivindicação empresarial parte do argumento de que o setor produtivo deveria participar diretamente da construção das políticas econômicas do próximo governo. A presença de um representante na chapa também serviria como sinal de segurança para investidores e grupos que possuem interesses em projetos de infraestrutura, mineração, logística, indústria e produção agropecuária.

O segmento religioso também acompanha a movimentação. Lideranças ligadas à Assembleia de Deus esperariam ser consultadas sobre a escolha do vice, especialmente diante do peso eleitoral alcançado pelas igrejas evangélicas no Pará.

Uma eventual indicação ligada ao meio evangélico poderia ampliar a presença de Hana entre eleitores conservadores e reduzir a vantagem da oposição nesse segmento, segundo apontam as pesquisas. Ao mesmo tempo, criaria dificuldades na relação com partidos e movimentos progressistas que também integram a base governista.

PT mantém Dirceu Ten Caten na mesa

Entre os partidos, a reivindicação mais objetiva veio do PT. O diretório estadual escolheu o deputado Dirceu Ten Caten para disputar a vaga de vice na chapa de Hana. Segundo o próprio parlamentar, a indicação foi aprovada por 70 votos a 13 dentro da direção petista, em dezembro do ano passado.

A aliança nacional entre MDB e PT e a relação de Helder Barbalho com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fazem com que a indicação seja considerada seriamente. Dirceu também possui atuação no sudeste paraense, região estratégica tanto eleitoralmente quanto economicamente.

Aceitar o nome do PT poderia assegurar a presença de Lula na campanha estadual e reforçar o alinhamento com o governo federal. Mas significaria entregar a principal posição disponível na chapa a um único aliado, deixando empresários, religiosos e outros partidos sem o espaço que reivindicam.

É justamente por isso que a escolha do vice se transformou em uma mesa de negociações muito maior. Os grupos interessados não discutem apenas um nome. Querem definir participação em um eventual governo, espaços administrativos, compromissos programáticos, responsabilidades eleitorais e regras transparentes de financiamento da campanha, sempre dentro dos limites estabelecidos pela legislação.

Nesse tabuleiro, cada apoio tem seu preço político. E todos querem saber antecipadamente qual será o tamanho de sua cadeira depois da eleição.

Continuidade não significa submissão

Desde que Helder Barbalho apresentou Hana como sua sucessora, adversários passaram a classificá-la como uma candidata fabricada para permitir que o ex-governador continuasse controlando o Estado nos bastidores.

A expressão “marionete de Helder” tornou-se parte da narrativa da oposição. A comparação, entretanto, pode ser precipitada.

Lula também escolheu Dilma Rousseff para sucedê-lo em 2010. Ela chegou à Presidência impulsionada pelo capital político e pela popularidade de seu antecessor, mas, depois de empossada, construiu um estilo próprio, mudou interlocutores e tomou decisões que nem sempre agradaram ao grupo que a levou ao Palácio do Planalto.

O exemplo mostra que ser escolhido como sucessor não significa permanecer politicamente subordinado para sempre. O poder possui dinâmica própria. Quando alguém passa a controlar o orçamento, as nomeações e a máquina administrativa, novas relações começam a ser construídas.

Hana ainda depende da estrutura política montada por Helder, do apoio dos prefeitos, da força do MDB e da influência eleitoral do ex-governador. Romper com esse grupo seria eleitoralmente irracional e, até aqui, não existem sinais de uma ruptura.

Mas autonomia não precisa significar rompimento.

Ao montar um núcleo próprio, fortalecer interlocutores pessoais e reservar para si a decisão sobre a vice, Hana sinaliza que pretende preservar a herança administrativa de Helder sem necessariamente aceitar tutela sobre todas as escolhas futuras.

Afinal, Hana será uma marionete?

Os sinais disponíveis até agora indicam que essa definição é simplista. Hana pode representar continuidade política, mas começa a demonstrar que deseja comandar pessoalmente a campanha e preparar uma equipe mais identificada com seu próprio projeto.

A resposta definitiva, contudo, não será dada por discursos. Ela aparecerá na escolha do vice, na composição do núcleo de campanha, na reforma do secretariado e na condução dos contratos, investimentos e prioridades orçamentárias.

Sobretudo, será medida pela capacidade de Hana dizer “não” quando seus interesses políticos divergirem dos interesses de Helder, que chegou de viagem e encontrou um “clima diferente no ar”.

Até agora, Hana recebeu a faixa e herdou boa parte da estrutura. A questão central das eleições de outubro é saber se, conquistando um mandato próprio, herdará também o comando – ou se decidirá exercê-lo de fato. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, e um eventual segundo turno ocorrerá em 25 de outubro. As datas constam do calendário oficial do TSE e até lá, muita água deve passar por baixo da ponte eleitoral que se aproxima.

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