Política

Exclusivo: evangélicos reúnem-se e ampliam pressão por Josué Paiva como vice de Hana

Reunião reservada nesta segunda-feira (27) aproximou diferentes convenções em reação à possibilidade de a vaga ficar com o PT; Dirceu Ten Caten continua como indicação petista e decisão do MDB permanece aberta

Por Estado do Pará Online
27/07/2026 às 23:42 • 7 min

A disputa pela vaga de vice-governador na chapa de Hana Ghassan (MDB) ganhou um novo capítulo nesta segunda-feira (27). Fontes ligadas a diferentes igrejas confirmaram ao Estado do Pará Online que lideranças evangélicas se reuniram reservadamente para construir uma posição comum: reivindicar que o segmento ocupe o posto e se contrapor à possibilidade de a indicação ficar com o Partido dos Trabalhadores.

De acordo com relatos convergentes obtidos pela reportagem, o encontro consolidou o nome do deputado estadual Josué Paiva (Avante) como a opção defendida pelo grupo. A avaliação dos participantes é de que a presença de um representante evangélico na composição majoritária permitiria ampliar a base religiosa da governadora e dar voz política a um segmento que reivindica participação direta nas decisões sobre a chapa.

A reunião não resultou, até agora, em comunicado conjunto. Também não significa que Hana ou o MDB tenham aceitado o nome apresentado. O movimento, porém, eleva a pressão sobre uma escolha que já mobilizava o PT, o setor produtivo e lideranças religiosas.

Avante já lançou Josué Paiva

A articulação ocorreu um dia depois de o Avante oficializar, no domingo (26), a pré-candidatura de Josué Paiva a vice-governador. Em nota, o partido afirmou que o lançamento possui o apoio da COMIEADEPA e de outras igrejas evangélicas. A pré-candidatura já havia sido noticiada pelo Estado do Pará Online.

O perfil institucional da Assembleia Legislativa identifica Josué Paiva como deputado estadual pelo Avante, empresário, bacharel em Teologia e pastor membro da Assembleia de Deus. Ele foi eleito em 2022 com 36.874 votos, quando ainda estava filiado ao Republicanos. A informação consta no portal da Alepa.

Na prática, o anúncio partidário colocou o nome de Josué formalmente na mesa. A reunião desta segunda-feira acrescentou uma nova dimensão ao movimento: a tentativa de reunir diferentes convenções e denominações em torno da mesma indicação.

Articulação alcança diferentes igrejas

Segundo as fontes ouvidas pelo EPOL, participaram das conversas ou foram mobilizados interlocutores ligados à COMIEADEPA, presidida pelo pastor Océlio Nauar de Araújo; à CONFRADESPA, no sul do Pará, liderada pelo pastor Marinaldo Soares Souza; e à CIADSETA-PA/MT, sediada em Redenção e presidida pelo pastor Possidônio Martins Reis.

As tratativas também envolveriam representantes da CONEMAD-PA Norte, do Ministério de Madureira, ligada ao pastor Fernando Luiz Viana Alves; da CONFINORPA, associada pelas fontes ao pastor Manuel Jerônimo S. Filho; e da direção estadual da Igreja do Evangelho Quadrangular, sob a liderança do pastor Josué Bengtson.

O grupo do Guamá liderado pelo pastor Lourival Pereira, interlocutores ligados à Igreja Universal do Reino de Deus e associados ao pastor Evandro Garla, além da Igreja-Mãe das Assembleias de Deus em Belém, representada nas conversas pelo pastor Samuel Câmara, também foram citados pelas fontes como integrantes ou participantes da articulação.

A presença individual de cada uma dessas lideranças no encontro não foi confirmada publicamente. A COMIEADEPA confirma em seu portal institucional que Océlio Nauar ocupa a presidência da convenção, mas a entidade ainda não divulgou manifestação oficial sobre a reunião ou sobre eventual apoio conjunto de todas as instituições mencionadas.

PT mantém Dirceu Ten Caten na disputa

Do outro lado da negociação, o PT sustenta a indicação do deputado estadual Dirceu Ten Caten. O parlamentar foi escolhido pelo diretório estadual petista para integrar como vice uma eventual chapa liderada por Hana. A definição foi tornada pública em março, embora nunca tenha sido confirmada pelo MDB como composição fechada. Dirceu confirmou publicamente ter sido escolhido pelo partido.

Conforme informações já reunidas pelo EPOL, a indicação de Dirceu foi aprovada internamente em dezembro do ano passado, por 70 votos a 13. A pressão petista aumentou nos últimos dias. Segundo relatos de integrantes do partido, o senador Beto Faro informou à militância que, caso o MDB rejeite o nome indicado, o PT deverá levar à próxima reunião de seu Diretório Estadual a proposta de lançar candidatura própria ao Governo do Pará.

O movimento representaria uma mudança importante. Até então, a hipótese de candidatura própria não ocupava o centro da estratégia petista no estado, e Beto Faro era considerado um dos principais defensores da aliança com o grupo político liderado por Helder Barbalho.

Antes da reunião desta segunda-feira, fontes ligadas às igrejas já relatavam que dirigentes da Assembleia de Deus e da Quadrangular resistiam à entrega da vaga ao PT e poderiam não se engajar na campanha de Hana caso a composição fosse confirmada. O novo encontro transforma uma resistência antes dispersa em uma reivindicação organizada por espaço na chapa.

Lula também pesa na negociação

A disputa estadual possui ainda uma dimensão nacional. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisa de um palanque definido no Pará, enquanto interlocutores da campanha de Hana descrevem como pragmática e pouco orgânica a relação política da governadora e de seu marido com o PT.

O poder de negociação dos petistas cresceu à medida que Lula passou a liderar os principais cenários nacionais. Pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (24) mostrou Lula com 48% e Flávio Bolsonaro com 43% em uma simulação de segundo turno. Os números foram confirmados pela Reuters.

Uma eventual rejeição ao PT na chapa estadual, portanto, exigiria a construção de outra solução para o palanque presidencial. Nesse cenário, setores petistas enxergam a candidatura de Celso Sabino ao Senado como uma possível ponte com Lula. Celso Sabino mantém proximidade com integrantes do Governo Federal e recebeu, em Belém, um manifesto de apoio aprovado por militantes e lideranças do PT.

Essa alternativa, contudo, não elimina o peso da vaga de vice. Para os petistas, ocupar a composição majoritária garantiria participação direta na campanha ao Governo do Estado. Para os evangélicos, entregar o posto ao PT reduziria a influência política de um segmento que se considera decisivo na eleição paraense.

Escolha testa autonomia de Hana

A definição da vice também passou a ser observada como um teste da autonomia política de Hana em relação ao ex-governador Helder Barbalho. Informações de bastidores já publicadas pelo EPOL indicam que a governadora estruturou um núcleo jurídico e financeiro próprio para a campanha, separado da equipe diretamente ligada a Helder e com participação de seu marido e de um dos filhos.

O movimento não representa, por si só, rompimento com o principal líder do MDB no Pará, mas alimenta a expectativa de que Hana pretenda exercer controle pessoal sobre decisões estratégicas de sua candidatura e de um eventual novo governo.

Além de PT e igrejas, representantes do setor empresarial, do agronegócio e da indústria também defendem que a vaga seja ocupada por um nome identificado com o setor produtivo. A governadora precisa, assim, administrar pressões de aliados com interesses distintos e, em alguns casos, incompatíveis.

Até o momento, Hana Ghassan e o MDB não anunciaram oficialmente quem ocupará a vaga. O Avante formalizou a pré-candidatura de Josué Paiva, o PT mantém Dirceu Ten Caten e as lideranças evangélicas aumentam a mobilização para impedir que a decisão seja tomada sem a participação das igrejas.

Enquanto não houver anúncio da governadora e deliberação das instâncias partidárias, todos os nomes permanecem no terreno das pré-candidaturas e das articulações. O espaço do EPOL permanece aberto às manifestações de Hana Ghassan, MDB, PT, Avante, Josué Paiva, Dirceu Ten Caten e das lideranças e instituições religiosas mencionadas.

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