Cultura

Funk resgata músicas da infância dos adultos e apresenta clássicos a uma nova geração

Coral das Quebradas transforma canções que marcaram os anos 1990 e 2000 em versões de funk e cria conexão musical entre pais e filhos

Por Mayra Peniche
05/09/2026 às 14:45 • 5 min

Eles tinham uma escadaria, palmas e muito talento. O Coral das Quebradas, projeto que reúne MCs para reinterpretar sucessos em coro e com percussão feita com as próprias mãos. No repertório do grupo estão músicas que embalaram a infância de uma geração, mas em uma nova batida. O funk vem transformando canções conhecidas por quem cresceu nos anos 1990 e 2000 em versões que chegam às crianças de hoje, criando uma ponte entre memórias de pais e referências musicais dos filhos.

A proposta ganhou repercussão nas redes sociais ao transformar músicas que fazem parte do imaginário infantil brasileiro em versões de funk. Entre elas está “Lavar as Mãos”, de Arnaldo Antunes, conhecida por ter feito parte do universo de Castelo Rá-Tim-Bum, programa exibido pela TV Cultura a partir dos anos 1990.

Na nova versão, a música ganha as vozes dos MCs e a batida característica do grupo. Publicada nas redes sociais de MC DR, a gravação ultrapassou 1 milhão de visualizações no Instagram e chamou a atenção de outros nomes do funk, como MC Hariel.

O projeto também revisitou “Banho é Bom”, outra canção associada ao universo de Castelo Rá-Tim-Bum. O que antes era cantado por crianças em frente à televisão agora aparece em vídeos de MCs e circula pelas redes sociais, alcançando um público que não necessariamente teve contato com as versões originais.

Uma nova porta de entrada para músicas antigas

A escolha das músicas é parte importante do fenômeno. Para os adultos, ouvir essas canções novamente desperta lembranças da infância. Para as crianças, o primeiro contato pode acontecer por meio do funk, gênero que faz parte da cultura musical contemporânea.

É nesse encontro que o projeto cria uma conexão entre gerações. Pais reconhecem músicas que fizeram parte de suas próprias histórias, enquanto os filhos conhecem os mesmos repertórios em uma linguagem diferente daquela em que foram originalmente apresentados.

O movimento mostra também como o funk pode funcionar como uma ferramenta de releitura cultural. Em vez de apenas criar novos sucessos, o gênero incorpora músicas já conhecidas, modifica os arranjos e apresenta esse repertório a novos públicos.

Do improviso ao coral

Idealizado por MC DR, o Coral das Quebradas nasceu de uma dinâmica conhecida no funk: as chamadas medleys na palma. Nelas, os MCs cantam enquanto os demais participantes acompanham com palmas e percussão corporal.

As primeiras gravações foram feitas na região de Cangaíba, na Zona Leste de São Paulo, reunindo nomes como MC Zignani, Oracioh MC e MC Kauan PV, conhecidos como “Os Mlks da Medley”. Com o crescimento da iniciativa, outros artistas passaram a participar das apresentações.

A ideia surgiu depois que DR começou a realizar vídeos com artistas de sua empresa utilizando o formato. A dinâmica ganhou identidade própria e passou a ser apresentada como um coral formado por MCs.

No início, o repertório era composto principalmente por músicas dos próprios artistas. Depois, o projeto começou a apostar nas releituras de canções conhecidas por diferentes gerações.

Além das músicas infantis, o grupo também revisitou sucessos como “Fico Assim Sem Você”, de Claudinho e Buchecha.

O passado ganha a linguagem do presente

A força do Coral das Quebradas está também na maneira como essas músicas são apresentadas. Os vídeos unem uma estética simples, baseada na participação coletiva, com um repertório capaz de provocar identificação imediata.

A fórmula ganhou força nas redes sociais e fez com que as apresentações fossem compartilhadas por páginas de música e personalidades. Um dos vídeos chegou a ser reproduzido pelo piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton.

Quando os filhos descobrem a infância dos pais

A tendência revela um movimento que vai além da nostalgia. Ao transformar músicas antigas em funk, os artistas fazem com que um repertório de outras décadas volte a circular entre crianças e adolescentes.

O resultado é uma espécie de troca musical entre pais e filhos. Os adultos reconhecem nas batidas atuais músicas que fizeram parte da própria infância. As crianças, por sua vez, descobrem essas canções por meio de artistas e sons que fazem parte do seu cotidiano.

Nesse processo, o funk não apenas resgata músicas do passado. Ele dá a elas uma nova porta de entrada para uma geração que não viveu o período em que foram lançadas.

Entre palmas, vozes e batidas, músicas que pareciam pertencer a uma única geração passam a circular novamente. Desta vez, com os filhos cantando aquilo que um dia fez parte da infância dos pais.

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