Belém avança na construção do Memorial dos Povos Negros

Obra inédita celebra a história, cultura e resistência do povo negro na capital paraense.

Belém, capital da Amazônia e marco histórico de lutas populares como a Cabanagem, dá mais um passo significativo em políticas públicas antirracistas. Com uma população composta por mais de 70% de pessoas autodeclaradas pretas e pardas, a cidade avança na construção do Memorial dos Povos Negros Zélia Amador de Deus, uma obra que simboliza reparação histórica e celebra a contribuição africana na formação cultural da região.

O memorial, em construção no Complexo Turístico Ver-o-Rio, ao lado de espaços como o Memorial dos Povos Indígenas e o Museu de Arte Urbana de Belém (Maub), é resultado de reivindicações do movimento negro e de uma gestão participativa. “O Memorial é uma decisão popular. É um espaço que expressa a resistência negra e os valores democráticos do nosso país”, afirmou o ex prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues, que, junto ao professor e arquiteto José Raiol, lidera o projeto.

Um marco da luta antirracista

A obra integra o compromisso da prefeitura com políticas públicas voltadas à equidade racial, como a criação da Coordenadoria Antirracista (Coant) e o Estatuto de Promoção da Igualdade Racial, pioneiro na região Norte. Segundo a coordenadora da Coant, Elza dos Santos, o memorial é “mais do que um edifício, é um reconhecimento à contribuição africana em Belém e ao protagonismo negro na construção da cidade”.

Para Nilma Bentes, referência do movimento negro na Amazônia, o espaço é um símbolo de resistência. “Este memorial é fruto de décadas de luta. É um passo importante na busca por equidade racial em um território marcado por opressões e desigualdades sociais”, afirmou a ativista.

Conceito arquitetônico

O memorial tem o formato de uma proa de embarcação, remetendo às viagens das populações negras para a Amazônia e ao cotidiano amazônico. O projeto inclui uma rampa acessível e uma estrutura que simula a forma de uma cobra grande, símbolo das culturas africana e amazônica, representando movimento, proteção e permanência. A cabeça da cobra se transforma em um mirante com vista para a Baía do Guajará.

Materiais como madeira, vidro e mármore foram usados para refletir a força da luta antirracista. Técnicas ancestrais, como beirais amplos – resgatados após terem sido proibidos em Belém no início do século passado –, simbolizam a grandiosidade das varandas amazônicas.

Espaços e homenagens

O memorial homenageia figuras históricas e incorpora espaços de celebração cultural e resistência:

  • Memorial Zélia Amador de Deus: O nome homenageia a professora, atriz e militante Zélia Amador, referência no movimento negro nacional e defensora das ações afirmativas no Brasil.
  • Sala Mestre Laurentino: Espaço térreo dedicado a eventos culturais e manifestações da cultura negra, em homenagem ao compositor e mestre popular Laurentino, falecido em 2024.
  • Biblioteca Antirracista Bruno de Menezes: Nomeada em referência ao poeta modernista e defensor da cultura afro-amazônica Bruno de Menezes.
  • Espaço Circular Multiuso Nilma Bentes: Destinado a debates e encontros, homenageia a militante paraense Nilma Bentes, uma das fundadoras do Cedenpa.
  • Proa Mãe Josina de Averekete e Mãe Raimundinha de Mina Nagô: Espaço dedicado a rituais de matriz africana, com segurança ambiental, em tributo às yalorixás que lideraram comunidades tradicionais na região.

A inauguração do Memorial dos Povos Negros está prevista para 2025, consolidando Belém como referência na promoção da igualdade racial e na preservação da memória dos povos negros que moldaram a identidade da Amazônia.

Com informações de: Agência Belém

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