Entenda o que diz o relatório da PF sobre o caso dos R$ 500 mil e contratos de R$ 3,8 milhões no Pará - Estado do Pará Online

Entenda o que diz o relatório da PF sobre o caso dos R$ 500 mil e contratos de R$ 3,8 milhões no Pará

Documento detalha operação, fala sobre o uso de “laranja”, movimentações financeiras, contratos com a Fundação Cultural do Pará e hipóteses de corrupção envolvendo servidor público

A Polícia Federal aponta que a investigação sobre o saque de R$ 500 mil em Belém envolve indícios de uso de “laranja”, movimentações financeiras consideradas atípicas, contratos públicos que somam R$ 3,8 milhões e a participação de um servidor da Casa Civil do Estado no momento da operação.

A investigação que resultou na prisão em flagrante de três pessoas reúne depoimentos, análises financeiras, registros de contratos e a descrição completa da ação realizada no dia 16 de março de 2026.

Como começou a investigação

A apuração teve origem a partir de um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que identificou movimentações consideradas atípicas envolvendo a empresa Solucione Produções Comércio de Livros e Serviços Ltda.

Segundo o relatório, foi detectado o provisionamento para saque de R$ 500 mil em espécie, realizado posteriormente em uma agência do Banco do Brasil, em Belém. A movimentação chamou atenção também por envolver valores incompatíveis com a capacidade financeira do responsável pelo saque, o que motivou o monitoramento da operação pela Polícia Federal.

De acordo com o documento, Ronaldy Rian Moreira Gomes realizou o saque e se dirigiu a um veículo Land Rover blindado que aguardava nas proximidades. Dentro do carro estavam Felipe Linhares Paes, que conduzia o veículo, e Michel Silva Ribeiro, servidor com vínculo ativo na Casa Civil do Estado.

Durante a abordagem, Felipe tentou fugir, desobedecendo ordens policiais e apontando uma arma de fogo contra os agentes, o que levou à realização de disparos de advertência. O grupo foi contido no local e o dinheiro apreendido.

Uso de “laranja” e movimentações financeiras sob suspeita

Um dos pontos centrais do relatório é a confirmação, em depoimento, do uso de interposta pessoa para movimentação financeira. Ronaldy afirmou que atuava como sócio formal da empresa Solucione a pedido de Felipe Linhares Paes, recebendo cerca de R$ 3 mil mensais, sem exercer função real na empresa.

Segundo o relatório, Ronaldy afirmou atuar como sócio formal da empresa sem exercer função efetiva, recebendo remuneração mensal de R$3 mil, o que é tratado pela PF como uso de “laranja” para ocultação de patrimônio e da identidade do real beneficiário das operações financeiras. O documento também aponta a existência de uma rede de pessoas jurídicas interligadas, com titulares sem capacidade econômica compatível, utilizadas para circulação de recursos.

O relatório descreve que a empresa investigada recebeu valores de pessoas já investigadas por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, o que reforçou a suspeita sobre a origem dos recursos movimentados. Além disso, a justificativa apresentada para o saque, pagamento de bandas e fornecedores, foi considerada incompatível com a atividade formal da empresa, registrada como comércio de livros.

Contratos com a Fundação Cultural do Pará

A investigação identificou que a empresa Solucione mantém contratos com a Fundação Cultural do Pará (FCP), firmados por inexigibilidade de licitação. Segundo o relatório, os contratos somam R$ 3,8 milhões em empenhos no ano de 2026, com pelo menos R$ 1,33 milhão já pago. O documento destaca que esse tipo de contratação exige justificativa técnica e que a análise desses contratos faz parte da investigação.

A presença de Michel Silva Ribeiro no veículo durante a operação é tratada como elemento relevante no relatório. Michel é identificado como servidor da Casa Civil do Estado, com vínculo ativo, e sua participação no contexto do saque levantou, em tese, a hipótese de corrupção passiva, a depender do avanço das investigações.

O relatório da Polícia Federal incorpora também uma planilha apreendida na operação, na qual aparecem os nomes de Raimundo Santos (PSD), Henderson Pinto (MDB), Keniston Braga (MDB) e Olival Marques (MDB) ao lado de valores que variam de R$ 100 mil a R$ 538 mil, sem explicação sobre a origem ou a finalidade das quantias.

Em depoimento, Michel afirmou que estava no local para tratar de produção de livros e negou conhecimento sobre o saque, os contratos ou qualquer vantagem indevida. Felipe Linhares Paes optou por permanecer em silêncio durante o interrogatório. Já Ronaldy confirmou que atuava como sócio formal sem participação efetiva na empresa e que realizou o saque a pedido de Felipe.

Crimes investigados

Com base nos elementos reunidos, a Polícia Federal aponta, em tese, a prática de diversos crimes, entre eles: lavagem de dinheiro, associação criminosa, corrupção ativa e passiva, resistência à prisão e porte ilegal de arma de fogo. A tipificação final dependerá do avanço do inquérito e da análise judicial.

O relatório indica a continuidade das investigações, com análise de dados bancários, dispositivos eletrônicos apreendidos e aprofundamento dos vínculos entre os envolvidos. Também foram solicitadas diligências para identificar patrimônio, relações societárias e eventual participação de outros envolvidos.

A investigação se conecta com apuração já publicada pelo EPOL, que identificou contratos públicos ligados à empresa investigada, com valores recorrentes em projetos culturais no estado, e também com a apreensão de uma planilha que cita nomes de deputados federais do Pará associados a valores, sem detalhamento sobre a natureza das quantias. A reportagem segue acompanhando o caso e mantém aberto o espaço para eventual manifestação dos envolvidos.

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