A fotojornalista Ana Mendes abre, a partir de 17 de janeiro, a exposição “Quem é pra ser já nasce”, na Associação Fotoativa, em Belém. A mostra reúne 24 fotografias e colagens em preto e branco produzidas ao longo de quase um ano com mulheres indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco babaçu e assentadas do Maranhão, todas lideranças em seus territórios.
Não é uma exposição sobre morte, embora ela nasça da ameaça.
Também não é um trabalho sobre violência, ainda que a violência atravesse cada imagem como um ruído de fundo. O projeto propõe outra pergunta, mais difícil e mais rara: o que vem depois do medo?
O ensaio parte de uma experiência direta da própria artista, que passou a ser ameaçada após anos de atuação como fotojornalista e pesquisadora na Amazônia. A partir disso, o trabalho desloca o foco da denúncia para a permanência. Em vez de imagens de confronto, surgem fotografias que apostam no tempo, no gesto cotidiano e na continuidade da vida.
As mulheres retratadas aparecem longe de estereótipos. Não são apresentadas como vítimas nem como símbolos abstratos de resistência, mas como presenças inteiras, atravessadas por memória, afeto e vínculo com seus territórios. A fotografia funciona menos como registro e mais como espaço de encontro.
Entre as imagens, um autorretrato estabelece um diálogo direto entre quem fotografa e quem é fotografada, criando um campo comum entre defensoras da terra, comunicadores e povos tradicionais. Grupos distintos, mas conectados por experiências de risco e por estratégias coletivas de sobrevivência.
Com curadoria de Nay Jinknss, a exposição evita leituras espetacularizadas e aposta em uma experiência de fruição mais silenciosa, que exige atenção e tempo do público. O percurso expositivo reforça a recusa ao exotismo e à heroificação.
O título da mostra vem de uma frase dita por Pjih-cre Akroá Gamella, liderança indígena retratada no ensaio. A expressão atravessa o trabalho como ideia de herança e transmissão de saberes, aprendidos com mães, avós e ancestrais, e continuamente atualizados no presente.
A exposição integra uma pesquisa fomentada pelo Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia e também dialoga com uma pesquisa acadêmica desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Pará. Em Belém, ocupa a Associação Fotoativa.

Serviço
Exposição fotográfica “Quem é pra ser já nasce”
Abertura: 17 de janeiro, às 10h
Visitação: de 17 de janeiro a 20 de fevereiro de 2026
Associação Fotoativa – Praça das Mercês, 19, Campina, Belém
Funcionamento: terça a sábado, no período da tarde
Entrada gratuita
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