Cotidiano

“Cheiro de macho”: homens estão parando de tomar banho para tentar conquistar mulheres

Chamado de “pheromone-maxxing”, movimento viral nas redes sociais incentiva homens a abandonar banho, desodorante e até roupas limpas antes de encontros; ciência não comprova que a estratégia aumente a atração

Por Mayra Peniche
06/09/2026 às 10:56 • 5 min

Esqueça o perfume, o desodorante e, em alguns casos, até o banho antes do encontro. Para alguns homens que aderiram a uma nova tendência das redes sociais, o caminho para se tornar mais atraente seria justamente preservar o máximo possível do cheiro natural do próprio corpo.

A prática ganhou o nome de “pheromone-maxxing” e parte da ideia de que deixar de tomar banho faria os supostos feromônios masculinos ficarem mais perceptíveis e, com isso, aumentaria o interesse de possíveis parceiras.

A tendência ganhou espaço principalmente no TikTok e passou a circular entre homens jovens ligados à chamada “machosfera” e ao movimento “looksmaxxing”, que reúne estratégias voltadas à melhoria da aparência e da atratividade. Desta vez, porém, a lógica é diferente: em vez de investir em perfume, cuidados pessoais e roupas bem escolhidas, a proposta é fazer exatamente o contrário.

Na prática, alguns conteúdos incentivam os homens a reduzir ou abandonar o banho, deixar de usar desodorante e perfume e até repetir roupas usadas. A justificativa é de que os produtos de higiene poderiam remover ou mascarar substâncias químicas naturais supostamente relacionadas à atração sexual.

A ciência não comprou essa ideia

Embora a explicação pareça ter um argumento científico por trás, ela não encontra respaldo suficiente na literatura científica.

Feromônios são substâncias químicas utilizadas por diversas espécies para provocar determinadas respostas em outros indivíduos da mesma espécie. Em animais, eles podem desempenhar funções relacionadas à reprodução, defesa e comunicação.

Nos seres humanos, porém, a história é mais complexa. Até hoje, não existe comprovação científica sólida de que seres humanos produzam feromônios sexuais capazes de provocar atração de forma automática, como defendem alguns conteúdos nas redes sociais.

Isso não significa que o cheiro corporal seja completamente irrelevante. O odor de uma pessoa pode influenciar a percepção, a memória e até preferências individuais. O problema está em transformar essa possibilidade em uma fórmula: a ideia de que quanto mais tempo sem banho, maior seria a capacidade de sedução não é comprovada.

Na realidade, deixar de cuidar da higiene tende a aumentar a concentração de suor, oleosidade, células mortas e microrganismos na pele. Especialistas alertam que a falta de higiene também pode favorecer irritações, foliculite, dermatites e infecções.

De onde veio o “pheromone-maxxing”?

Apesar de ter viralizado recentemente, o termo não nasceu em 2026. Conteúdos relacionados ao “pheromone-maxxing” já circulavam nas redes sociais pelo menos desde 2024 e estão associados ao universo do “looksmaxxing”, movimento que incentiva principalmente homens a buscar diferentes formas de melhorar a própria aparência e aumentar a atratividade.

A nova tendência segue a lógica de outros comportamentos que viralizam nas redes: uma ideia inusitada é apresentada como uma espécie de “técnica secreta” capaz de oferecer uma vantagem nos relacionamentos.

Nesse caso, o diferencial está justamente no absurdo da proposta. Enquanto produtos de higiene são vendidos há décadas com a promessa de tornar as pessoas mais atraentes, o “pheromone-maxxing” sugere que o verdadeiro segredo estaria em abandonar esses produtos e deixar o corpo falar por conta própria.

Também é importante fazer uma ressalva: a viralização do conteúdo não significa que toda a Geração Z esteja deixando de tomar banho. Parte dos vídeos pode ter caráter de provocação, humor ou sátira, e não há dados que permitam afirmar quantas pessoas realmente adotaram a prática no cotidiano.

Quando o “feromônio” vira apenas mau cheiro

A lógica defendida pelos adeptos parece simples: se o cheiro natural pode influenciar a percepção de alguém, então preservar esse cheiro ao máximo poderia aumentar a atração.

Mas uma coisa não necessariamente leva à outra.

Não há evidências de que acumular suor por dias transforme o odor corporal em um mecanismo de atração sexual. O cheiro natural de uma pessoa pode ser percebido de maneiras diferentes por outras pessoas, mas isso está longe de comprovar a existência de um “feromônio masculino” que funcione como um perfume invisível.

Além dos possíveis efeitos sobre a pele, abandonar hábitos básicos de higiene pode ter consequências sociais bastante previsíveis. Afinal, existe uma diferença considerável entre ter um cheiro corporal característico e simplesmente estar com mau cheiro.

No fim, o “pheromone-maxxing” é mais um exemplo de como as redes sociais conseguem transformar conceitos científicos complexos em regras simples de comportamento. E, neste caso, a tentativa de ficar irresistível pode acabar produzindo justamente o efeito contrário.

Porque, entre liberar feromônios e simplesmente chegar ao encontro fedendo, a ciência ainda não encontrou evidências de que o primeiro aconteça.

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