Brasil

Empresas contratadas pelo Estado deverão reservar vagas para egressos do sistema prisional no Piauí

Por Estado do Pará Online
07/07/2026 às 13:37 • 5 min

O Estado do Piauí deu um novo passo na implementação de políticas públicas voltadas à reinserção social de pessoas que passaram pelo sistema prisional. O governador Rafael Fonteles (PT) sancionou uma lei que obriga empresas contratadas pelo Poder Público estadual a reservar parte das vagas de trabalho para egressos do sistema prisional e pessoas que cumprem pena em regime aberto ou semiaberto.

Foto do governador do Piauí, Rafael Fonteles.
Governador do Piauí, Rafael Fonteles adota lei que oferece vaga de trabalho a condenados da justiça. Foto: Governo do Paiuí/Divulgação

A medida tem gerado amplo debate jurídico, político e social. Enquanto críticos questionam a obrigatoriedade imposta às empresas contratadas pelo Estado, especialistas em políticas criminais destacam que o trabalho formal é reconhecido internacionalmente como um dos instrumentos mais eficazes para reduzir a reincidência criminal e fortalecer a segurança pública.

A legislação determina que contratos públicos que empreguem 25 trabalhadores ou mais reservem 5% das vagas para esse público. Nos contratos entre seis e 24 empregados, deverá existir pelo menos uma vaga destinada aos beneficiários. Para contratos com até cinco trabalhadores, a contratação permanece facultativa.

Os candidatos não serão escolhidos diretamente pelas empresas. O encaminhamento ficará sob responsabilidade dos Escritórios Sociais vinculados à Secretaria de Justiça do Piauí ou, onde eles não existirem, pelas equipes psicossociais das Varas de Execução Penal.

A norma também prevê critérios de inclusão voltados a grupos historicamente vulneráveis, como mulheres, população negra e pessoas LGBTQIA+, dentro das políticas afirmativas adotadas pelo Estado.

Trabalho como ferramenta de segurança pública

Embora a discussão muitas vezes seja conduzida sob a ótica dos direitos humanos, especialistas ressaltam que políticas de empregabilidade para egressos possuem impacto direto na redução da criminalidade.

Diversos estudos nacionais e internacionais apontam que pessoas que conseguem emprego formal após deixarem o sistema prisional apresentam menor probabilidade de retornar ao crime.

O próprio Plano Pena Justa, coordenado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e pelo Ministério da Justiça, estabelece como prioridade nacional ampliar oportunidades de educação, qualificação profissional e inserção no mercado de trabalho para pessoas privadas de liberdade e egressos. O plano surgiu após determinação do Supremo Tribunal Federal no julgamento da ADPF 347, que reconheceu o chamado “estado de coisas inconstitucional” do sistema prisional brasileiro.

Segundo o CNJ, o fortalecimento da reintegração social também faz parte da estratégia nacional de enfrentamento ao crime organizado, reduzindo o recrutamento de pessoas por facções criminosas após o cumprimento da pena.

Um sistema prisional em crise

O debate ocorre em um momento em que o Brasil enfrenta um dos maiores desafios de sua história penitenciária.

O país possui a terceira maior população prisional do mundo, com cerca de 670 mil pessoas privadas de liberdade, segundo dados apresentados pelo CNJ durante o lançamento do Plano Pena Justa. Mais da metade dos presos não concluiu o ensino fundamental e aproximadamente 70% são pessoas negras.

Além disso, diagnóstico nacional divulgado pelo CNJ mostrou que 66,7% das unidades prisionais brasileiras operam acima da capacidade, enquanto cerca de um quarto enfrenta superlotação considerada crítica.

Nesse cenário, especialistas defendem que apenas ampliar vagas em presídios não resolve o problema estrutural, sendo necessário investir também em políticas que diminuam a reincidência criminal.

Experiências internacionais

A estratégia adotada pelo Piauí segue uma tendência observada em diversos países.

Na Noruega, referência mundial em políticas penitenciárias, programas de qualificação profissional e reinserção social fazem parte da execução da pena desde o primeiro dia de encarceramento.

Na Alemanha, empresas privadas mantêm parcerias permanentes com o sistema prisional para facilitar a contratação de egressos.

Nos Estados Unidos, diversos estados oferecem incentivos fiscais a empresas que empregam ex-detentos por meio de programas federais de reintegração.

No Canadá, políticas semelhantes são acompanhadas por assistência psicossocial e capacitação profissional, reduzindo significativamente os índices de reincidência em determinados grupos.

Embora os modelos variem, a lógica é semelhante: quanto maior a integração ao mercado formal de trabalho, menores tendem a ser os riscos de retorno à criminalidade.

Debate deve continuar

A lei sancionada no Piauí ainda deverá ser analisada sob diferentes perspectivas jurídicas e econômicas, especialmente quanto aos impactos para empresas prestadoras de serviços públicos.

Por outro lado, a iniciativa também reforça uma mudança de paradigma nas políticas penais brasileiras, que passam a tratar a reinserção social como componente da política de segurança pública, e não apenas como ação assistencial.

A eficácia da medida dependerá da capacidade do Estado de oferecer qualificação profissional, acompanhamento psicossocial, fiscalização da política e oportunidades reais de contratação, permitindo que a inclusão produtiva se converta em redução da reincidência e em benefícios para toda a sociedade.

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