Cidades

Tradição que passa de pai para filho: histórias de amor e trabalho no Ver-o-Peso

No Dia dos Pais, permissionários e trabalhadores do complexo em Belém celebram a data ao lado dos filhos que mantêm viva a herança familiar entre os boxes do Mercado Francisco Bolonha e da feira

Por Estado do Pará Online
09/08/2026 às 11:48 • 4 min

VER O PESO- BELEM -PA

O Complexo do Ver-o-Peso é cheio de histórias que atravessam o tempo. O espaço abriga cerca de 2.400 pessoas, entre permissionários, trabalhadores informais e ajudantes, segundo dados da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (Sedcon). Neste domingo de Dia dos Pais, muitos desses trabalhadores celebram a data no próprio local de trabalho, ao lado dos filhos que ajudaram a formar e a introduzir no ofício.

No setor de refeições do Mercado Francisco Bolonha, Raimundo Filho da Silva Melo, de 44 anos, atua como permissionário ao lado do pai. Ele relata como a paixão pela culinária nasceu no local:

“Meu pai me fez ter paixão por cozinhar no Ver-o-Peso. Cheguei a trabalhar em um restaurante fora, mas faliu durante à pandemia (de covid-19) e foi aqui no mercado, junto com meu pai, que tive abrigo. Hoje pretendo continuar aqui e seguir os passos dele”, diz Raimundo Filho.

Foto: Roberta De Paula/ Secom

Veterano no espaço, seu pai, Raimundo Monteiro de Melo, de 67 anos, trabalha no complexo há 45 anos e vivenciou diferentes fases do mercado:

“Estou aqui há 45 anos, meu tio já trabalhava em um boxe quando eu vim ajudá-lo. Passamos por momentos de dificuldades na pandemia e com a deterioração do espaço, mas agora, com a reforma que a Prefeitura de Belém fez no mercado e a movimentação com a COP 30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), as vendas aumentaram bastante e continuam crescendo”, disse o permissionário, que também é pai de Regina Melo, de 41 anos, cozinheira no mesmo boxe.

Exemplo de superação, formação e gestão familiar

A resiliência de quem nunca teve a presença paterna marca a trajetória do permissionário Nazareno Cardoso, de 70 anos. Hoje, ele comanda um dos boxes mais movimentados do Mercado Francisco Bolonha e celebra a data ao lado dos filhos:

“Sou órfão de pai e mãe, por isso valorizo demais o sacrifício e o amor que tenho pelos meus filhos. Daqui do Ver-o-Peso formei meus 13 filhos, tenho certeza de que sou exemplo para eles”, declara Nazareno.

Foto: Roberta De Paula/ Secom

Ele explica ainda que a consolidação no espaço foi conquistada gradualmente:

“Primeiro comecei com vendas de bebidas e tira-gostos, depois me aperfeiçoei, fiz cursos de capacitação e agora sou conhecido pelos pratos que sirvo aqui, inclusive o próprio prefeito Igor Normando já veio comemorar o aniversário dele aqui comigo”, destaca.

Um de seus filhos, Washington Luiz Cardoso das Neves, de 42 anos, é engenheiro civil e utiliza sua bagagem profissional para auxiliar o pai na gestão financeira, compra de insumos e pagamento a fornecedores:

“Já rodei o Brasil inteiro trabalhando, adquiri experiências em várias empresas, então nada mais justo administrar os negócios que com tanta dedicação e, do jeito dele, meu pai conseguiu. Também sou pai de duas filhas e aprendi com ele a importância de valorizar a família. Por isso, celebrar o dia dos pais ao lado dele é engrandecedor”, afirma Washington.

Saudade e união na feira

Na feira do Ver-o-Peso, o Dia dos Pais traz a memória e a saudade para o vendedor de camarão Gregório Franco, de 71 anos. Pai de três filhos e avô de seis netos, ele perdeu de forma repentina, há três anos, o filho do meio, Cleiton José Franco, de 36 anos, que trabalhava ao seu lado:

“Olhar para esse box e não ver mais ele aqui do meu lado é uma tristeza profunda, mas sei que como pai de outros filhos preciso seguir em frente”, desabafa o feirante, emocionado.

Apesar da perda, Gregório conta diariamente com o apoio do filho mais velho, Cleidson Jorge Franco, de 45 anos:

“Nossa luta é diária, mas estou aqui para dar forças para o meu pai, afinal também sou pai de três filhos, trabalhamos com fé e dedicação, todos os dias, por eles”, conclui Cleidson.

Foto: Roberta De Paula/ Secom

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