Cidades

Dia dos Pais: boto deixa lenda e vira símbolo da Amazônia

No imaginário amazônico, a figura do boto se mistura à paternidade e hoje também chama atenção para a preservação dos rios

Por Kaio Rodrigues
09/08/2026 às 13:45 • 3 min

Foto: Arquivo do Instituto BioMA

A história do boto-cor-de-rosa ganhou espaço no imaginário amazônico como uma explicação para crianças cujo pai não era conhecido. A antiga lenda do homem vestido de branco que desaparecia nas águas ajudou a transformar o animal em uma das figuras mais populares do folclore regional.

A relação com a paternidade ganha um significado especial neste Dia dos Pais, celebrado neste domingo (9). Mas, longe das histórias contadas pelas comunidades, os botos enfrentam uma realidade que preocupa pesquisadores e coloca a conservação da espécie no centro do debate.

“Essa cosmologia ainda é comum. No Pará, isso ocorre principalmente nas regiões do arquipélago do Marajó, baixo Amazonas e Baixo Tocantins, onde a presença desses animais é mais frequente”, explica Angélica Rodrigues, pesquisadora e bióloga da UFRA.

Foto: Arquivo do Instituto BioMA

A tradição, porém, também pode influenciar a forma como os animais são tratados. Há comunidades que mantêm distância por causa das crenças, enquanto outras relações com os botos envolvem consumo, comércio de subprodutos e aproximação para alimentação.

O cenário ambiental aumenta a preocupação. O boto-cor-de-rosa está classificado como “Em perigo” na Lista Vermelha da IUCN e também na relação brasileira de espécies ameaçadas, enquanto outros botos amazônicos enfrentam diferentes níveis de risco.

Poluição, perda de habitat, pesca acidental, dragagem dos rios e mudanças climáticas estão entre os fatores que pressionam as populações. Um caso ocorrido em Belém mostrou a dimensão do problema: um boto encontrado em um canal morreu após o resgate e tinha o trato intestinal cheio de lixo.

Se na lenda o boto ficou associado à paternidade, na ciência ele ganhou outra função simbólica: a de sentinela dos rios. “Ele está no topo da cadeia alimentar. É um animal que acumula as informações e funciona como um grande farol ambiental para nos dar pistas de como o ambiente está respondendo às emergências e aos impactos antrópicos. Toda vez que um animal encalha, vivo ou morto, é fonte de muita informação científica”, disse Angélica.

Foto: Arquivo do Instituto BioMA

Neste Dia dos Pais, a velha história do boto pode servir para lembrar que o animal não existe apenas nas narrativas amazônicas. Preservar os botos também significa cuidar dos rios, da biodiversidade e das comunidades que dependem deles.

Com informações da UFRA.

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