Política

Pré-campanhas frias e redes sociais sem rumo: por que o marketing político paraense ainda não encontrou o tom de 2026?

Por Estado do Pará Online
19/06/2026 às 12:51 • 6 min

Faltando poucos meses para o início oficial da campanha eleitoral, um fenômeno chama a atenção de quem acompanha a política paraense: a ausência de entusiasmo nas pré-campanhas dos principais postulantes ao governo do Estado e ao Senado.

Apesar dos investimentos em produção audiovisual, equipes de redes sociais, fotógrafos, designers, assessores e agências de comunicação, a sensação predominante é de que quase todos estão falando muito e comunicando pouco. O resultado é uma disputa ainda morna, incapaz de mobilizar emocionalmente o eleitorado e gerar o engajamento necessário para transformar simpatizantes em defensores espontâneos de uma candidatura.

O problema não está apenas na qualidade técnica das peças publicitárias. Em muitos casos, vídeos são bem produzidos, fotografias possuem excelente acabamento e os perfis mantêm frequência de publicações. O que falta é algo mais profundo: estratégia.

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O excesso de conteúdo e a ausência de narrativa

Um dos erros mais comuns nas pré-campanhas é confundir presença digital com posicionamento político.

Muitos pré-candidatos publicam diariamente vídeos de agendas, reuniões, visitas, entrevistas, cumprimentos, homenagens e registros protocolares. O eleitor, porém, não vota em agendas. Ele vota em histórias, valores, causas e percepções.

Quando uma rede social se transforma apenas em um álbum de atividades, ela perde capacidade de construir identidade política.

O cidadão precisa entender rapidamente:

  • Quem é esse candidato?
  • O que ele representa?
  • Qual problema pretende resolver?
  • Em que ele é diferente dos demais?
  • Por que merece confiança?

Sem responder a essas perguntas, a comunicação se torna apenas ruído digital.

O político virou refém da própria assessoria

Outro erro clássico ocorre quando o marketing passa a produzir conteúdo para agradar o próprio grupo político e não o eleitor.

Muitas equipes passam dias discutindo logotipos, vinhetas, slogans e efeitos visuais enquanto ignoram a principal questão: o que realmente interessa à população?

É comum encontrar perfis repletos de fotos ao lado de lideranças, autoridades e aliados, mas praticamente sem diálogo com os problemas cotidianos das pessoas.

O eleitor médio não acorda preocupado com articulações partidárias. Ele acorda preocupado com saúde, segurança, emprego, mobilidade urbana, educação e custo de vida.

Quando a comunicação ignora essas preocupações, ela perde relevância.

A síndrome do “candidato perfeito”

Existe ainda uma obsessão crescente por controlar excessivamente a imagem dos pré-candidatos.

Muitos políticos aparecem nas redes como personagens artificiais, excessivamente ensaiados e previsíveis.

Tudo parece calculado.

Tudo parece roteirizado.

Tudo parece distante.

Em uma época em que autenticidade vale mais do que perfeição, o excesso de polimento costuma produzir efeito contrário ao desejado.

Os eleitores querem enxergar humanidade.

Querem ver opiniões.

Querem conhecer histórias.

Querem identificar emoções.

Não basta parecer gestor. É preciso parecer gente.

A falta de inteligência de dados

Outro equívoco recorrente é produzir conteúdo sem análise consistente dos resultados.

Muitas campanhas continuam medindo sucesso apenas por curtidas ou visualizações.

Isso é insuficiente.

O marketing político moderno exige monitoramento permanente de indicadores como:

  • Compartilhamentos;
  • Tempo médio de visualização;
  • Crescimento orgânico;
  • Sentimento dos comentários;
  • Alcance fora da bolha política;
  • Conversão de audiência em militância digital.

Sem esses dados, a comunicação vira um exercício de adivinhação.

A ausência de segmentação

Outro erro frequente é tentar falar com todos ao mesmo tempo.

O jovem universitário de Belém possui preocupações diferentes das de um produtor rural do sudeste paraense.

Uma mãe da periferia de Ananindeua possui demandas diferentes das de um empresário de Santarém.

Quando a mensagem é genérica demais, ela não cria identificação com ninguém.

Campanhas modernas trabalham com segmentação de públicos, adaptando linguagem, formato e temática para cada grupo social.

O conteúdo que ninguém pediu para ver

Boa parte das redes políticas está dominada por conteúdos burocráticos:

  • Reuniões intermináveis;
  • Discursos longos;
  • Fotos de gabinete;
  • Assinaturas de documentos;
  • Encontros institucionais.

Esse tipo de material pode ser importante para prestação de contas, mas raramente desperta interesse popular.

As pessoas compartilham emoções, conflitos, histórias de superação, soluções práticas e visões de futuro.

A política precisa voltar a contar histórias.

O que poderia melhorar o cenário?

Algumas mudanças poderiam transformar significativamente o ambiente das pré-campanhas paraenses:

1. Construção de narrativas claras

Antes de produzir vídeos, é preciso definir uma narrativa central.

Toda publicação deve reforçar uma mesma identidade política.

2. Menos propaganda e mais conversa

O eleitor deseja diálogo.

Lives, entrevistas espontâneas, respostas a perguntas e participação em podcasts tendem a gerar mais conexão do que vídeos excessivamente produzidos.

3. Conteúdo baseado em problemas reais

A pauta deve nascer das dores da população, e não da agenda do político.

4. Humanização genuína

Mostrar bastidores, trajetórias pessoais, desafios e valores costuma ser mais eficiente do que tentar construir uma imagem perfeita.

5. Planejamento integrado

Redes sociais, imprensa, rua, lideranças comunitárias, influenciadores e mobilização territorial precisam atuar de forma coordenada.

Não existe marketing digital capaz de compensar uma campanha desconectada da realidade social.

O desafio de 2026

O cenário eleitoral paraense continua aberto. Há um mar de indecisos, pouca mobilização emocional e uma disputa que ainda não encontrou um eixo narrativo dominante.

Talvez por isso a sensação seja de que a eleição ainda não começou, mesmo para aqueles que estão em campanha há meses.

A pré-campanha de 2026 parece sofrer de um paradoxo curioso: nunca se produziu tanto conteúdo político e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil despertar interesse genuíno do eleitor.

No fim das contas, a tecnologia mudou, os algoritmos mudaram e as plataformas mudaram. Mas a essência continua a mesma.

Política continua sendo a arte de convencer pessoas.

E pessoas continuam sendo convencidas por propósito, identificação e confiança e não apenas por vídeos bonitos e cronogramas lotados.

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