Política

Vorcaro pediu a Moraes ajuda para tentar frear investigação do Banco Master, revela jornal

Mensagens obtidas pelo Estadão mostram que banqueiro pediu ao ministro do STF que recorresse ao diretor-geral da Polícia Federal e ao procurador-geral da República; pedidos teriam ocorrido até poucas horas antes da primeira prisão de Vorcaro

Por Daniel Vinagre
01/09/2026 às 11:56 • 5 min

Foto: Gustavo Moreno/ STF

O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, pediu ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes ajuda para tentar conter o avanço das investigações sobre a instituição financeira. As informações são de reportagem do Estadão, assinada pelos jornalistas Fausto Macedo, Felipe de Paula e Aguirre Talento e publicada nesta terça-feira (1º).

Segundo o jornal, mensagens extraídas do celular de Vorcaro indicam que ele pediu reiteradamente que Moraes recorresse ao diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, diante do avanço das apurações que posteriormente resultaram na Operação Compliance Zero.

“Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”

Uma das mensagens destacadas pela reportagem foi enviada em 15 de novembro de 2025, dois dias antes da primeira prisão do banqueiro.

“Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso”, escreveu Vorcaro a Moraes, segundo as mensagens obtidas pelo Estadão.

Os pedidos teriam começado semanas antes. Em 30 de outubro, Vorcaro teria dito a Moraes que era “importante reforçar” com Andrei Rodrigues e Paulo Gonet para evitar que integrantes da PF e do Ministério Público adotassem alguma medida contra o banco.

Naquele período, o Master estava próximo de anunciar uma suposta venda para um consórcio formado pela Fictor Holding Financeira e investidores dos Emirados Árabes Unidos.

Segundo o Estadão, quando essas conversas ocorreram, o Banco Master já mantinha contrato de R$ 131 milhões com o escritório de advocacia de Viviane Barci, mulher de Alexandre de Moraes. O jornal informa ainda que dados do Imposto de Renda do banco compartilhados com a CPI do Crime Organizado indicaram o repasse de R$ 80 milhões ao escritório em outubro de 2024.

Mensagens continuaram às vésperas da prisão

Os contatos relatados pelo Estadão teriam continuado até poucas horas antes da prisão de Vorcaro, ocorrida em novembro de 2025 no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, quando ele se preparava para embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Em uma das mensagens, enviada às 16h57 de 16 de novembro, Vorcaro questionou se Andrei Rodrigues poderia adiar o cumprimento das medidas que se aproximavam.

“Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”, escreveu.

De acordo com o Estadão, investigadores avaliam que o conteúdo dessas conversas pode indicar que Vorcaro tinha conhecimento prévio sobre a primeira fase da Operação Compliance Zero.

Em outra mensagem, enviada menos de 24 horas antes de ser detido, o banqueiro voltou a citar o diretor-geral da PF: “E com Andrei dá pra segurar?”.

Conversas recuperadas do celular

A reportagem aponta que Vorcaro e Moraes utilizavam mensagens de visualização única e capturas de tela de textos escritos no aplicativo de notas do celular.

Por causa desse método de comunicação, a investigação teria conseguido recuperar as imagens enviadas pelo banqueiro, mas não as respostas atribuídas a Moraes. Dessa forma, o material divulgado pelo Estadão revela os pedidos feitos por Vorcaro, mas não permite, a partir dessas mensagens, conhecer o conteúdo das respostas do ministro.

Em 4 de novembro, Vorcaro teria afirmado que não sabia exatamente qual investigação avançava sobre o banco e questionado se seria possível “segurar” alguma medida. No dia seguinte, disse que seus advogados haviam procurado Paulo Gonet.

Ainda segundo as mensagens reproduzidas pelo jornal, Vorcaro afirmou que não tomaria determinadas decisões jurídicas sem consultar Moraes: “Não vou fazer nenhum movimento que você não achar produtivo”.

Banqueiro enviou nomes de investigadores

Cerca de 20 dias antes da primeira ordem de prisão, Vorcaro também teria enviado ao ministro uma relação com nomes de quatro delegados e três procuradores da República envolvidos nas apurações preliminares.

Na conversa, o banqueiro dizia ter recebido informações de que o Banco Central estaria sendo pressionado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público e novamente pediu que Moraes falasse com Andrei Rodrigues e Paulo Gonet.

Segundo a reportagem, Vorcaro argumentava que não se opunha a ser investigado, mas demonstrava preocupação com eventuais medidas que pudessem provocar uma crise na instituição financeira.

“Juntos em tudo”

Outra mensagem revelada pelo Estadão mostra o banqueiro fazendo elogios a Alexandre de Moraes. Cerca de 20 minutos depois de pedir pela primeira vez que o ministro atuasse junto às cúpulas da PF e da Procuradoria-Geral da República, em 30 de outubro, Vorcaro afirmou que Moraes poderia se consolidar como “a pessoa mais importante do país”.

Na sequência, ao voltar a falar sobre os problemas enfrentados pelo banco, escreveu: “Juntos em tudo. Muito obrigado por tudo.”

As mensagens agora estão sob análise no âmbito das investigações. O ministro André Mendonça, relator no STF da investigação relacionada ao Banco Master, pediu manifestação da Procuradoria-Geral da República sobre o conteúdo das conversas.

Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro de 2025, chegou a ser solto por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) e voltou a ser preso em março deste ano, por ordem de André Mendonça. Ele permanece detido no Distrito Federal.

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