Meio Ambiente

Vírus humano da hepatite B é detectado pela primeira vez em macacos silvestres da Amazônia

Por Daniel Vinagre
08/07/2026 às 10:17 • 5 min

Foto: Gustavo Canale/ Mongabay

Um estudo científico identificou, pela primeira vez, a presença do vírus humano da hepatite B em primatas silvestres. A pesquisa foi realizada em diferentes áreas da Amazônia brasileira e aponta que a aproximação entre pessoas e animais, favorecida pelo desmatamento e pela ocupação dos territórios florestais, pode facilitar a transmissão de doenças humanas para a fauna.

Os pesquisadores analisaram amostras de sangue e de tecidos do fígado de 88 primatas de 28 espécies. Os animais foram encontrados em duas regiões: uma área impactada pela presença humana, entre Rondônia, Mato Grosso e Amazonas, e uma região remota e preservada ao longo do alto Rio Japurá, no Amazonas.

O vírus foi detectado em 17 dos 49 animais examinados nas áreas degradadas, o equivalente a 34,7%. Entre os 39 primatas da região preservada, nenhum apresentou resultado positivo.

Presença humana aumentou possibilidade de infecção

As amostras foram coletadas entre julho de 2009 e novembro de 2013. Para avaliar a influência da ocupação humana, os pesquisadores utilizaram um modelo estatístico que relacionou a ocorrência do vírus nos primatas à densidade populacional das áreas estudadas.

Os resultados indicaram que a quantidade de pessoas vivendo nas proximidades foi um fator significativo para prever a possibilidade de infecção nos animais.

O estudo sustenta que o desmatamento e a expansão das atividades humanas reduzem as barreiras naturais entre as espécies. Com a destruição e a fragmentação dos habitats, os primatas passam a ter maior contato com pessoas, comunidades, áreas urbanizadas e atividades econômicas.

A pesquisa, publicada em 2026, classificou o resultado como uma evidência de que primatas amazônicos estão mais expostos a doenças humanas em regiões afetadas pelo desmatamento.

Vírus encontrado nos macacos tem origem humana

A análise genética reforçou a hipótese de transmissão de humanos para os animais. Os pesquisadores estudaram partes do material genético do vírus e identificaram os genótipos HBV-A e HBV-D, também encontrados nas populações humanas das regiões investigadas.

As sequências virais identificadas nos primatas se agruparam com linhagens humanas que circulam localmente, indicando um processo de transmissão reversa, também chamado de antroponose.

Nesse tipo de transmissão, o caminho tradicional das zoonoses é invertido: em vez de o animal transmitir uma doença para as pessoas, o patógeno passa dos seres humanos para a fauna silvestre.

Diferentes espécies foram infectadas

O vírus foi encontrado em primatas de diferentes grupos. Entre as espécies com amostras positivas e submetidas à análise genética estão o bugio Alouatta puruensis, o macaco-aranha Ateles chamek, o macaco-prego Sapajus apella, o parauacu Pithecia irrorata e o zogue-zogue Plecturocebus bruneus.

Também foram encontrados animais infectados entre gêneros como Cebuella, Saguinus, Aotus e Saimiri.

A presença do vírus em diferentes espécies sugere que a transmissão não está restrita a apenas um grupo de primatas, ampliando a preocupação com os efeitos da infecção sobre a biodiversidade amazônica.

Caça e criação de animais podem ampliar contato

Os pesquisadores apontam que atividades como a caça, o manuseio e o consumo de carne silvestre, além da captura de macacos para criação como animais de estimação, podem aumentar as oportunidades de contato com sangue, saliva e outros fluidos corporais.

O artigo destaca que primatas de gêneros como Alouatta, Ateles e Sapajus estão entre os animais caçados para subsistência na Amazônia. Macacos-de-cheiro, do gênero Saimiri, também são frequentemente capturados para o comércio e a criação doméstica.

Essas práticas não significam que comunidades tradicionais sejam responsáveis pela circulação do vírus. O estudo relaciona o problema a um cenário mais amplo de desmatamento, ocupação desordenada, fragmentação das florestas e intensificação das interações entre humanos e animais.

Infecção também ameaça a conservação

Ainda não se sabe quais sintomas a hepatite B humana pode provocar nos primatas amazônicos ou se a infecção pode causar doença crônica, danos ao fígado ou mortes.

A circulação de um vírus humano na fauna pode representar uma ameaça adicional para espécies que já enfrentam perda de habitat, caça e redução populacional. Os animais também podem se tornar reservatórios do vírus, permitindo sua permanência e evolução fora das populações humanas.

Existe ainda a preocupação com o chamado “spillback”, quando um patógeno transmitido inicialmente pelas pessoas aos animais sofre alterações e posteriormente retorna à população humana.

Os pesquisadores defendem a ampliação da vigilância sanitária nas áreas de maior contato entre pessoas e animais, com acompanhamento integrado da saúde humana, da fauna e dos ambientes florestais. Também recomendam novos estudos para avaliar os efeitos clínicos da infecção nos macacos e os riscos de o vírus voltar a circular entre humanos.

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