Comportamento

Bombom, bilhetinho e saúde mental? Setembro Amarelo expõe contradição de empresas que esquecem o bem-estar durante o ano

Campanhas internas podem ajudar a abrir o diálogo sobre saúde mental, mas especialistas alertam que brindes e ações pontuais não substituem um ambiente de trabalho saudável

Por Mayra Peniche
09/09/2026 às 16:54 • 6 min

Foto: Redes Sociais

Setembro chega e o amarelo toma conta dos escritórios. Tem laço, decoração, cartaz, frase motivacional, palestra e, em algumas empresas, até bombom acompanhado de uma mensagem sobre a importância de cuidar da saúde mental.

A intenção pode até ser boa. O problema é quando o cuidado com os funcionários dura exatamente o tempo de uma campanha.

Durante os outros 11 meses do ano, a realidade de muitos trabalhadores pode ser bem diferente dos cartões com frases motivacionais distribuídos em setembro. Cobranças excessivas, metas inalcançáveis, jornadas desgastantes, assédio e ambientes de trabalho tóxicos também fazem parte da rotina de muitos profissionais.

O Ministério da Saúde define o burnout como um distúrbio emocional ligado à exaustão extrema, estresse e esgotamento físico decorrentes de situações de trabalho desgastantes. Entre os sinais estão cansaço físico e mental, dificuldade de concentração, alterações de humor, insônia, isolamento e dores físicas.

Dados da Fundacentro mostram que a concessão de benefícios por incapacidade relacionados ao burnout passou de 628 em 2019 para 4.880 em 2024. Em 2024, 686 desses benefícios tiveram o nexo com o trabalho reconhecido pela Previdência.

E aí fica a pergunta: de que adianta entregar um bombom com uma mensagem sobre saúde mental se, no dia seguinte, o funcionário volta para um ambiente que contribui para o seu adoecimento?

O brinde é bonitinho. Mas e o resto?

Entre as ações adotadas por empresas durante o Setembro Amarelo estão brindes e pequenas lembranças distribuídas aos funcionários.

Os mimos podem até ser uma maneira simpática de chamar atenção para o tema e estimular uma conversa que normalmente não acontece dentro do ambiente profissional. O problema é quando a ação termina no próprio brinde.

Para a psicóloga clínica Thaíse Marcião Cavalcante, especializada em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia Jurídica, o cuidado com a saúde mental precisa acontecer durante todo o ano e não somente em um mês de campanha de conscientização.

Segundo Thaíse, as empresas também precisam estar atentas às normas de segurança e saúde no trabalho e aos fatores que podem afetar o bem-estar psicológico dos funcionários.

“As empresas devem atender às normas da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), que obriga as empresas a incluírem os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR)”, explica.

Entre os pontos que precisam ser observados, segundo a psicóloga, estão a identificação de perigos, com o mapeamento de fatores que podem gerar danos à saúde mental, como assédio moral ou sexual, sobrecarga de trabalho, cobranças excessivas por metas e jornadas extenuantes.

Também é necessário avaliar o grau de exposição dos funcionários a esses elementos. É preciso adotar medidas de controle, com ações práticas para reduzir os riscos, monitoramento contínuo do ambiente e treinamento das lideranças.

Para Thaíse, o debate sobre saúde mental no ambiente de trabalho precisa justamente ultrapassar a lógica de uma campanha pontual.

Uma empresa pode distribuir um bombom, colocar um cartão amarelo na mesa de cada funcionário ou fazer uma publicação interna sobre prevenção. Mas, se durante o restante do ano mantém práticas que provocam sofrimento, a mensagem perde força.

O papel do RH

Para Mayara Jardim, profissional de Recursos Humanos, com mais de oito anos de experiência na área, o papel do RH também vai muito além dos processos administrativos.

“No RH, mais do que cuidar de processos, o meu papel como profissional que escolheu atuar nessa área, é cuidar das pessoas, criando um ambiente onde elas se sintam respeitadas, ouvidas e valorizadas”, afirma.

Segundo Mayara, o RH está entre os principais responsáveis por transformar a cultura da empresa em ações concretas. Isso pode acontecer por meio da escuta ativa e da criação de políticas que promovam respeito, inclusão e qualidade de vida.

“Quando o colaborador percebe que a empresa realmente se preocupa com o seu bem-estar, o clima organizacional melhora, o engajamento aumenta e os resultados aparecem de forma natural”, explica.

Para ela, o cuidado com a saúde mental precisa acontecer durante todo o ano. Entre as ações que podem ser desenvolvidas estão palestras e rodas de conversa, tanto em grupo quanto individualmente, para que os trabalhadores possam falar sem medo de julgamento.

Mayara também cita a capacitação de líderes para identificar sinais de sofrimento emocional, a oferta de apoio psicológico quando possível, o incentivo a pausas e ao equilíbrio entre vida pessoal e trabalho e a realização de pesquisas de clima para entender como os colaboradores estão se sentindo.

“O cuidado com a saúde mental precisa acontecer durante todo o ano, não apenas em campanhas pontuais, como o Setembro Amarelo”, destaca.

Setembro Amarelo pode ser o começo, não o fim

Apesar das críticas às ações que ficam apenas no campo simbólico, Mayara ressalta que campanhas como o Setembro Amarelo têm importância dentro das empresas.

Segundo ela, a campanha ajuda a quebrar o silêncio em torno de um tema que ainda carrega muitos preconceitos e cria oportunidades para conversar sobre saúde mental de forma mais aberta, informar os colaboradores sobre sinais de alerta e, principalmente, mostrar onde buscar ajuda.

Mas, para ela, o mais importante é que a campanha não termine quando setembro acabar.

“O maior valor dessas campanhas é quando elas servem como ponto de partida para uma cultura de cuidado permanente. Quando a empresa demonstra que esse diálogo continua depois de setembro, ela fortalece a confiança dos colaboradores e contribui para um ambiente mais acolhedor”, afirma.

No fim das contas, o bombom pode até ser gostoso. O cartão pode até ter uma frase bonita. E ninguém precisa ser contra um mimo.

Mas se a mensagem diz “sua saúde mental importa”, talvez seja bom que a empresa também demonstre isso na segunda-feira seguinte, na reunião de metas, na jornada de trabalho, na relação com os chefes e na maneira como trata quem passa boa parte da vida dentro daquele ambiente.

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