Eleições 2026

Pará entra na campanha com empate pelo governo e segunda vaga ao Senado em aberto

Convenções consolidam Hana Ghassan e Daniel Santos como protagonistas de uma eleição marcada por alianças amplas, investigações, denúncias e forte disputa pelo interior do estado

Por Estado do Pará Online
07/08/2026 às 11:16 • 15 min
Montagem com os principais nomes da disputa pelo Governo do Pará e pelo Senado nas eleições de 2026

Principais personagens da disputa eleitoral de 2026 no Pará.

Encerradas as convenções partidárias, a eleição para o Governo do Pará entra em sua fase mais decisiva com uma disputa aberta, marcada pelo equilíbrio entre os dois principais candidatos, pela reorganização das forças de esquerda e de direita e por uma corrida igualmente acirrada pela segunda vaga do estado no Senado Federal.

De um lado está a governadora Hana Ghassan, candidata do MDB e herdeira política do grupo liderado pelo ex-governador Helder Barbalho. Do outro, o ex-prefeito de Ananindeua Daniel Santos, do Podemos, antigo aliado do governo estadual que agora tenta se apresentar como principal ameaça à hegemonia do atual grupo no poder estadual.

Embora os partidos tenham encerrado as convenções em 5 de agosto, as candidaturas ainda precisam ser registradas na Justiça Eleitoral até as 19h do dia 15. A propaganda eleitoral começa em 16 de agosto, enquanto o primeiro turno está marcado para 4 de outubro. Eventual segundo turno ocorrerá em 25 de outubro.

As chapas que saíram das convenções

Até o fechamento desta reportagem, sete chapas haviam sido anunciadas para disputar o Governo do Pará:

  • Hana Ghassan (MDB), com Dirceu Ten Caten (PT) como candidato a vice;
  • Daniel Santos (Podemos), com Ellayne D’Almeida (PL) na vice;
  • Araceli Lemos (PSOL), com Fátima Santana;
  • Cleber Rabelo (PSTU), com Well Macêdo;
  • Gal Leite (UP), com Karen Suellen;
  • Robertinho Amigo do Povo (PRTB), com Ronaldo Miranda Sarges;
  • José Moita (Democrata), com Simone Souza.

A lista ainda depende da apresentação e da análise dos pedidos de registro. Convenção e anúncio político não significam, automaticamente, candidatura deferida pela Justiça Eleitoral após o dia 15 de agosto.

Hana e Dirceu: aliança entre MDB e PT supera tensão inicial

Hana Ghassan assumiu o Governo do Pará em 2 de abril, depois que Helder Barbalho renunciou para disputar uma das vagas ao Senado. Ex-secretária estadual de Planejamento e vice-governadora eleita em 2022, ela chega à campanha defendendo a continuidade das obras, programas e investimentos conduzidos pelo grupo emedebista.

A composição com o deputado estadual Dirceu Ten Caten resolveu um impasse que se tornou público durante as convenções. No encontro do MDB realizado no Mangueirinho, o nome do petista não foi anunciado inicialmente e também houve silêncio sobre o apoio à candidatura presidencial de Lula, episódio que expôs desconforto entre as duas legendas. A indicação de Dirceu foi posteriormente confirmada e incorporada à chapa, como noticiou o EPOL em primeira mão.

Dirceu exerce o terceiro mandato na Assembleia Legislativa e lidera a bancada do PT. Sua entrada procura consolidar a base de esquerda, ampliar a presença da chapa entre agricultores familiares, movimentos sociais e municípios do sul e sudeste do estado e, ao mesmo tempo, garantir o apoio do partido de Lula à candidatura de Hana.

A aliança também sustenta Helder Barbalho e Chicão, do União Brasil, para as duas vagas ao Senado. O acordo, porém, convive com a candidatura de Celso Sabino, do PDT, partido que também declarou apoio a Hana. Na prática, três candidatos ligados ao mesmo campo político disputam duas cadeiras.

Daniel aposta no discurso de ruptura e leva o PL para a chapa

Daniel Santos foi vereador, deputado estadual, presidente da Assembleia Legislativa e prefeito de Ananindeua por dois mandatos. Renunciou à prefeitura em abril para concorrer ao governo e trocou o PSB pelo Podemos durante a reorganização das alianças estaduais.

O ex-prefeito construiu sua pré-campanha sobre o discurso de rompimento com o grupo Barbalho, ao qual esteve politicamente ligado. Em viagens pelo estado, Daniel tem criticado o que chama de “ditadura” e “oligarquia” com concentração de poder nas mãos da família Barbalho e defende investimentos em saúde regionalizada, infraestrutura, industrialização, ensino superior e recuperação das rodovias estaduais.

A convenção do Podemos também confirmou Zequinha Marinho para a reeleição ao Senado. A aliança com o PL incorporou a candidatura do deputado federal Delegado Éder Mauro à outra vaga de senador.

Depois da convenção, a empresária Ellayne D’Almeida, do PL de Itaituba, foi escolhida para completar a chapa como candidata a vice. A movimentação vinha sendo discutida havia meses e era apontada por veículos do oeste paraense como uma estratégia para ampliar a presença de Daniel nas regiões do Tapajós, Baixo Amazonas, Transamazônica e BR-163. Ellayne tem atuação ligada ao empreendedorismo, a projetos sociais voltados às mulheres e a setores conservadores e produtivos do interior, conforme seu perfil publicado durante as articulações da chapa.

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Politicamente, a escolha permite que Daniel combine sua base metropolitana, especialmente em Ananindeua, com uma representante do sudoeste do estado. O nome de Ellayne, assim como os demais integrantes das chapas, deverá constar no pedido de registro apresentado à Justiça Eleitoral.

Pesquisas mostram uma eleição sem favorito isolado

Os levantamentos divulgados até aqui apontam uma polarização entre Hana e Daniel, mas não autorizam afirmar que exista um favorito consolidado.

Na pesquisa Genial/Quaest divulgada em 27 de julho, Hana apareceu com 24% e Daniel com 20% no principal cenário de primeiro turno. Como a margem de erro era de três pontos percentuais, os dois estavam tecnicamente empatados. Em um eventual segundo turno, Hana tinha 36% e Daniel 35%. O instituto ouviu 900 eleitores entre 21 e 25 de julho, com registro PA-04548/2026.

O levantamento também mostrou que 49% aprovavam o trabalho de Hana à frente do governo e 21% desaprovavam. Na avaliação por conceitos, 36% classificavam a gestão como positiva, 31% como regular e 14% como negativa, segundo a Quaest.

Uma pesquisa Real Time Big Data divulgada no início de agosto manteve o quadro de empate: Hana apareceu com 31% e Daniel com 29% no primeiro turno. Em uma simulação de segundo turno, Daniel marcou 38% e Hana 36%. Foram ouvidos 1.600 eleitores, com margem de erro de dois pontos.

Esse levantamento, entretanto, precisa ser interpretado com cautela. O cenário ainda apresentava Mário Couto e Raquel Brício como candidatos ao governo. Mário não foi confirmado nas convenções, enquanto Raquel acabou escolhida candidata a vice-presidente da República pela Unidade Popular. Novos nomes, como Gal Leite, Robertinho e José Moita, não haviam sido testados.

Portanto, ainda não existe pesquisa conhecida que tenha medido integralmente o quadro final anunciado depois das convenções.

Candidaturas menores tentam romper a polarização

Araceli Lemos, ex-deputada estadual e presidente do PSOL no Pará, representa a Federação PSOL-Rede. A candidatura procura ocupar um espaço de esquerda independente do governo estadual e faz críticas tanto à aliança liderada pelo MDB quanto ao projeto de Daniel Santos. O partido também lançou Gizelle Freitas e Marcelino Conti ao Senado.

O PSTU confirmou Cleber Rabelo, dirigente sindical da construção civil e ex-vereador de Belém, ao lado de Well Macêdo. A chapa defende um programa socialista, com críticas às privatizações, às grandes empresas e ao modelo de exploração mineral adotado no estado.

Na Unidade Popular, Gal Leite assumiu a candidatura ao governo depois que Raquel Brício foi deslocada para a chapa presidencial do partido. Karen Suellen completa a composição estadual, enquanto Fernanda Lopes foi anunciada para o Senado.

O PRTB lançou Robertinho Amigo do Povo, conhecido por sua atuação na Região Metropolitana de Belém. O partido tenta construir uma candidatura ligada ao empreendedorismo e à aproximação direta com as comunidades.

José Moita, do Democrata, completa o quadro anunciado. Sua chapa apresenta como prioridades saúde, educação, saneamento, combate à corrupção e maior presença do poder público no interior.

Apesar de aparecerem com índices menores ou sequer terem sido testados nas pesquisas, essas candidaturas podem influenciar o tempo de campanha, os debates, a distribuição dos votos no primeiro turno e a formação de apoios em eventual segundo turno.

Senado: Helder lidera, mas segunda vaga permanece aberta

A disputa pelo Senado é tão relevante quanto a eleição estadual. Em 2026, o eleitor poderá votar em dois candidatos diferentes, pois duas das três cadeiras do Pará serão renovadas.

Helder Barbalho aparece com vantagem na maior parte das pesquisas. O segundo lugar, entretanto, é disputado por Éder Mauro, Celso Sabino, Zequinha Marinho e Chicão.

No levantamento Real Time Big Data divulgado em agosto, Helder marcou 40%. Éder Mauro apareceu com 16%, Celso Sabino com 12%, Zequinha Marinho com 11% e Chicão com 10%. Como cada entrevistado podia indicar dois nomes, os resultados foram apresentados de forma consolidada. A diferença entre os candidatos que disputam a segunda cadeira está dentro ou muito próxima da margem de erro.

Helder tenta transferir para a campanha ao Senado a aprovação construída durante quase oito anos de governo. Sua chapa de suplentes também carrega forte peso político: o primeiro suplente é o senador Jader Barbalho, seu pai, e o segundo é o pastor Samuel Câmara.

Chicão procura se apresentar como representante do agronegócio, da infraestrutura e do diálogo entre produção e preservação ambiental. Celso Sabino, por sua vez, tenta aproveitar a passagem pelo Ministério do Turismo e sua ligação com o governo Lula, mesmo disputando diretamente com dois nomes apoiados pela chapa estadual.

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Na oposição, Éder Mauro mobiliza o eleitorado bolsonarista e a pauta da segurança pública, enquanto Zequinha Marinho busca a reeleição com apoio de setores evangélicos, do agronegócio e de municípios do interior.

Também foram anunciadas as candidaturas de Breno Guimarães, pelo Mobiliza; Lívia Noronha, pelo Solidariedade; Gizelle Freitas e Marcelino Conti, pelo PSOL; Fernanda Lopes, pela UP; e Edlaine Rodrigues, pelo Democrata.

Daniel enfrenta denúncia criminal e ação ambiental

Entre os candidatos ao governo, Daniel Santos concentra os procedimentos judiciais de maior repercussão eleitoral.

Em outubro de 2025, o Ministério Público do Pará ofereceu denúncia criminal contra Daniel, empresários e antigos agentes públicos. O MPPA atribuiu aos denunciados supostas práticas de corrupção, fraude em licitações, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

A acusação envolve contratos da Prefeitura de Ananindeua com as empresas Edifikka e DSL, que, segundo o Ministério Público, ultrapassaram R$ 100 milhões. O órgão sustenta que recursos provenientes de empresas contratadas teriam sido utilizados para pagar obrigações particulares, incluindo fazendas, aeronaves e máquinas agrícolas. Leia o comunicado do MPPA.

O oferecimento da denúncia não equivale a condenação. Também é necessário distinguir a apresentação da acusação pelo Ministério Público de seu eventual recebimento pelo tribunal, etapa que transforma formalmente o acusado em réu.

Em março deste ano, o ministro Alexandre de Moraes rejeitou um pedido para estender à Operação Hades a nulidade de uma portaria que havia criado a chamada Força-Tarefa Ananindeua. Segundo o STF, a Operação Hades começou antes da criação da força-tarefa e possuía fontes independentes de prova. Com isso, as investigações puderam continuar.

Daniel nega irregularidades, afirma que seu patrimônio possui origem lícita e sustenta ser vítima de perseguição política. Sua defesa declarou que a decisão do STF não analisou o mérito das acusações e que continuará recorrendo para demonstrar o que considera ilegalidades na investigação. Confira o posicionamento da defesa.

Em junho, o Ministério Público também ajuizou uma ação civil relacionada a uma fazenda em Ipixuna do Pará. O órgão atribui a Daniel a propriedade de uma área na qual teria ocorrido desmatamento ilegal de 749,52 hectares e afirma que houve tentativa de transferir o imóvel para um terceiro com o objetivo de evitar multas próximas de R$ 4,7 milhões.

A defesa respondeu que os pedidos do Ministério Público ainda não haviam sido acolhidos e classificou novamente o caso como perseguição eleitoral. A ação ainda depende de instrução e julgamento, como registrou a Folha de S.Paulo.

Vídeo atribuído a Daniel leva campanha à Justiça

Outro episódio que elevou a tensão foi a circulação de um vídeo de caráter íntimo atribuído a Daniel. A Justiça determinou a remoção de publicações e a identificação de perfis envolvidos na divulgação.

A decisão não confirmou a autenticidade das imagens. Daniel e sua esposa afirmaram que o episódio envolvia a vida privada da família e acusaram adversários de promover campanha de baixo nível. O caso deve ser tratado como questão de privacidade e possível propaganda negativa, sem reprodução ou amplificação do material. Leia a decisão noticiada pelo EPOL.

Convenção do MDB também foi alvo de questionamentos

A convenção que confirmou Hana, Helder e Chicão foi acompanhada por uma denúncia política sobre possível uso de ônibus para transportar participantes até o Mangueirinho.

Imagens mostraram veículos próximos ao local, mas, até o momento, não foi apresentado documento capaz de provar quem contratou o transporte, se eram linhas regulares ou fretadas, qual foi a origem dos recursos ou se houve pagamento para que pessoas participassem do evento.

O simples registro de ônibus no entorno não comprova uso da máquina pública. Uma irregularidade eleitoral dependeria da demonstração de emprego de recursos, servidores ou bens públicos em benefício da convenção. O episódio foi registrado pelo EPOL.

Também tramita no Ministério Público Federal uma apuração preliminar sobre custos e contratos das obras do Parque da Cidade, um dos principais legados da COP30. O procedimento surgiu após representação apresentada por parlamentares do PSOL e busca esclarecer diferenças entre valores divulgados, escopo dos contratos, medições e fontes de financiamento.

A abertura de uma Notícia de Fato serve para reunir informações e não representa confirmação de sobrepreço, desvio ou responsabilidade pessoal de Hana, Helder ou qualquer outro agente público. Confira a apuração do EPOL.

Éder Mauro é alvo de notícia-crime sobre emendas

Na disputa ao Senado, Éder Mauro passou a enfrentar acusações feitas pelo vereador Zezinho Lima, então integrante do próprio PL.

Zezinho protocolou notícia-crime afirmando que haveria cobrança de percentuais entre 20% e 30% sobre emendas parlamentares destinadas à saúde de municípios do interior. O material entregue à Polícia Federal inclui arquivos audiovisuais, imagens e informações sobre movimentações atribuídas a um ex-assessor.

O protocolo de uma notícia-crime não comprova a acusação e também não significa, por si só, que a Polícia Federal tenha instaurado inquérito. As informações ainda precisam passar por análise e eventual investigação.

Éder Mauro nega as acusações, afirma ser alvo de tentativa de destruição de reputação e também fez acusações contra Zezinho e outros adversários. Nenhuma das versões foi validada definitivamente pelas autoridades. O conflito terminou com Zezinho fora da chapa proporcional do PL, aprofundando o racha interno no partido. Entenda o caso no EPOL.

Uma eleição definida por continuidade, rejeição e força regional

A eleição paraense começa oficialmente sem um favorito isolado. Hana possui a estrutura do governo, uma ampla rede de prefeitos e partidos e a liderança eleitoral de Helder ao Senado. Ao mesmo tempo, precisa provar que sua candidatura tem identidade própria e responder aos questionamentos sobre continuidade, concentração de poder e uso político das entregas governamentais.

Daniel carrega a força eleitoral de Ananindeua, o apoio do Podemos e do PL e um discurso de ruptura capaz de mobilizar setores conservadores e eleitores descontentes. Em contrapartida, entra na campanha pressionado por investigações, ações judiciais e pela necessidade de convencer o eleitorado de que as acusações contra sua antiga gestão não comprometem seu projeto estadual.

No Senado, Helder inicia a campanha em posição confortável, mas a segunda vaga segue completamente aberta. Éder, Celso, Zequinha e Chicão têm bases políticas diferentes e tendem a disputar voto a voto em uma eleição na qual cada paraense poderá escolher dois nomes.

As convenções encerraram a fase das especulações, mas não reduziram a temperatura. Ao contrário: com as chapas definidas, a campanha deverá avançar sobre a comparação entre gestões, a disputa pelo interior, a influência das candidaturas presidenciais, as alianças familiares e religiosas e o uso eleitoral de denúncias.

Em meio ao confronto, caberá aos veículos de imprensa, aos órgãos de fiscalização e à sociedade distinguir documento de boato, investigação de condenação e crítica política de desinformação. É essa separação que permitirá ao eleitor avaliar não apenas os discursos, mas o histórico, as propostas e as responsabilidades de cada candidato.

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