Política

Crise no PL: vereador Mayky Vilaça divulga resposta e acusa Zezinho de “armação”

Após denúncia do vereador Zezinho Lima sobre suposto retorno de até 30% de recursos destinados a municípios; Éder Mauro e Mayky Vilaça negam irregularidades e acusam vereador e presidente da Câmara de financiar denúncia falsa

Por Estado do Pará Online
23/07/2026 às 23:40 • 11 min
Éder Mauro, Zezinho Lima e Mayky Vilaça apresentam versões divergentes sobre denúncias envolvendo emendas parlamentares da saúde.

Éder Mauro, Zezinho Lima e Mayky Vilaça apresentam versões divergentes sobre denúncias envolvendo emendas parlamentares da saúde. Foto: reprodução/redes sociais.

A crise entre integrantes do Partido Liberal no Pará deixou de ser apenas uma disputa política travada na Câmara Municipal de Belém e nas redes sociais. Acusações envolvendo um suposto desvio de emendas parlamentares destinadas à saúde, transferências bancárias, possíveis pagamentos por informações e alegadas ameaças foram encaminhadas à Polícia Federal, ao Ministério Público Federal e à Procuradoria-Geral da República.

De um lado, o vereador Zezinho Lima (PL) acusa o deputado federal Delegado Éder Mauro (PL), o vereador Mayky Vilaça (PL) e outras pessoas ligadas ao grupo político de participarem de um suposto esquema de cobrança de percentuais sobre emendas federais enviadas a municípios paraenses.

Do outro, Éder Mauro e Mayky Vilaça negam as irregularidades e afirmam que Zezinho Lima, com a participação do presidente da Câmara de Belém, John Wayne (MDB), teria repassado R$ 20 mil a um ex-assessor identificado como Lucas para que ele produzisse uma denúncia falsa contra o deputado e seus aliados.

Até o momento, nenhuma dessas versões foi comprovada por investigação concluída ou decisão judicial. A gravidade das acusações, porém, exige uma apuração independente, técnica e abrangente, distante da disputa eleitoral e das conveniências partidárias.

Mayky Vilaça divulga resposta e acusa Zezinho de “armação”

Em um novo vídeo enviado ao Estado do Pará Online e que foi publicado em suas redes sociais, Mayky Vilaça nega qualquer envolvimento com corrupção e acusa Zezinho Lima de ter se unido a adversários políticos para atingir sua imagem e a de Éder Mauro.

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Mayky afirma que Lucas integrou seu grupo de trabalho, mas teria sido afastado após se envolver com dívidas e jogos de azar. O vereador exibe imagens nas quais o ex-assessor aparece utilizando uma plataforma conhecida como “Jogo do Tigrinho”.

O parlamentar também apresenta telas atribuídas a aplicativos bancários, uma delas com saldo de R$ 234.153,98 e outra com R$ 1.264.060. As imagens, isoladamente, não permitem confirmar a titularidade das contas, a origem dos valores, as datas das movimentações ou a relação do dinheiro com emendas parlamentares.

Segundo Mayky, os extratos e comprovantes bancários já teriam sido encaminhados ao Ministério Público Federal por Éder Mauro. Ele sustenta que o pagamento de R$ 20 mil teria sido oferecido para que Lucas gravasse um vídeo com acusações falsas contra o deputado e seu grupo.

Mayky também desafia Zezinho a abrir suas contas bancárias e afirma que apresentará posteriormente material que, segundo ele, mostraria uma tentativa do colega de partido de corrompê-lo e convencê-lo a participar de um suposto “jogo político”. Essa nova acusação também não veio acompanhada, no vídeo divulgado, de documentos que permitam uma verificação independente.

O vereador ainda retomou o confronto ocorrido na abertura dos trabalhos legislativos de 2026 e acusou Zezinho de ter se recusado a apoiar um pedido de Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a saúde de Belém. A existência, a tramitação e as assinaturas desse requerimento precisam ser esclarecidas oficialmente pela Câmara Municipal.

R$ 20 mil: transferência confirmada, finalidade contestada

A existência das transferências que somam R$ 20 mil não é negada por Zezinho Lima. A divergência está na finalidade do pagamento.

Éder Mauro afirmou ter apresentado comprovantes de um Pix de R$ 10 mil atribuído a John Wayne e de outros R$ 10 mil divididos entre Zezinho e uma mulher identificada como irmã do vereador. Para o deputado e Mayky, o dinheiro teria sido usado para financiar a gravação de uma denúncia falsa.

Em entrevista ao PoderCast, da TVC Pará, Zezinho confirmou que ele, sua irmã e John Wayne transferiram os valores. Negou, entretanto, a compra de informações.

Assista:

O vereador disse que o dinheiro teria sido repassado para ajudar Lucas, que estaria endividado, emocionalmente fragilizado e com medo de sofrer violência. Zezinho argumentou que uma pessoa que supostamente havia movimentado mais de R$ 1 milhão não produziria uma denúncia falsa em troca de R$ 20 mil.

Cabe à investigação verificar o contexto das transferências, as conversas mantidas antes e depois dos pagamentos, a eventual existência de contrapartidas e a autenticidade de todos os documentos apresentados.

O que Zezinho Lima denunciou

Zezinho afirma que Lucas, apontado como ex-assessor ligado ao gabinete de Mayky Vilaça, teria movimentado valores incompatíveis com sua renda. Segundo o vereador, empresas contratadas por prefeituras contempladas com emendas da saúde fariam transferências para contas de pessoas ligadas ao grupo denunciado.

O percentual supostamente devolvido variaria entre 20% e 30% do valor das emendas. Lucas teria funcionado, de acordo com a acusação, como intermediário das movimentações.

Zezinho também alega que o ex-assessor teria perdido aproximadamente R$ 1,8 milhão em apostas on-line e, depois disso, sido ameaçado, agredido e obrigado a entregar bens para compensar os recursos desaparecidos. Éder Mauro e Mayky contestam essa narrativa e atribuem o desaparecimento do dinheiro às dívidas particulares de Lucas.

A notícia-crime apresentada em 22 de julho pede a apuração, em tese, de crimes como peculato, concussão, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, associação criminosa e coação no curso do processo.

Segundo informações publicadas pelo Diário do Pará, a Delegacia de Repressão à Corrupção e Crimes Financeiros recebeu a notícia-crime às 18h02 do dia 22, acompanhada por nove mídias audiovisuais e 16 imagens, vinculadas ao procedimento RDF 2026.0084013.

O recebimento do material não confirma as acusações e não significa, por si só, que um inquérito policial tenha sido instaurado.

O Ministério Público Federal informou que representações dessa natureza passam inicialmente por uma checagem de competência e pela verificação da existência de procedimentos relacionados. Somente depois ocorre a análise jurídica para definição das medidas cabíveis.

Crise começou antes das denúncias

O confronto atual é resultado de um desgaste político que se tornou público em 25 de fevereiro de 2026, durante a abertura dos trabalhos legislativos da Câmara de Belém.

Na ocasião, Mayky Vilaça afirmou que teve sua fala retirada da tribuna e substituída pelo pronunciamento de Zezinho Lima. Mayky acusou o colega de manter uma postura complacente com o prefeito Igor Normando (MDB) e o classificou como “vendido” e “falso de direita”.

Zezinho respondeu que o conflito teria sido motivado por “dor de cotovelo”. Segundo ele, enquanto Mayky não havia conseguido recursos para Belém por meio de Éder Mauro, seu gabinete teria articulado R$ 14 milhões em emendas do deputado federal Delegado Caveira (PL) para a saúde da capital.

O episódio colocou em lados opostos dois vereadores que haviam iniciado o mandato na mesma bancada e com discursos alinhados ao bolsonarismo. A disputa passou a envolver a relação de Zezinho com a administração municipal, sua pretensão de disputar uma vaga na Assembleia Legislativa e a influência de Éder Mauro sobre as candidaturas do PL em 2026.

Municípios citados precisam esclarecer repasses

Em entrevistas e reportagens sobre a denúncia, os municípios de Bujaru e São Miguel do Guamá foram mencionados como exemplos de localidades que teriam recebido emendas destinadas à saúde. Entretanto, o conteúdo público da notícia-crime, conforme noticiado, não apresenta a identificação completa das emendas, dos contratos, das empresas executoras ou dos prefeitos que teriam participado das supostas devoluções.

Esse ponto é essencial. O simples recebimento de uma emenda parlamentar não caracteriza irregularidade, e a menção a um município não permite responsabilizar automaticamente seus gestores.

Bujaru é administrado por Miguel Júnior, do MDB, conforme a Prefeitura de Bujaru. São Miguel do Guamá é governado por Eduardo Pio X, também do MDB.

Até o fechamento desta reportagem, não foram localizados elementos públicos suficientes para atribuir a qualquer um dos dois prefeitos participação no suposto esquema. Ambos, entretanto, assim como as secretarias municipais de Saúde, precisam esclarecer:

  • Quais emendas de autoria de Éder Mauro foram recebidas;
  • Os valores, anos e objetos de cada transferência;
  • Quais empresas foram contratadas para executar os serviços;
  • Se houve contato de intermediários antes ou depois da liberação dos recursos;
  • Se algum agente solicitou devolução, comissão ou pagamento de percentual;
  • Quais serviços foram efetivamente entregues à população.

As prefeituras devem disponibilizar os processos administrativos completos, incluindo empenhos, licitações, contratos, notas fiscais, medições, ordens bancárias e prestações de contas. Transparência, neste caso, protege tanto o dinheiro público quanto gestores que não tenham qualquer envolvimento com irregularidades.

Autoridades precisam investigar as duas versões

A apuração não pode se limitar às acusações contra Éder Mauro e Mayky Vilaça. Também precisa alcançar a versão apresentada pelos dois contra Zezinho Lima, John Wayne e eventuais participantes da produção do vídeo atribuído a Lucas.

A Polícia Federal deve verificar a autenticidade dos extratos, comprovantes de Pix, conversas, gravações e arquivos digitais. Também precisa reconstruir o caminho das emendas: da indicação parlamentar até a transferência ao fundo municipal, a contratação das empresas e o eventual retorno de valores para contas particulares.

A eventual quebra de sigilos bancário e telemático dependerá de fundamentação e autorização judicial. Caso seja deferida, deverá alcançar todos os envolvidos indicados pelos elementos da investigação, sem seletividade política.

Ao Ministério Público Federal e à Procuradoria-Geral da República cabe acompanhar o destino da representação, informar se existe procedimento instaurado e avaliar a necessidade de medidas investigativas.

A Controladoria-Geral da União e o Tribunal de Contas da União devem examinar a execução das emendas federais. O Tribunal de Contas dos Municípios do Pará e o Ministério Público estadual precisam verificar contratos, licitações e pagamentos realizados pelas administrações municipais.

A Câmara de Belém, por sua vez, deve esclarecer a situação funcional de Lucas, divulgar os registros de sua nomeação e exoneração e informar oficialmente se o Conselho de Ética foi acionado contra Mayky Vilaça. Qualquer procedimento precisa assegurar contraditório, ampla defesa e publicidade.

PL e MDB também devem prestar esclarecimentos

O Diretório Estadual do PL, presidido pelo deputado federal Joaquim Passarinho, informou ter iniciado uma apuração interna. O partido precisa divulgar a abertura formal do procedimento, os responsáveis pela análise, as garantias de defesa e, ao final, uma decisão fundamentada.

Uma comissão partidária, contudo, não substitui a Polícia Federal, o Ministério Público ou os tribunais de contas.

O MDB também deve cobrar esclarecimentos de John Wayne e dos gestores municipais filiados à legenda que administram localidades mencionadas nas acusações. O pagamento de R$ 10 mil atribuído ao presidente da Câmara precisa ser explicado de forma documental, ainda que ele sustente ter realizado apenas uma ajuda financeira.

Saúde pública não pode virar arma eleitoral

As acusações surgem em um momento no qual Éder Mauro articula uma candidatura ao Senado, enquanto Mayky Vilaça e Zezinho Lima aparecem como possíveis candidatos à Assembleia Legislativa. O contexto eleitoral pode explicar o acirramento da disputa, mas não reduz a obrigação de investigar.

Recursos destinados à saúde não pertencem ao parlamentar que apresenta a emenda, ao prefeito que a recebe, ao partido político ou à empresa contratada. Pertencem à população que depende de medicamentos, exames, atendimento hospitalar e unidades de saúde funcionando.

Se houve cobrança de percentuais, desvio, lavagem de dinheiro, ameaças ou coação, os responsáveis precisam ser identificados e punidos. Se as denúncias foram fabricadas mediante pagamento para prejudicar adversários políticos, essa conduta também deve ser esclarecida e responsabilizada.

O que não pode ocorrer é a transformação de acusações tão graves em uma guerra de vídeos, insultos e ameaças, sem uma resposta objetiva das instituições.

O EPOL defende a investigação integral das duas versões, a divulgação dos documentos públicos relacionados às emendas e o direito de manifestação de todas as pessoas citadas. Até que as autoridades concluam a apuração, deve prevalecer a presunção de inocência, sem que isso seja usado como pretexto para omissão, silêncio ou falta de transparência.

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